Juventude

Mobilizações unificadas na UNESP e greve na USP apontam o caminho da luta

É preciso derrotar o governador Tarcísio de Freitas e as reitorias que implementam ataques às universidades estaduais de São Paulo

Rebeldia - Juventude da Revolução Socialista

24 de abril de 2026
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Em assembleia, estudantes da UNESP aprovam mobilização

Aline Boneberg, estudante do curso Ciências Econômicas da UNESP-Araraquara e militante do Coletivo Rebeldia

Historicamente, a Universidade Estadual Paulista (UNESP) enfrenta um processo permanente de precarização. Presente em 24 cidades do estado, é a universidade paulista que menos recebe recursos e investimentos. A falta de professores, a infraestrutura deteriorada, a não equiparação salarial dos servidores técnicos-administrativos em relação às demais estaduais, a ausência de restaurantes universitários em diversos campi e as insuficientes políticas de permanência estudantil são problemas estruturais, profundos e crônicos da instituição.

Diante desse cenário, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de unificar a luta em defesa da universidade pública. O chamado para a construção de uma paralisação conjunta no dia 22/05 é fundamental para enfrentar os ataques que recaem sobre os servidores técnico-administrativos, docentes e estudantes.

Ao mesmo tempo em que denunciamos o governo privatista e de extrema direita de Tarcísio de Freitas, é preciso afirmar: as reitorias também têm responsabilidade direta ao não atenderem às demandas centrais dos setores mais precarizados da universidade. Além disso, não podemos ignorar as políticas de austeridade que, em nível federal, seguem penalizando a educação pública.

Mobilizações se espalham pelos campi

Em meio a esse processo, diversos campi da UNESP iniciaram um movimento de organização de mobilizações a partir de assembleias estudantis.

Em São Vicente, por exemplo, assembleias realizadas nos dias 31/03 e 01/04 aprovaram uma paralisação entre 06 e 10 de abril. A mobilização teve como eixo central a denúncia da falta de alimentação para os estudantes, após a interrupção do serviço sem aviso prévio e sem qualquer alternativa por parte da direção.

No Instituto de Artes, em São Paulo, foi aprovada greve discente a partir do último dia 22, com a realização de ocupações. A unidade enfrenta graves problemas relacionados à alimentação, contando apenas com uma cantina terceirizada, além da falta de servidores no período noturno, o que impacta diretamente o funcionamento de espaços essenciais como a biblioteca. Também denunciam o abandono institucional que culminou na morte da professora Sandra Campos.

A morte que expõe o abandono

A morte da professora Sandra Regina Campos, ocorrida em 7 de abril no campus da UNESP na Barra Funda, escancarou a gravidade da precarização nas universidades públicas. Após sofrer um mal súbito durante uma atividade acadêmica, ela foi socorrida apenas por estudantes, em um campus que não contava com serviço de emergência médica, equipe de saúde ou estrutura adequada de atendimento, mesmo havendo previsão legal para isso.

O caso gerou forte indignação na comunidade acadêmica e evidenciou que não se trata de um episódio isolado, mas de uma consequência direta das políticas de austeridade e do abandono institucional, que colocam em risco a vida de estudantes e trabalhadores. Diante disso, cresce a mobilização na UNESP, com entidades e estudantes apontando para a necessidade de intensificar a luta e avançar na construção de uma greve.

Rio Claro e IBILCE: luta por permanência

Em Rio Claro, os estudantes têm se mobilizado em torno da luta por segurança alimentar, realizando um ato com “entrasso” no restaurante universitário e reivindicando melhores condições de alimentação, fortemente afetadas pelos cortes orçamentários.

Durante a mobilização, foram recolhidas mais de 300 assinaturas pela convocação de uma assembleia geral do campus, em sintonia com as mobilizações que ocorrem em outras unidades da UNESP. A situação é agravada pelo fato de que a moradia estudantil está em reforma há quatro anos, enquanto os estudantes enfrentam a precarização do restaurante universitário, a redução no número de funcionários e a ausência de funcionamento no período noturno.

