EUA: Solidariedade à greve dos trabalhadores da JBS!
N. Irazy
Na segunda-feira, 16 de março, cerca de 3.800 trabalhadores em Greeley, Colorado, entraram em greve. Representados pelo UFCW (United Food and Commercial Workers International Union – União Internacional dos trabalhadores da alimentação e do comércio)
Local 7, eles enfrentam a multinacional brasileira JBS, que frequentemente comercializa seus produtos sob a marca Swift Beef Co. A JBS é uma enorme multinacional que registrou um faturamento líquido de US$ 22,6 bilhões em 2025; na verdade, é a maior empresa de processamento de carne bovina do mundo. Desde 1985, durante a histórica greve da Hormel, não ocorria uma greve dessa grandeza no setor de frigoríficos.
“Queremos ser tratados como seres humanos”, afirmou Deborah Rodarte, funcionária da JBS, em comunicado do sindicato.
Os trabalhadores em greve merecem todo o nosso apoio; seria difícil encontrar um setor da classe trabalhadora dos Estados Unidos que enfrente um patrão pior que esse. A JBS já ficou “famosa” nos Estados Unidos no ano passado, quando foi considerada responsável pelo uso de trabalho infantil por meio de empresas terceirizadas.
Há uma infinidade de motivos pelos quais os trabalhadores representados pelo UFCW Local 7 votaram por 99% a favor da greve. A mísera proposta da empresa de um aumento de 2% ao longo da vigência do contrato foi um tapa na cara do trabalhador. Ela não acompanhou nem de longe a inflação nem ajudou a equiparar os salários ao custo de vida. O reembolso pelo equipamento de trabalho também é fundamental. Em alguns casos, os trabalhadores podem ter que pagar US$ 1.100 do próprio bolso para adquirir o equipamento necessário para realizar o trabalho para o qual foram contratados!
As condições no chão de fábrica, como o aumento do ritmo da linha de produção, também causaram grande insatisfação. Os trabalhadores entraram com uma reclamação na Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego (em inglês, Equal Employment Opportunity Commission) alegando que, no segundo turno de trabalho — com mais trabalhadores haitianos do que no primeiro —, a velocidade da linha passou de cerca de 250-300 cabeças de gado por hora para 390-420! O aumento do ritmo de produção é a prática de intensificar o trabalho dos operários para extrair mais valor de seu trabalho no mesmo período de tempo. Esse nível de aceleração transforma um trabalho já acelerado, exaustivo e perigoso em uma situação insuportável, na qual o trabalhador é forçado a arriscar a vida e a integridade física para encher os cofres dos patrões.
Na linha de produção, os trabalhadores são obrigados a segurar ganchos de carne com uma mão e facas com a outra por horas a fio, cortando e fatiando várias e várias vezes durante todo o turno. Essa repetição extenuante causa lesões nas mãos, como limitações na amplitude de movimento e na capacidade de uso total das mãos. As fábricas de processamento de carne são regularmente classificadas como um dos empregos mais perigosos e mortais nos Estados Unidos devido às más condições de trabalho, regulamentos de segurança ineficazes e aumentos de produtividade orientados pelo lucro.
Na tentativa de quebrar a greve, a JBS realizou uma campanha antissindical. O UFCW Local 7 denunciou essa campanha como repleta de práticas trabalhistas injustas, como a intimidação de trabalhadores em reuniões a portas fechadas e em privação da liberdade de ir e vir — das quais foram excluídos os delegados sindicais e representantes de fabrica. Os trabalhadores foram ameaçados com demissão, a não ser que se desligassem do sindicato e furassem o piquete. A empresa também mentiu aos trabalhadores sobre seus direitos de greve, ameaçando-os com represálias. Todas essas são tentativas ilegais de intimidar os trabalhadores para que abaixem a cabeça e obedeçam. A aprovação de 99% da greve demonstra o fracasso retumbante da campanha antissindical da JBS.
A luta dos trabalhadores da JBS em Greeley vai além do chão de fábrica. As questões da imigração e do tráfico de pessoas também desempenham um papel central na compreensão da relação entre os trabalhadores da JBS e os gerentes e proprietários. Os trabalhadores do setor de frigoríficos constituem um segmento da classe com alta proporção de imigrantes, e cerca de 50 idiomas são falados no chão de fábrica. Em Greeley, um número significativo de trabalhadores são imigrantes haitianos, protegidos pelo Status de Proteção Temporária (Temporary Protective Status ou TPS, em inglês), um programa que agora está sob ataque do governo Trump.
