Nacional

O Estado me pediu perdão, mas a memória não silencia!

Nando Poeta

3 de fevereiro de 2026
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Nando Poeta | Foto: Arquivo Pessoal

Fui oficialmente anistiado em 2013, durante a Caravana da Anistia Convergência Socialista. Ainda assim, meu processo só foi concluído no fim de 2025, atravessado por contestações, recursos e manobras burocráticas que tentaram, até o último instante, reduzir o peso da história. O pedido de perdão veio tarde. E não apaga as marcas deixadas no corpo, na vida e no caminho de quem ousou sonhar em tempos de medo.

Minha formação política começou cedo. Em 1979, ingressei no curso de Metalurgia da então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, hoje IFRN. Levava comigo mais que cadernos: carregava inquietação. Minha infância fora atravessada pela ditadura, quando álbuns de figurinhas estampavam, logo na primeira página, os rostos dos generais-presidentes: Médici, Geisel. Autoritarismo naturalizado em papel colorido. Guardo esses álbuns até hoje como prova de um tempo que tentou normalizar o arbítrio.

No fim dos anos 1970, troquei figurinhas pela escuta atenta das canções de protesto, pela leitura que despertava perguntas, pelas conversas sussurradas nos corredores. Recusei-me a ficar de pé, toda quinta-feira, para cantar o hino nacional como ritual vazio de obediência. Permanecer sentado era um gesto simples, quase invisível, mas profundamente político. Não era rebeldia gratuita: era resistência.

Éramos vigiados. Sempre. Olhos atentos circulavam pela escola. Um órgão do Estado fichava estudantes cujo único “crime” era pensar. Para falar da realidade brasileira, buscávamos refúgio na arquibancada do campo de futebol, durante o intervalo. Ali, longe dos arapongas, a resistência começava a ganhar forma.

Era o fim da ditadura, sob o governo Figueiredo. As ruas começavam a ferver. As greves ressurgiam desde 1978. O grito contra o regime ganhava corpo. Em 1981, na Escola Técnica, organizamos uma chapa de oposição ao Centro Cívico, controlado pela gestão. Tínhamos 16, 17 anos e uma fome imensa de futuro. Perdemos. O processo era viciado. Mas a derrota nos empurrou para algo maior: a construção de um partido, na época, enraizado na luta da classe trabalhadora.

Em 1982, já no curso de Edificações, participei das mobilizações pela meia passagem e pelo direito à cidade. Sonhava com um estágio na Petrobras. Esperei. Insisti. Nada. Meu pai recorreu ao compadre deputado, ex-diretor da Escola. A resposta foi direta: meu nome não fora encaminhado porque eu “me envolvia em movimentos”. Até hoje me pergunto o que constava nas fichas que escreveram sobre mim.

Fui para a construção civil. Caminhava do Alecrim à Avenida Bernardo Vieira para pegar o caminhão da empresa. Almoçava feijão ralo, tripa, charque, farinha e arroz. Comida simples, digna, feita por Serafim, um funcionário da construtora. Acompanhava mutuários na entrega das casas na Cidade do Satélite, apontava defeitos, exigia correções. Resultado: fui dispensado. Queriam silêncio. Eu oferecia dignidade.

Na empresa seguinte, em 1982, na construção do Santarém na Zona Norte de Natal, recusai-me a acompanhar operários a um comício eleitoral. No sábado, veio a demissão por “não colaborar com a empresa”. Saí sem arrependimento.

Em 1983, ingressei na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), no curso de Ciências Sociais. Queria compreender as engrenagens da exploração que eu já conhecia na pele. Em 1984, vivi as Diretas Já, as greves, a ocupação da reitoria. Seis dias de luta intensa. Fiz parte do Comando Geral de Ocupação. História viva.

Tudo isso, cada passo meu, foi monitorado até 1990. Da Escola Técnica à universidade, da militância estudantil à vida profissional. Em 2010, solicitei meus registros ao Estado. Eles vieram. Pesados. Detalhados. Cruéis. Mostrei à minha mãe. Ela chorou. Não compreendia como um filho “tão bom” podia ter sido tratado como bandido.

Em 2013, veio a anistia oficial. O perdão, porém, seguiu sendo contestado, reduzido, burocratizado. Até nisso, a perseguição insistiu.

Mas não me quebrou.

A militância nunca foi fardo. Foi escolha. Foi escola. Foi abrigo e trincheira. Chego aqui mais convicto: lutar vale a pena. Dedico esta trajetória à minha irmã, Mauricléia, minha luz e companheira de batalhas.

Assista

Documentário: A Convergência Socialista e a Ditadura Militar

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