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Nahuel Moreno foi preso em 1978 pela ditadura brasileira

Redação

31 de março de 2024
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Em janeiro de 1982 foi fundada a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), a tarefa mais importante de Moreno, segundo ele.

Fundador da Liga Internacional do Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), o argentino Nahuel Moreno foi preso pela ditadura brasileira em 1978, quando veio participar do Congresso da Convergência Socialista, corrente política que deu origem ao PSTU. Ele ficou proibido de entrar no Brasil, decisão que foi revogada em 1985, durante o governo de José Sarney.

Esse fato foi relembrado na edição nº 49 do jornal ‘Convergência Socialista’, de 25/07 a 01/08 de 1985, que integra o acervo da história do PSTU. Todo o acervo está disponível no Arquivo Leon Trotsky. Assine aqui.

Abaixo, reproduzimos o texto na íntegra, sem alterações no original publicado em 1985.

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Edição nº 49 do jornal ‘Convergência Socialista’, publicado em 1985, integra o acervo histórico do PSTU

Nahuel Moreno: expulso pela ditadura volta ao Brasil

Em agosto de 1978, o dirigente socialista argentino Hugo Bressano, conhecido como Nahuel Moreno, veio ao Brasil para participar como convidado de um congresso público da Convergência Socialista. Apesar de ter permanecido apenas alguns minutos no congresso, Moreno foi preso pela polícia da ditadura, que o manteve encarcerado por mais de 20 dias.

Diante da possibilidade de deportação para a Argentina, governada na época pela sanguinária ditadura de Videla, que assassinou milhares de militantes de esquerda, a vida de Moreno corria perigo.

Uma grande campanha internacional salvou a sua vida. Personalidades do mundo todo se pronunciaram pedindo sua liberdade, entre elas Felipe Gonzales, primeiro-ministro da Espanha, Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal e Juan Lechín, dirigente da COB (Bolívia).

O Parlamento português, com voto quase unanime de seus membros, pediu por sua liberdade, frisando o fato de Moreno ter sido professor nas universidades portuguesas, devido a utilização de seu livro “Lógica Marxista e Ciências Modernas” nos currículos.

Esta campanha, ainda que tenha salvo sua vida, não pôde impedir sua expulsão do Brasil pela ditadura e, a partir desse momento, o regime militar impediu sua entrada no país.

Agora, com o fim da ditadura, este dirigente socialista pôde retornar ao Brasil e realizar várias conferências. Ao ter sua expulsão revogada por decreto do presidente Sarney, publicado no Diário Oficial de 9 de julho último, Moreno pôde aceitar o convite feito pela Associação Profissional dos Sociólogos e pelo Sindicato dos Economistas de Minas Gerais, para participar como expositor e debatedor da 37ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Desenvolvimento da Ciência (SBPC). O tema da palestra foi “A situação Atual da América Latina”. Sobre o mesmo tema, Moreno proferiu palestras em São Paulo, a convite do Departamento de Ciências Sociais da Escola de Administração de Empresas da Faculdade Getúlio Vargas e no Rio de Janeiro, no Sindicato dos Bancários a convite da CUT estadual.

Quem é Nahuel Moreno?

Uma síntese das atividades desenvolvidas por Moreno a longo de sua vida talvez seja a melhor explicação para a perseguição que sofreu das ditaduras brasileira e argentina. A perseguição em seu país o obrigou a viver exilado por oito anos.

Hugo Miguel Bressano, ou Nahuel Moreno, militante político desde os 15 anos, tornou-se um dos principais dirigentes do movimento trotskista argento, latino-americano e internacional.

Foi fundador e dirigente do Grupo Operário Marxista (GOM), um dos grupos trotskistas da Argentina, em 1940; secretário-geral da Juventude Socialista de Avellaneda (província da Aregntina), até 1947; em 1948, fundou o Partido Operário Revolucionário (POR).

Posteriormente, ingressou no Partido Socialista da Revolução Nacional, uma ala do movimento peronista, até a sua dissolução em 1955. Foi fundador e secretário-geral do Movimento de Organizações Operárias (MAO), organizações político-sindicais clandestinas do peronismo.

