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Fim da escala 6×1 pode ajudar o pequeno comércio

Por mais que a grande mídia faça propaganda contra o fim da escala 6x1, a redução da jornada de trabalho com a manutenção do poder de compra pode ajudar a evitar a bancarrota do pequeno comércio

Glauco Aiex Corrêa, de Barra do Piraí (RJ)

23 de março de 2026
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Consumidores fazem compras na antevéspera de Natal no Saara, na região central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Bras

O raciocínio fácil proposto aos incautos é este: “quanto mais empregados pra fazer o serviço que os empregados fazem atualmente, trabalhando 44 horas por semana, mais custos para sua empresa”. E não está errado quando se coloca o foco apenas em uma empresa, com cada comerciante olhando apenas para seu próprio umbigo.

Desse jeito, se a escala máxima de trabalho semanal for de 44 para 40 horas, haverá necessidade de contratação de cerca de mais 10% de força de trabalho. Um custo bem grande para um pequeno comércio que, atualmente, já está recessivo. Mas, antes de falar em um novo custo, vamos entender por que o pequeno comércio já está no buraco.

Informalidade que prejudica o pequeno e médio comércio

O pequeno comerciante já está passando aperto antes mesmo de qualquer mudança na jornada. Não é azar, não é apenas a economia global, não são apenas as grandes plataformas da Internet. Segundo o Instituto Latino Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE), ao fim de 2023, já havia 39,5 milhões de trabalhadores informais no Brasil, o maior número da série histórica. Desde a crise de 2016, esse número subiu para um novo patamar e nunca mais voltou atrás.

Quase um terço de toda a classe trabalhadora brasileira está na informalidade. Sem carteira, sem piso salarial, sem quase nada. E o que isso tem a ver com o caixa do nosso amigo? Tudo. Porque esses trabalhadores ganham muito menos e, portanto, gastam muito menos.

O ILAESE mostra que o trabalhador sem carteira recebia, em 2017, 43,3% a menos do que o com carteira. Mesmo com alguma melhora recente, a diferença ainda era de 26,2% em 2023. São dezenas de milhões de pessoas consumindo muito menos do que consumiriam com um emprego formal. Esse é o buraco no faturamento do comércio. Tem nome: precarização do trabalho.

E olha que ironia: o trabalhador informal autônomo muitas vezes trabalha mais horas do que qualquer empregado formal, justamente para tentar compensar o baixo rendimento. Trabalha mais, ganha menos, consome menos. É exatamente esse cliente que não entra na loja do pequeno empresário.

E não para por aí. O ILAESE aponta ainda 44,6 milhões de brasileiros sem emprego em 2023 — número próximo ao total de trabalhadores formais do país. São outros 44 milhões de pessoas que praticamente não consomem. Some isso aos 39,5 milhões de informais ganhando menos, e já se tem a explicação para o movimento fraco nas lojas.

Todo trabalhador é também consumidor

É o conjunto desses trabalhadores, consumidores, que movimenta o comércio. Então, se a massa de trabalhadores brasileiros aumentar em função da redução das horas trabalhadas por cada um, o mercado consumidor poderá aumentar junto. Estamos falando em obrigar todas as empresas a diminuir para 40 horas semanais a jornada de cada trabalhador, potencializando o aumento da demanda por produtos vendidos no comércio. As micro, as pequenas e as grandes. Comércios, bancos e indústrias.

Mesmo tendo que contratar mais empregados, o aumento geral do poder de compra dos trabalhadores é benéfico para o pequeno e médio empresário, se não houver trapaças e flexibilizações sob encomenda para as grandes empresas. Cada comerciante deve fazer a conta com seus próprios dados, para seu negócio real, podendo projetar aumentos variados da demanda de suas mercadorias com o fim da escala 6×1 no Brasil.

