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Mesmo quando não somos nós

Érika Andreassy, da Secretaria Nacional de Mulheres

28 de fevereiro de 2026
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Eu nunca sofri agressão direta. Nunca precisei registrar um boletim de ocorrência. Nunca fui ameaçada por um ex-companheiro. Nunca tive meu nome transformado em estatística.

E, ainda assim, a violência machista atravessa os meus dias.

Ela aparece nas manhãs comuns, quando abro o celular antes mesmo do café e encontro mais uma notícia: uma mulher assassinada pelo ex que não aceitava o fim, uma jovem morta por “ciúmes”, uma mãe que denunciou e não foi protegida. A repetição talvez seja o que mais pesa. Não é um episódio isolado que choca e depois se dissolve. É a sensação de previsibilidade. A certeza incômoda de que amanhã haverá outra. E depois outra. E depois outra…

Com o tempo, isso deixa de ser apenas indignação. Vira um cansaço difícil de nomear. Um aperto no peito. Uma tristeza que não é apenas pessoal, mas também não é distante. Porque cada manchete fala de uma mulher concreta — e ao mesmo tempo fala de todas nós.

Existe uma violência que não aparece nas estatísticas: o desgaste cotidiano de viver sabendo que a nossa autonomia pode ser interpretada como provocação, que o nosso “não” pode ser lido como desafio, que terminar uma relação pode se transformar em risco. Mesmo quem nunca foi agredida diretamente aprendeu cedo a prestar atenção. A avisar que chegou em casa. A evitar certos caminhos. A medir palavras.

Isso não é paranoia. É socialização.

Crescemos compreendendo, de forma explícita ou sutil, que há limites invisíveis para o nosso comportamento. Que desejar, decidir, romper, recusar, mudar de ideia, pode ter custo. E quando as notícias se acumulam, não estamos diante apenas de tragédias individuais. Estamos diante de um aviso coletivo reiterado: a violência contra mulheres não é exceção — é possibilidade.

Essa consciência contínua produz efeitos. Afeta nosso humor, nossa disposição, nossa sensação de segurança básica. Muitas mulheres descrevem algo semelhante a um luto permanente, como se estivéssemos sempre processando a morte de alguém que poderia ter sido qualquer uma de nós. O impacto não é só físico, nem apenas jurídico. É moral. É psicológico. É social.

Há também um tipo de autocontrole constante que se naturaliza. Quantas vezes deixamos de responder de maneira mais firme para evitar ser chamadas de agressivas? Quantas vezes relativizamos um comentário ofensivo para “não criar clima”? Quantas vezes pensamos duas vezes antes de expor um posicionamento, ou acabamos aceitando situações para não contrariar o parceiro? Essa contenção cotidiana raramente é vista como violência — mas é parte de uma engrenagem maior.

Quando uma mulher é assassinada por não aceitar um relacionamento ou por querer encerrá-lo, o recado social é nítido: há limites para a nossa autonomia. Quando a sociedade relativiza crimes como “brigas passionais” ou insiste em investigar o comportamento da vítima, o recado também é nítido: o desejo feminino continua sendo um território sob vigilância.

Nada disso é simples desvio individual. Estamos diante de um padrão. Um padrão que atravessa classes sociais, religiões, regiões. Um padrão que se repete com uma regularidade brutal. O Brasil figura, ano após ano, entre os países com maiores índices de feminicídio. E por trás de cada número existe uma história, uma família, uma comunidade atravessada pela perda.

Mas além das vítimas diretas, há milhões de mulheres que seguem vivendo com essa consciência incorporada. Mulheres que talvez nunca registrem ocorrência alguma, mas que carregam o aprendizado silencioso do cuidado permanente. Isso molda escolhas, trajetórias profissionais, relações afetivas, decisões cotidianas.

O machismo não se sustenta apenas pela violência extrema. Ele se reproduz pela naturalização da desigualdade, pela ideia de que homens têm mais legitimidade para controlar, vigiar ou punir. Ele está presente quando a dependência econômica limita a possibilidade de rompimento, quando políticas públicas são insuficientes, quando redes de proteção falham.

Mas essa engrenagem pesa de forma diferente sobre mulheres diferentes. Para as mulheres trabalhadoras, que dependem de salário para sobreviver e sustentar seus filhos, romper uma relação pode significar colocar em risco a própria subsistência. Para as mulheres negras e periféricas, que já enfrentam o racismo, a precarização do trabalho e a violência estatal, a ausência de proteção é ainda mais concreta: faltam equipamentos públicos, faltam serviços especializados, falta acesso à justiça.

O machismo também se expressa na divisão desigual do trabalho doméstico, que recai majoritariamente sobre as mulheres — mesmo quando trabalham fora. Está nos empregos mais precarizados, na informalidade que atinge especialmente mulheres pobres, na diferença salarial persistente. Está na dupla e às vezes tripla jornada das que saem cedo para trabalhar, voltam para casa e seguem responsáveis pelo cuidado dos filhos, da casa, de familiares idosos.

Falar do impacto subjetivo da violência não significa ignorar as condições materiais que a tornam mais brutal para algumas, nem abandonar a análise estrutural. Pelo contrário. A ameaça é coletiva, mas seus efeitos são atravessados pela classe, pela raça e pelo lugar social que cada mulher ocupa na sociedade. O desgaste moral não paira no ar: ele faz parte do funcionamento de uma sociedade que ainda organiza o poder de forma hierárquica entre homens e mulheres. A pedagogia do medo disciplina comportamentos. O cansaço fragiliza. A repetição naturaliza. E essa naturalização sustenta desigualdades muito concretas na vida das mulheres, sobretudo das que já vivem sob o peso da exploração e do racismo.

Mas há também outro movimento em curso. Se as manchetes nos atravessam, elas também nos conectam. Cada mobilização contra o feminicídio, cada ato público, cada rede de apoio construída nas comunidades mostra que a indignação não é apenas sofrimento — pode ser organização. Pode ser consciência compartilhada.

Sentir o peso dessas notícias não é fraqueza. É sensibilidade diante de uma realidade injusta. O que fazemos com esse sentimento é uma escolha política. Podemos permitir que ele nos paralise ou podemos transformá-lo em energia coletiva, em exigência de políticas públicas eficazes, em fortalecimento das redes de proteção, em luta por uma sociedade que não organize relações a partir da dominação.

O machismo não é destino. Ele é parte de uma estrutura social que pode e deve ser transformada. Reconhecer o impacto que ele tem sobre nossas vidas — mesmo quando não somos as vítimas diretas — é um passo fundamental. Porque não se trata apenas de contabilizar mortes. Trata-se de reivindicar o direito de viver sem medo, de amar sem ameaça, de existir sem vigilância.

E isso não é uma questão privada. É uma tarefa coletiva — e também de classe.

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