Internacional

Fora imperialismo ianque! Uma viagem em apoio ao povo cubano

Hertz Dias, Membro da Secretaria de Negros do PSTU e vocalista do grupo de rap Gíria Vermelha

26 de março de 2026
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Na última semana, estive em Cuba. O país da revolução mais celebrada do continente, uma pequena ilha do Caribe que enfrentou um império e conquistou não só sua independência como também educação, saúde e, por alguns anos, uma economia planificada voltada às necessidades dos trabalhadores e povo cubano.

Hoje, Cuba está ameaçada de ocupação militar por Trump. Diante de tanta importância histórica para os revolucionários e da necessidade de prestar minha solidariedade nesse momento de ataque imperialista, desembarquei em Cuba tentando entender por que essa revolução não existe mais, por que suas conquistas estão sendo perdidas e o que existe hoje é um sistema capitalista operando com grande controle sobre a economia da ilha, coordenado por um regime repressivo que vigia a população.

Dia 1: dos apagões ao diálogo com o governo Trump

Cheguei e já vivi a “experiência completa”, como disseram os cubanos, rindo de sua própria situação. Logo no primeiro dia nos deparamos com as consequências da política de Trump, impedindo o envio de petróleo da Venezuela para Cuba. Ficamos mais de trinta horas sem energia, sem água e sem internet, um impacto imenso para a população que já vive sob um cenário de muitas carências.

No fim da tarde, ao conversar com os cubanos, soubemos do anúncio das medidas de abertura comercial em um diálogo com os Estados Unidos, garantindo a possibilidade de investimentos nos setores energéticos, de infraestrutura em geral e até financeiro.

A pergunta que os cubanos nos fizeram foi: “Por que em uma semana dialogam com os Estados Unidos e em mais de 60 anos não conseguem ouvir a própria população?”

Dia 2: fome, pessoas em situação de rua e desigualdades latino-americanas

No segundo dia seguíamos sem luz, mas com gás. Havíamos levado goma de tapioca do Brasil, café e alguns temperos para tentar cozinhar por lá. Fomos em busca de alguma proteína. O único supermercado que encontramos foi um das “Tiendas MLC”, lugares dolarizados que vendem produtos importados a preços exorbitantes.

Nas ruas, vi amontoados de lixo e pessoas catando comida neles. Vi uma senhora pegar um ovo e depois se desfazer dele, pois estava podre. Fiquei de coração partido, mas, ao mesmo tempo, repleto de ódio. O bloqueio econômico histórico imposto a Cuba tem culpa, mas o principal responsável tem nome: capitalismo. A miséria e a fome são produtos da restauração do capitalismo na ilha. Gastando onze vezes mais com turismo que com comida, o governo cubano escolhe suas prioridades, e as evidências estão nos documentos públicos.

Dia 3: a falta de liberdades democráticas

Ao longo da viagem, fomos recepcionados por jovens ativistas críticos ao regime. São socialistas, radicalmente anti-imperialistas e organizam uma cozinha solidária numa paróquia e nas ruas de Habana Vieja, um bairro popular. Alguns deles são ex-presos políticos por terem participado das mobilizações de 11 de julho de 2021, as quais exigiam comida, remédios, emprego e liberdades democráticas. Eles eram apenas alguns dos mais de 1.700 cubanos que foram presos nos dias e meses seguintes aos protestos. Quase 400 seguem encarcerados. Uma dessas pessoas é Brenda, jovem trans com várias comorbidades e jogada em um presídio masculino.

A arbitrariedade das prisões e a dureza das penas revela o ódio do regime a qualquer tipo de contestação. Uma dessas ativistas nos contou que há um grande conteúdo de raça e classe nessas prisões. Pobres e pretos seguem encarcerados, enquanto aos brancos e setores médios o destino é o exílio forçado.

Dia 4: a restauração do capitalismo

Ao ver tanto sofrimento, lembrei-me das duas principais caricaturas que existem de Cuba. Uma é da extrema direita, que diz que o país é socialista para associar o socialismo à pobreza, à fome e ao autoritarismo. Por outro lado, quase toda a esquerda nega que exista pobreza e autoritarismo e romantiza a ilha chamando-a de “último bastião do socialismo” e “reserva moral da humanidade”. A extrema direita nega que exista um bloqueio criminoso há quase setenta anos. Já a esquerda nega que o capitalismo tenha sido restaurado. No limite, o que parece é o encontro dos dois extremos: ambos dizem que Cuba é socialista.

O que nenhum dos dois lados consegue explicar é: por que, mesmo com bloqueio econômico e com a crise econômica mundial dos anos 1970, Cuba passou de um dos países mais pobres do mundo a um país sem desemprego, fome, prostituição, analfabetismo e mortalidade infantil? Por que tinha o melhor sistema de saúde e educação da América Latina? Por que se orgulhava de ser uma potência mundial nos esportes? A resposta é simples: naquela época, a economia cubana, apesar de frágil, não estava voltada para a lógica do mercado capitalista, mas planificada para atender às necessidades de seu povo.

