Opinião Socialista

Hertz Dias: “Queremos superar essa democracia dos ricos e esse sistema podre que é o capitalismo”

Hertz Dias, pré-candidato à Presidência da República pelo PSTU, fala sobre sua trajetória, a influência do hip-hop e a necessidade de uma saída revolucionária para o país

Roberto Aguiar, da redação

18 de abril de 2026
star0 (0) visibility 0
Hertz Dias é ativista do movimento negro, rapper e professor da rede pública de ensino do Maranhão

Hertz Dias, pré-candidato à Presidência da República pelo PSTU, construiu sua trajetória entre a cultura, a luta contra o racismo e a militância socialista, como podemos conferir nesta entrevista concedida ao Opinião Socialista.

Como foi sua infância e início de vida?

Hertz – Nasci em São José de Ribamar, na região metropolitana de São Luís, onde vivi até os doze anos. Tenho muitas lembranças boas, como os banhos e o futebol na praia. Meu pai era motorista do padre da principal igreja, e minha mãe, enfermeira. Éramos cinco irmãos, mas dois já faleceram ainda muito jovens, o que marcou profundamente nossa família e minha visão de mundo.

E a adolescência em São Luís?

Foi um período difícil. Estudei no Cema e depois na escola técnica Bacelar Portela, onde fui reprovado duas vezes e abandonei os estudos. Me sentia agredido pelo racismo presente nos conteúdos, nas aulas e no cotidiano. Cheguei a ser preso aos quinze anos por dançar break com amigos e fiquei numa cela com adultos. Isso me marcou profundamente. Anos depois, voltei à mesma escola como professor de História.

Como o hip-hop entrou na sua vida?

Começamos dançando break sem entender totalmente as músicas, que eram em inglês. Quando percebemos que podíamos cantar em português e falar da nossa realidade, foi transformador. O hip-hop nos deu linguagem, identidade e consciência do que vivíamos.

Como era ser um jovem negro nesse contexto?

Não era fácil. O racismo estava na escola, na rua e nas relações sociais. Na rua em que morávamos, por exemplo, as únicas casas sem telefone eram as de famílias negras. Meus pais não tinham consciência racial, então muita coisa a gente enfrentava sem entender. O hip-hop foi como um salva-vidas em que me agarrei e não larguei mais.

E a vida adulta?

Via muitos jovens negros sem perspectiva, o que afetava diretamente a autoestima. Meu bairro era vizinho do Quilombo Liberdade, estigmatizado como violento, muito por ser negro e periférico. As imagens negativas eram constantes e isso pesava muito na forma como a gente se via.

Quando a cultura se conecta com a militância política?

O hip-hop, especialmente o Racionais MC’s, me levou a conhecer Malcolm X. Isso mudou minha vida. Passei a compreender melhor o racismo e a necessidade de enfrentá-lo. Voltei a estudar, entrei na universidade e assumi uma postura mais ativa na luta.

Fale um pouco da sua família.

Casei aos 23 anos com Ana Francisca e tive minha primeira filha, Laura. Depois, casei com minha atual companheira Claudicea Durans, também militante do PSTU, com quem tenho dois filhos, Lenin Akill e Hertz Filho. Claudicea participava do Movimento de Universitários Negros, que nos inspirou diretamente a entrar na universidade.

O que significa ser professor hoje?

É uma profissão que amo, apesar das dificuldades. Gosto de estar em sala de aula, principalmente com jovens. As condições são duras, com escolas sem estrutura e turmas lotadas, mas a satisfação de ensinar compensa. Ao mesmo tempo, é impossível não perceber o adoecimento da categoria sob o capitalismo.

Qual o papel da cultura na luta por uma sociedade socialista?

A cultura, especialmente a negra, vai além do artístico e cumpre também um papel político. Em um país desigual como o nosso, ela é ferramenta de consciência e resistência. Por isso sempre foi perseguida e alvo de tentativas de cooptação.

Como você vê a relação entre cultura, luta racial e classe trabalhadora?

Sempre foi muito forte. No Maranhão, o hip-hop cresceu junto às mobilizações operárias, especialmente na Praça Deodoro. Hoje, a cultura segue como forma de expressão e resistência de uma classe trabalhadora mais jovem e negra.

O acesso à cultura ainda é negado?

Sim. A cultura não é livre porque a classe trabalhadora não é livre. A luta por acesso está ligada à luta pelas riquezas que os trabalhadores produzem. Muitas vezes, o trabalhador constrói espaços que depois não pode frequentar.

Qual o papel do PSTU na sua vida?

Não me vejo sem o PSTU. Ao lado do Quilombo Urbano, foi uma das maiores descobertas da minha vida. Mais que uma sigla, é um programa revolucionário no qual tenho convicção.

Qual a importância da sua pré-candidatura?

Somos uma oposição de esquerda e socialista ao governo Lula, sem ignorar a ameaça da extrema direita. Defendemos uma saída revolucionária, superando a democracia dos ricos e o capitalismo. Nossa pré-candidatura está nas lutas concretas e existe para fortalecer a luta da classe trabalhadora e dos oprimidos.

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux - Hosted & Maintained by PopSolutions Digtial Coop