Negros

Não somos obrigados a suportar o mundo sobre nossas cabeças: Uma vez mais Vini Jr.

Hertz Dias, Membro da Secretaria de Negros do PSTU e vocalista do grupo de rap Gíria Vermelha

18 de fevereiro de 2026
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O jogador brasileiro Vinicius Jr Foto Divulgação

Nesta terça-feira, 17, assisti ao jogo Benfica x Real Madri que aconteceu em Portugal. Vini Jr. mais uma vez arrebentou. Fez mais um golaço. Comemorou junto à bandeira de canto, dançando com ela. Provocação? Não achei, pois já vi muitos jogadores até chutarem essas bandeiras, sejam dos seus próprios times ou dos adversários. E se fosse provocação, estaria justificado o racismo? Se fosse um jogador branco, ele seria xingado com alusões à raça dele? Seria comparado a qualquer animal? Dançar passou a ser comum entre jogadores do mundo inteiro. Existe até a “dança do Paquetá” e o mesmo nunca foi xingado de “branco isso” ou “branco aquilo”.

E o mais covarde nisso foi que o agressor, o argentino Prestianni, chamou o Vini Jr. de macaco com a camisa sobre a boca para não ser pego pela leitura labial. Os racistas geralmente são assim, covardes! Eles aproveitam o momento de tensão para falar o que realmente pensam, o que gostariam de falar em outros momentos. Ou ainda, o que gostariam de fazer. A raiva, a tensão, a disputa e a rivalidade não fazem de ninguém um racista. A situação apenas faz com que o racista exponha mais explicitamente o seu racismo.

Mas o espetáculo racista não parou aí. Vini Jr. recebeu cartão amarelo por ter comemorado o golaço da forma como comemorou, mas o Prestianni saiu ileso, bem como foi o jogador mais aplaudido ao ser substituído. Vini foi o mais vaiado. Mbappé, ao defender Vini Jr., também passou a ser perseguido pela torcida do Benfica. Depois do jogo, afirmou que ouviu Prestianni chamar Vini cinco vezes de macaco. Durante o jogo Mbappé chamou Prestianni de “racista de merda”.

Os torcedores do Benfica estavam mais voltados a vaiar e xingar os jogadores negros do que incentivar o seu próprio time. E não eram dezenas, mas quase o estádio inteiro. O jogador Valverde do Real Madri ainda identificou torcedores imitando macacos. Mesmo assim, o espetáculo de horrores não poderia parar.

O jogador C. Cavaniga, que é negro e do Real Madri, também foi alvo de vaias ao ser substituído e, parece, que sequer reagiu como Mbappé reagiu. Vaiado não por ser do Real Madri. Vaiado por ser negro. Ali já não se tratava mais de rivalidade futebolística, mas de linchamento racial.

Mourinho, técnico do Benfica, foi um insensível. Chegou a afirmar que Vini “marca um gol do outro mundo, por que celebrar assim? Por que não celebrar como Di Stefano, Pelé e Eusébio celebravam?”

Eusébio, o moçambicano ídolo do Benfica, sofreu por várias vezes na pele o que Mourinho não sabe o que é: racismo! Apenas não reagia como Vini reage. Aliás, Eusébio jogou pelo Benfica num contexto em que o seu país era colônia de Portugal, e Portugal vivia sob a ditadura de Salazar. Pelé enfrentou várias situações de agressões racistas dentro e fora do Brasil. Na Itália, foi vítima de xingamentos raciais e ficou com seu psicológico abalado, conforme ele mesmo relatou.

Mourinho, sequer levou em consideração que a Europa está cada vez mais racista. Relatórios oficiais apontam que em Portugal as agressões xenofóbicas contra brasileiros aumentou mais de 500% entre 2017 e 2021. Vini sofreu no “Estádio da Luz” o que milhares de negros e imigrantes sentem cotidianamente nas ruas da Europa e de Portugal. O “conselho” de Mourinho não é para Vini mudar a forma de comemorar seus gols, mas para não reagir ao racismo que sofre.

Achei a posição do narrador Tiago Leifert, e dos comentaristas Mauro Beting e Nadine Bastos, ambos do SBT, bastante interessante, pois afirmaram corretamente, que o jogo deveria ter terminado, principalmente depois que Vini Jr. não conseguia cobrar um escanteio em razão da quantidade de objetos jogados pela torcida do Benfica em sua direção. Porém, cabe uma observação: a afirmação feita pelos mesmos de que Vini Jr. joga mais nestas situações porque “está acostumado com isso” é um equívoco grande e coloca os negros e as negras como super seres humanos preparados psicologicamente para enfrentar o mundo sobre suas cabeças. É igual a afirmação de que as mulheres pretas são mais resistentes porque estão acostumadas a suportar tudo. Porque não havia separação entre trabalho de homem e de mulher nos canaviais.

Parece até que não temos sentimentos, fragilidades e que o nosso psicológico foi lapidado com a escravidão para toda a eternidade. Resistimos por quase 400 anos, sim, e temos orgulho disso! Mas isso não imprimiu em nosso DNA uma força sobre-humana e nem blindou o nosso psicológico a suportar tudo. Isso é mito! Não foi só resistência. Não foi só rebelião. Na escravidão também tombamos, quebramos psicologicamente, morríamos de banzo. Ninguém teria que ter passado por aquilo que os nossos antepassados passaram, assim como não somos obrigados a passar pelo que passamos nos dias de hoje. Não nascemos pra isso! Se Vini que é milionário passa por isso, imagine quem é pobre e favelado.

O racismo tem que morrer, junto com a praga do capitalismo! Para isso, é preciso também disputar a consciência dos não-negros da nossa classe para uma politica antirracista, sem passar a mão na cabeça de ninguém Eis aqui mais um mito que precisa ser destruído: o de que temos que tocar essa luta sozinhos.

Antes de sermos africanos, de termos sido escravizados ou mesmos aquilombados, éramos e somos seres humanos. E pra quem não sabe, atualmente somos os mais afetados por ansiedade, depressão e suicídio. Jogar bem, fazer gols e vencer jogos não pode ser sinônimo de ter vencido o racismo e os racistas. Isso pode até ser parte do jogo, não o seu determinante. O correto é parar o jogo, punir os racistas e proteger as vítimas. Isso porque o racismo é igual ao escorpião. A natureza do escorpião é atacar, ferir e matar. E isso ninguém muda. Ou você elimina ele ou ele te elimina. É uma questão da natureza desse ser: atacar e matar! Com o racismo não pode ser diferente. A natureza do racismo é humilhar, oprimir, dividir e também matar. Se preparar para enfrentá-lo é correto e necessário, se acostumar com ele, jamais.

Tal como o escorpião, a luta contra o racismo tem que ser para a sua destruição e não para domesticá-lo. E se o capitalismo é a morada do racismo, o escorpião opressor da burguesia, que seja também implodido com todas as demais opressões que produz, reproduz e acolhe.

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