Já no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (IBILCE), em São José do Rio Preto, foi aprovada, em assembleia estudantil, a paralisação nos dias 5 e 6 de maio, com reivindicações como o fim da Portaria 15, que proíbe vendas no campus e afeta uma importante fonte de renda para estudantes, além de melhorias nas condições da moradia estudantil e da infraestrutura.

Mobilização no campus UNESP-Araraquara

Marília e Araraquara: avanço da mobilização

Em Marília, a realização de assembleia no último dia 16, demonstrou a necessidade de aprofundar o debate, levando à convocação de uma nova assembleia para avançar na organização da luta por uma possível paralisação ou ato.

Já na UNESP Araraquara, a situação é particularmente grave. A falta de professores atinge diversos cursos, especialmente as licenciaturas, gerando atrasos na formação de estudantes. No curso de Pedagogia, por exemplo, chegou-se a um déficit de seis docentes. A cidade também enfrenta problemas com o transporte público privatizado, cuja qualidade vem se deteriorando continuamente.

A resposta da reitoria e o papel das direções

Diante disso, foi realizada uma assembleia geral de cursos que aprovou a paralisação, seguida de uma segunda assembleia para ampliar o debate, definir táticas e consolidar a mobilização.

No dia 15/04, enquanto a reitoria realizava uma cerimônia no Instituto de Química (IQ), estudantes estiveram presentes para cobrar respostas e entregar suas reivindicações. Como já é recorrente, a reitora minimizou a gravidade da situação, e não houve qualquer disposição real de escuta.

A majoritária da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Estadual dos Estudantes (UEE), caracterizada aqui como imobilista e reformista, apesar de presente durante a paralisação (em assembleia defendeu apenas um “seguraço”), não somou ao ato por sustentar uma política de conciliação com a reitoria. Ao mesmo tempo, tenta acusar a oposição de esquerda de “jogar tudo nas costas da reitoria”. Trata-se de uma falsa polêmica.

Sabemos que o elemento central da precarização é o projeto do governo Tarcísio, que transfere recursos públicos para o setor privado e mantém o subfinanciamento das universidades estaduais, sendo a UNESP historicamente a mais prejudicada.

Independência do movimento estudantil

No entanto, isso não isenta a reitoria. Não existe “reitoria amiga dos estudantes” quando há omissão diante da precarização, quando não se atendem às reivindicações e quando se mantém uma política de conciliação com o governo.

O movimento “UNESP por todos os cantos”, encabeçado pela majoritária da UNE/UEE, fez campanha para a atual gestão com o discurso de “mal menor” e de “primeira mulher reitora”, enquanto nós, da oposição, defendemos o voto nulo. As propostas apresentadas à época, e agora confirmadas na prática, não atendiam às reais necessidades da comunidade universitária.

Eram propostas vazias, fantasiosas e antidemocráticas, já que o peso de voto de alunos e servidores é praticamente irrelevante quando comparado ao dos docentes. Por isso, a tarefa histórica do movimento estudantil é o fim do modelo 70/15/15, que atribui apenas 15% de peso de voto a discentes e servidores, contra 70% dos docentes.

Unificar para vencer

É importante destacar que nenhuma gestão de reitoria se sustenta sem o aval do governo estadual. Quando uma gestão não representa ameaça aos interesses do governo, ela é facilmente validada, como ocorreu no caso atual.

Por isso, é necessário afirmar com clareza: os interesses da reitoria não são os mesmos dos estudantes e trabalhadores. Nossa luta deve ser independente, tanto das reitorias quanto dos governos.

A paralisação na UNESP Araraquara e a greve na Universidade de São Paulo (USP) apontam um caminho: a unificação das lutas entre estudantes e trabalhadores da educação. Só por meio da mobilização, da construção de paralisações e de uma greve unificada será possível enfrentar o projeto de sucateamento e avançar na defesa de uma universidade pública, gratuita e a serviço da classe trabalhadora.

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