Internacional

Impasse alemão: entre a dependência econômica e a xenofobia política

A maior economia da Europa precisa atrair 300 mil trabalhadores por ano para se manter, enquanto cresce o discurso anti-imigração no país

Érika Andreassy, da Secretaria Nacional de Mulheres

18 de fevereiro de 2026
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Operário da indústria alemâ: mão de obra cada vez mais escassa e dependente do trabalho imigrante Foto Uwe Aranas

Recentemente, foi veiculado na imprensa alemã que o país precisa atrair cerca de 300 mil trabalhadores qualificados por ano apenas para manter o atual nível de funcionamento da sua economia. O dado não é trivial: trata-se da maior potência industrial da Europa reconhecendo publicamente que, sem imigração, hospitais ficarão sem enfermeiros, escolas sem professores e setores estratégicos sem profissionais suficientes para operar.

Ao mesmo tempo, imigrantes enfrentam obstáculos burocráticos exaustivos, dificuldades no reconhecimento de diplomas, demora na concessão de autorizações permanentes e um ambiente político cada vez mais contaminado por discursos xenófobos. O crescimento da ultradireita alemã, que denuncia uma suposta “ameaça estrangeira”, ocorre justamente no momento em que o próprio sistema econômico declara que não consegue funcionar sem trabalhadores vindos de fora.

À primeira vista, pode parecer apenas hipocrisia. Mas o que estamos assistindo é uma contradição estrutural do capitalismo contemporâneo.

A lógica econômica: falta trabalho, não discurso

O problema demográfico alemão é real. Menos jovens entram no mercado de trabalho enquanto milhões se aposentam. A economia capitalista depende da força de trabalho para gerar valor e manter serviços funcionando. Quando essa força diminui, duas alternativas aparecem: ou os trabalhadores locais trabalham mais e se aposentam mais tarde, ou o país amplia a atração de trabalhadores estrangeiros.

Como reconheceu um pesquisador do Instituto de Pesquisa de Emprego alemão: “sem os trabalhadores estrangeiros, os alemães teriam de trabalhar mais horas, se aposentar mais tarde ou simplesmente seriam mais pobres”. Ou seja: a necessidade de imigração não é uma concessão humanitária — é uma exigência do próprio funcionamento do capital.

O precedente histórico: trabalhadores “convidados”

Essa não é a primeira vez que a Alemanha depende de mão de obra estrangeira. Durante o chamado “milagre econômico” do pós-guerra, acordos oficiais trouxeram milhões de trabalhadores da Itália, Grécia, Turquia e outros países. Eram os Gastarbeiter — literalmente, “trabalhadores convidados”.

O termo já carregava a ambiguidade: eram necessários, mas temporários. Esperava-se que viessem, produzissem e depois retornassem aos seus países de origem. Muitos, porém, permaneceram e construíram suas vidas ali.

Hoje o padrão se repete sob nova forma. A diferença é que, além da escassez demográfica, existe uma competição internacional explícita por mão de obra qualificada. Países disputam profissionais de saúde, engenheiros e especialistas em tecnologia. O capital instalado na Alemanha precisa tornar o país “atraente” para essa força de trabalho. Mas a engrenagem estatal que deveria facilitar essa atração funciona sob lentidão burocrática e sob pressão política xenófoba.

Onde nasce a contradição

Mas se o capital precisa da força de trabalho estrangeira, por que cresce o sentimento anti-imigrante? Porque economia e política não operam no mesmo plano imediato. Do ponto de vista estrutural, a imigração é funcional e necessária à reprodução do capital. Do ponto de vista político, ela pode ser instrumentalizada como elemento de disputa social.

A presença de migrantes e refugiados ocorre num contexto de crises múltiplas: inflação, pressão sobre serviços públicos, insegurança social e transformações culturais aceleradas. Quando o Estado administra a integração sob lógica restritiva, subordinando direitos sociais ao cálculo fiscal e às exigências do capital, o mal-estar social se amplia. Nesse terreno de frustração, a ultradireita oferece uma explicação aparentemente simples: o problema são os estrangeiros.