“¡Huelga!”, que significa “greve!” em espanhol, é frequentemente ouvido nas linhas de frente do piquete. Essa composição internacional da força de trabalho condensa em um único chão de fábrica a frase frequentemente repetida: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”
O tráfico de pessoas e as condições de moradia desumanas também fazem parte dessa história. Trabalhadores imigrantes haitianos, atraídos para trabalhar na JBS sob a promessa de moradia gratuita e trabalho digno, logo se viram amontoados em alojamentos totalmente indignos. “Um grupo desses trabalhadores entrou com uma ação coletiva alegando que ‘lhes foi prometida moradia gratuita, mas, ao chegarem, foram obrigados a viver em condições de superlotação e inabitáveis no Rainbow Motel, nas proximidades’.”
Com as condições de vida e de trabalho atingindo níveis insuportáveis, um trabalhador comparou sua situação à escravidão. Sua história foi contada na revista Mother Jones: “Auguste me disse que não consegue superar a humilhação. Todos os dias, no trabalho, ele passava pela área de abate da fábrica, onde cada vaca tem seu próprio pequeno curral, mas esperava-se que ele dividisse um espaço minúsculo com cinco de seus colegas. Ele se pegava pensando que as vacas estavam em melhor situação. ‘Sinto que’, disse ele, ‘estava sendo tratado como um escravo.’”
Essas condições fizeram com que a justa indignação se transformasse em resistência ativa antes mesmo da votação da greve atual. Alguns trabalhadores começaram a “coordenar pequenas paralisações, deixando a carne passar pela esteira transportadora sem ser cortada nem aparada, enquanto batiam com seus ganchos de carne nas laterais das bancadas de metal para alertar os supervisores de que o sistema de esteira transportadora precisava ser interrompido”.
A greve na JBS precisa do apoio de todo o movimento sindical. A arrecadação de fundos para a greve, as declarações de solidariedade de nossos sindicatos locais, organizações universitárias e coalizões de defesa das liberdades civis servirão para construir o apoio necessário à greve.
A CSP-Conlutas, uma federação sindical com 3,5 milhões de membros no Brasil, já se manifestou em apoio à greve. Como empresa brasileira, a JBS já tem um histórico de corrupção e superexploração em seu país, subornando políticos e reduzindo artificialmente os salários. Depois que o UFCW Local 7 aprovou a votação para entrar em greve, “a CSP-Conlutas divulgou uma declaração elogiando e apoiando os trabalhadores. Eles escreveram que ‘a paralisação dos trabalhadores americanos se insere em uma luta mais ampla da classe trabalhadora contra a exploração e a ganância capitalista’”.
Esta greve ocorre em um ambiente de trabalho verdadeiramente internacional e marcado pela presença de imigrantes. Os trabalhadores estão em greve contra uma empresa incrivelmente predatória, resistindo a todos os abusos tradicionais dos patrões, enquanto enfrentam a ameaça de repressão e deportação por parte do governo Trump, ao qual os proprietários da JBS doaram US$ 5 milhões durante a posse. A deportação de trabalhadores combativos do setor de frigoríficos é uma ferramenta que já foi infamemente empregada pelos capitalistas e seu Estado no passado; devemos ficar atentos para impedir que isso aconteça novamente.
Os trabalhadores da indústria de processamento de carne em Greeley, tanto locais quanto imigrantes, que falam dezenas de idiomas, estão lutando unidos contra um gigante multibilionário.
Os trabalhadores da JBS estão dando um exemplo importante para todo o movimento de trabalhadores. Sua determinação e coragem demonstram a enorme contribuição que trabalhadores com experiências de todo o mundo podem dar para reconstruir e fortalecer os sindicatos nos EUA. E sua greve sugere, desde o início, que a ação sindical conjunta pode ser elevada como uma das principais ferramentas utilizadas para defender todos os imigrantes vitimados pela máquina do MAGA (“Fazer a América Grande de Novo”, em português).
Para apoiar os trabalhadores em greve do UFCW Local 7, acesse o site para fazer uma doação ao fundo de greve. Solidariedade para sempre!