Tempo livre é acesso às cidades e ao comércio

Outro aspecto muito positivo na redução da jornada de trabalho será sua adequação na escala 5×2, isto é, 2 dias de descanso para cada 5 dias trabalhados. Isto significa que os trabalhadores terão mais 1 dia inteiro para acessar a cidade, os centros comerciais, e fazer suas compras. O trabalhador terá tempo de gastar com o comércio local, o comércio da cidade onde ele mora, do bairro onde ele mora.

Isso não é de menor importância, porque a preferência por compras online está, muitas vezes, associada à falta de tempo, assim como o acesso presencial ao comércio é catalisador de vendas. É nesse sentido que a redução da jornada de trabalho, sobretudo se aliada a outras políticas de acesso à cidade, como a implementação da Tarifa Zero, transporte coletivo de graça a todos (que de quebra faz aumentar o orçamento familiar), poderá revigorar os decadentes centros comerciais das cidades e bairros, que se mantiveram esvaziados após a pandemia de 2020.

Quem paga essa conta?

Esse é um ótimo cenário, mas quem pagará a conta? Afinal, de onde virá o dinheiro para pagar o aumento de contratações totais? A resposta é simples: essa conta já está sendo paga. Só que por quem não deveria pagar. Hoje, quem banca a jornada excessiva de 44 horas semanais é o próprio trabalhador, com seu tempo de vida e com a precarização de sua existência, como ocorre com os assalariados e autônomos, como já vimos.

E quem embolsa essa diferença? Os números não deixam dúvida. Os 200 maiores grupos econômicos do Brasil movimentam uma riqueza equivalente a 62,55% do PIB nacional — 6,791 trilhões de reais (dados de 2023). Para os trabalhadores que produzem essa riqueza, de 100%, sobram apenas 24,2%. O resto é dividido entre bancos, acionistas e o próprio Estado, de acordo com o ILAESE.

E enquanto isso, apenas o volume financeiro acumulado — a riqueza guardada, aplicada em investimentos — pelos grupos da média e grande burguesia saltou de 577 bilhões de reais em 2013 para 2,117 trilhões em 2023: um crescimento de 181%, num período em que a inflação foi de 77%. Ou seja: cresceram mais que o dobro acima da inflação, enquanto o trabalhador perdia renda e o pequeno comércio ia murchando.

Não é coincidência. É a mesma conta. Há décadas as grandes indústrias e as grandes empresas vêm aumentando sua fatia no bolo da riqueza produzida no Brasil enquanto a participação dos salários no PIB não para de cair. Logo, não estamos falando de criar um custo novo com a redução da jornada de trabalho. Estamos falando de devolver ao trabalhador uma parte do valor que ele mesmo produziu e que nunca lhe foi pago.

Os preços gerais serão aumentados?

Há o temor de que a indústria repasse custos para o preço de seus produtos, temor esse, inclusive, fomentado pela grande imprensa. Fazendo isso, ela estaria destruindo com uma mão o que a redução da jornada constrói com a outra: reduziria o poder de compra dos salários, esvaziaria o mercado consumidor e anularia todos os benefícios. Isso não seria novidade no capitalismo. Aliás, é um dos elementos geradores de crise econômica.

Se o capitalismo pretende ser, uma vez mais, uma cobra que devora a si mesma, a questão da redução da jornada de trabalho ainda é uma luta em curso. No entanto, o mais importante que todos vejam é que o aumento da exploração da classe trabalhadora é prejudicial ao pequeno e médio comerciante, que também é trabalhador.

É nesse sentido que a melhora geral de vida dos trabalhadores é benéfica para o comércio. É por isso que, nessa luta, o lado do trabalhador autônomo é o lado da classe trabalhadora em geral, de modo que as pautas dos grandes empresários apenas sacrificam e comprimem os pequenos empresários. Como diria Trotsky, “Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem infalivelmente dos males que ele mesmo engendrou, então que morra!”

Todos os dados foram retirados do Anuário Estatístico do Ilaese 2025.

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