Porém, a partir dos anos 1990, o regime do Partido Comunista cubano acabou com o monopólio do comércio exterior, com a planificação da economia e começou a privatizar empresas estatais. O imperialismo europeu voltou à ilha, focado na exploração do turismo. Produto disso, uma burguesia surgiu dentro do próprio partido e entre altos funcionários do regime.

Hoje, Trump está em busca não só de entrar na ilha no terreno econômico, mas de a recolonizar, um plano semelhante ao da Venezuela.

Dia 5: o que querem os trabalhadores cubanos?

Fui a Cuba determinado a entender a realidade e conversar com a população. Nesses dias, conversei com ativistas, com o povo cubano e andei pelas quebradas do Centro Habana e de Habana Vieja. O que ouvi e vi não tem nada a ver com o que a esquerda mundial fala do povo cubano. O que os cubanos querem, pelo menos a maioria deles, é o fim de duas coisas: do embargo econômico e da ditadura. Mas esse desejo por liberdades democráticas é tão intenso, e a falta de uma alternativa pela esquerda também, que hoje boa parte dos cubanos se diz de direita ou anticomunista, sobretudo a geração mais nova.

Infelizmente, aqueles que continuam dizendo que Cuba é socialista, talvez não saibam, mas fazem propaganda gratuita para a direita que afirma a mesma coisa, ainda que com intenções diferentes.

Para construir uma nova consciência revolucionária de esquerda e socialista no país é necessário ouvir e confiar no povo cubano, reconstruir sua identidade como classe e apoiar a formação de sindicatos, movimentos e organizações que lutem por uma vida digna, direitos e um país mais justo.

Dia 6: a Flotilla da Solidariedade – doações bem-vindas, apoio ao regime rechaçado

Fomos a Cuba prestar nossa solidariedade anti-imperialista e levar doações para a flotilha “Convoy Nuestra América”. Os alimentos foram entregues para uma cozinha solidária, os medicamentos levaríamos para o ato de recepção da flotilha. Chegamos na segunda-feira (16) e a Flotilha chegaria no sábado (21). Passamos a semana toda buscando informações sobre onde seria o grande ato com os cubanos, mas essa informação não existia.

Perguntamos à população, e ninguém sabia de nada. Nas poucas horas com luz, a televisão tampouco anunciou qualquer concentração contra o imperialismo e de recebimento das doações. Tudo muito estranho, afinal, Cuba estava diante de uma agressão imperialista dos Estados Unidos e o mínimo que se esperava era que o governo convocasse o povo às ruas.

Ficamos sabendo que houve um ato fechado na sexta-feira (20), com convidados selecionados. Não havia povo, apenas delegações internacionais e o Partido Comunista de Cuba. No dia seguinte, ocorreu outro pequeno ato, novamente sem povo cubano. Fica a pergunta: quem é a maior ameaça ao regime cubano, Trump ou o povo cubano?

Infelizmente, a flotilha foi utilizada a favor do regime, e seu potencial como demonstração de força anti-imperialista foi perdido ao não ter participação popular.

Dia 7: que ajuda real podemos dar ao povo cubano?

Depois de uma semana em Cuba, não tenho dúvidas sobre a força desse povo. Uma pequena ilha cheia de vida, com uma cultura explosiva e um povo crítico, inteligente e que anseia viver com dignidade.

O que nunca houve em Cuba foi uma confiança real do regime na força dos trabalhadores. A organização popular, a democracia direta e o destino dos cubanos foram sendo sufocados. Pensar e ser diferente sempre foi um crime, como mostram as repressões e as UMAPs (campos de trabalhos forçados) para as quais foram, além de dissidentes políticos, gays, artistas e todos que não combinavam com o regime autoritário.

Ser solidário a um povo é entender seus anseios, ouvir seus reclamos por justiça e direitos básicos. É também apresentar uma outra visão de socialismo que não seja autoritarismo e escassez.

Após esses dias, sei que nossa luta por uma Cuba soberana, independente e livre do imperialismo é mais necessária do que nunca, mas ela só pode existir confiando na força do povo cubano.

Ouvir os cubanos agora é fortalecer suas lutas contra a repressão, o autoritarismo e a miséria. Por isso, não podemos deixar de exigir: liberdade aos presos políticos e fim das condenações arbitrárias.

No Brasil, devemos exigir do governo que envie petróleo a Cuba e lute pelo fim do embargo. Devemos lutar pela autonomia de Cuba em cada local de trabalho, estudo ou movimento. Mas sem nunca ocultar a verdade.

Cuba não é socialista porque socialismo não é miséria. Socialismo são as necessidades coletivas atendidas. Não é socialista porque socialismo é democracia operária, com participação ativa do povo. Não é socialista porque não pode ser um regime autoritário e de privilégios.

Vamos prestar nossa solidariedade ao povo cubano, e ela começa por olhar a realidade e dizer a verdade.

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