A chamada “contradição da xenofobia”, portanto, não é uma incoerência moral de um país que precisa de trabalhadores, mas os rejeita politicamente. O que se produz é, simultaneamente, a necessidade estrutural de trabalhadores migrantes e as condições sociais para transformá-los em bode expiatório.

O capital se beneficia da migração como força de trabalho. A política reacionária a converte em instrumento de mobilização.

O papel da burocracia

A própria matéria descreve profissionais altamente qualificados que, mesmo após anos no país, enfrentam incertezas jurídicas. O reconhecimento de diplomas estrangeiros é lento e desigual entre estados regionais. Autoridades de imigração acumulam processos por meses. Refugiados frequentemente não conseguem inserção rápida no mercado formal.

Essa lentidão não é circunstancial. Estados nacionais foram historicamente estruturados para controlar a circulação de pessoas. No capitalismo contemporâneo, há livre circulação quase plena de capitais e mercadorias, mas a mobilidade de trabalhadores permanece politicamente sensível. O sistema globaliza cadeias produtivas, mas mantém controles nacionais rígidos sobre pessoas. A tensão emerge exatamente onde a economia exige mobilidade e a política reage com restrição.

Divisão interna da classe trabalhadora

Existe ainda um elemento central: a divisão social. Quando trabalhadores locais enfrentam insegurança econômica, é politicamente mais simples canalizar o descontentamento contra recém-chegados do que contra grandes empresas, cortes públicos ou políticas fiscais regressivas. A xenofobia cumpre, assim, uma função concreta: fragmentar a classe trabalhadora entre “nativos” e “estrangeiros”, dificultando a construção de interesses comuns.

Mas essa divisão não é apenas ideológica. A mobilidade internacional da força de trabalho permite ao capital operar, em escala transnacional, aquilo que Marx denominou de “exército industrial de reserva”. Mesmo em um cenário de escassez demográfica, a possibilidade de recrutar trabalhadores de outras regiões do mundo atua como mecanismo de regulação do mercado de trabalho, influenciando salários, condições e expectativas. A concorrência estimulada entre trabalhadores locais e migrantes enfraquece sua capacidade de organização conjunta, ao mesmo tempo em que amplia a margem de manobra do capital.

Enquanto empresas pressionam por vistos mais rápidos e ambientes regulatórios flexíveis, a extrema direita mobiliza ressentimentos. O capital busca força de trabalho; a ultradireita busca votos. O resultado é um ambiente contraditório: necessidade econômica combinada com hostilidade política.

A contradição explicada

A situação alemã não é exceção. O país apenas expressa de forma aguda um movimento mais amplo nas economias centrais envelhecidas. A transição demográfica exige imigração. Mas a crise social e política do capitalismo contemporâneo fortalece correntes nacionalistas que prometem fechamento.

Portanto, não se trata de incoerência moral, mas de uma estrutura que combina dependência econômica e exploração política do medo. O mesmo sistema que depende estruturalmente da circulação internacional de trabalhadores alimenta as forças que a colocam sob suspeita.

Sem imigração, a Alemanha empobrece. Quando a imigração é administrada sob lógica de mercado e contenção fiscal, a ultradireita cresce. Entre essas duas dinâmicas, emerge o impasse.

E o que isso revela?

Revela que, no capitalismo contemporâneo, a mobilidade do trabalho é indispensável, mas sempre subordinada à lógica do lucro e ao cálculo político. Trabalhadores migrantes são vistos simultaneamente como solução econômica e problema político: são necessários, mas não plenamente incorporados; são recrutados, mas mantidos sob suspeita.

Essa tensão não desaparece com discursos moralistas nem com fechamento de fronteiras, pois está enraizada na forma como o sistema organiza produção, soberania nacional e disputa política.

A Alemanha apenas explicita um dilema que atravessa o mundo desenvolvido: economias envelhecidas precisam de migrantes, mas sociedades desiguais e inseguras são terreno fértil para o medo. A questão decisiva é se esse medo continuará sendo direcionado contra os mais vulneráveis — ou contra a estrutura que o produz.

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