Esteve entre os fundadores e dirigentes do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (La Verdad) e do Partido Socialista dos Trabalhadores (PST).

Atualmente, Nahuel Moreno é dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS), que tem uma intensa participação nas lutas sindicais e políticas dos trabalhadores argentinos.

Livros e ensaios

Moreno é autor das seguintes obras:

Sobre a Situação Agrária Argentina, Editora Estratégia, 1948. Segundo a revista Marcha, de Montevidéu, “o único trabalho sério e científico sobre o tema”.
Teses Sobre a Colonização Espanhola e Portuguesa na América Latina: Uma Reposta a André Gunder Frank (junto com um artigo de George Novak), Ediciones Avanzada, 1972. Republicado na Revista de América, 1978.
Bases para uma Interpretação Científica da História Argentina, Editorial Estratégia, 1964, 1967.
As Esquerdas nos Processo Político Argentino, Editorial Palestra, 1958. (Co-autor junto com outros sete convidados que, segundo o Centro de Direito de Buenos Aires, são “os mais destacados intelectuais da esquerda argentina”.
Dois Métodos (comentário crítico aos trabalhos de Che Guevara sobre a estratégia guerrilheira), Editorial Estratégia, 1963.
Fifty Years of the Russian Revolution, Pionner, 1968 (co-autor). Trabalho traduzido para o castelhano, português, francês e inglês.
Lógica Marxista e Ciência Modernas, várias edições na Argentina, Colômbia, México, Portugal e outros países.
Ditadura Revolucionária do Proletariado, Editorial Pluma, 1976. Outras edições em espanhol, francês e inglês. Polêmica com E. Mandel.
Angola: A Revolução Negra em Marcha, Editorial Pluma, 1976.

Além dessas obras, destacam-se os seguintes ensaios: “1954: Ano-chave para a compreensão do peronismo”; “Quem soube lutar contra a ‘Revolução Libertadora’ antes de 16 de setembro de 1955?”; “E depois de Peron: O quê?”; “Argentina, um país em crise” (1954); “A luta recém começa” (contra a ditadura de Onganía, 1966); “Um documento escandaloso” (polêmica com E. Mandel, 1970); “A Traição da OCI – Sobre as perspectivas do governo Mitterrand” (1981).

Atividade jornalística

Nahuel Moreno foi diretor de La Verdad, semanário oficial do Partido Socialista da Revolução nacional. Dirigiu também Frente Obrera, Revolución Permanente e outras publicações de esquerda do Partido Socialista.

Até sua prisão em 1959, foi diretor do Palabra Obrera, do movimento peronista. Dirigiu a revista Estratégia, na qual colaboraram escritores argentinos como Luis Franco e Carlos Astrada.

Foi, durante muitos anos, colaborador da Intercontinental Press, a única agência mundial de notícias da esquerda. Colaborou também com numerosas revistas latino-americanas e internacionais.

Atividade sindical

Moreno foi fundador e assessor em alguns dos sindicatos peronistas mais importantes da Argentina como a Federação da Carne e a Associação Operária Têxtil, em 1945. Em 1956, ganhou, juntamente com seus companheiros políticos, a direção da União Operária Metalúrgica (UOM), com 250 mil operários.

Foi um dos dirigentes da primeira grande greve sob o governo militar de Aramburu,a dos metalúrgicos em 1956, que provocou a liberalização do regime em relação ao movimento sindical. Assessorou os trabalhos de regulamentação da Lei de Associações Profissionais durante o governo de Arturo Illia.

Atividade universitária

A Stanford University da Califórnia, uma das mais importantes do mundo e especializada em problemas latino-americanos, o nomeou seu correspondente na Argentina, quando planejava publicar uma revista dedicada ao continente.

Moreno realizou cursos e conferências em quase todas as universidades da Argentina: Rosario, Buenos Aires, Bahia Blanca e La Plata.

Editora Sundermann

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