Colunas

O que a liderança da Bahia (PT) e de São Paulo (Republicanos) na letalidade policial revela?

Israel Luz

6 de fevereiro de 2026
star0 (0) visibility 0
Foto Agência Brasil

Reportagem da Folha de S. Paulo do dia 4 de fevereiro traz dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública que escancaram uma das faces mais cruéis do capitalismo: o desprezo do Estado dos ricos pela vida da população.

Entre 2024 e 2025, houve crescimento de 4,5% nas mortes causadas por policiais, o que significa que o número de óbitos subiu nacionalmente de 6.238 para 6.519 em um ano.

Os estados campeões em números absolutos são, nesta ordem, Bahia (1.569), São Paulo (835), Rio de Janeiro (798), Pará (634), Paraná (426) e Goiás (364).

Em termos percentuais, o maior salto se verificou em Rondônia (488%), seguido pelo Maranhão (86,8%) e pelo Rio Grande do Norte (50%).

Olha quem morre, veja você quem mata

Não há informações sobre o perfil das vítimas. Mas sabemos que o alvo preferencial das polícias são trabalhadores negros e indígenas, especialmente homens jovens e moradores das periferias.

Na Bahia, em 2024, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do estado levantados pela Ponte, 95,7% eram negras. Em São Paulo, em 2025, o mesmo veículo informa que 59,7% das vítimas eram pretas (79) e pardas (419), para usar os termos raciais oficiais.

Desse ponto de vista, o aumento dos números aponta que o genocídio racista avançou no último período. Se essa política permanente não pode ser resumida à violência policial, se expressando em muitos outros terrenos como o acesso à Saúde e a falta de moradia digna, a ação da polícia é sua cara mais feia.

Apesar disso, à diferença dos outros aspectos, a letalidade policial recebe apoio relativo de uma população que se sente cada vez mais em risco diante do aumento de poder do PCC, do Comando Vermelho e de outros grupos capitalistas.

Esse é um nó que precisamos desatar urgentemente. Não podemos legitimar a morte dos nossos irmãos, filhos, maridos, mães. Ao ter aval, o Estado não para nos “bandidos” por uma razão muito simples: não é preciso participar de qualquer atividade ilegal para virar alvo das forças da classe dominante.

Basta estar brincando na rua como Ryan, de 4 anos, morto em Santos (SP) por um PM que não pôde prever as consequências dos seus atos, conforme a inacreditável conclusão da Polícia Civil. Ou protestar por melhores salários, como metalúrgicos de Curitiba, atacados barbaramente nesta semana pelos policiais de Ratinho Jr. (PSD).
Matar preto e pobre compensa para muitos políticos

Os dados nos permitem notar ainda outra coisa bastante significativa. Chefiando as polícias mais assassinas estão presidenciáveis, políticos de projeção nacional ou pertencentes a grupos de grande influência.

Goiás é governado pelo grotesco Ronaldo Caiado (PSD); o Paraná é comandado pelo já citado Ratinho Jr. (PSD); Tarcísio de Freitas (Republicanos) até outro dia estava listado como possível substituto de Jair Bolsonaro. No Pará, Helder Barbalho (MDB) posou de defensor do meio ambiente na COP-30. Da Bahia vêm petistas centrais para a gestão Lula: Rui Costa (Casa Civil) e Jaques Wagner (líder do governo no Senado Federal). No ano passado, Cláudio Castro (PL) chegou a ganhar visibilidade para além do Rio após a chacina na Penha e no Alemão.

Matar preto e pobre compensa para essa gente: enquanto as lágrimas de milhares de mães caem no chão das quebradas, eles só caem pra cima. Nós contamos corpos, eles votos.

O problema da esquerda capitalista não é “gostar de bandido”

É notável ainda a participação de todos os grandes partidos nesta guerra suja. Este fato desmonta uma opinião que já virou senso comum: a extrema direita defende a brutalidade da polícia e a “esquerda” tem dificuldade com este debate em função de um suposto humanismo.

Ora, o que se pode de fato perceber a partir dos números do Ministério da Justiça é algo bem diverso. Efetivamente, nos estados onde comanda as polícias, o PT não modifica o curso genocida da “Segurança Pública”. Neste Portal já publicamos ao longo do ano passado análises de iniciativas federais que também passam longe de oferecer saídas. Portanto, não é um problema só dos governadores.

Isto é assim porque a letalidade policial está ligada ao racismo e este ao capitalismo. Qualquer força política que atue para administrar o sistema, se beneficia com a barbárie e não pode superá-la.

A luta consequente contra a violência policial precisa se unir à luta pelo socialismo. É esta revolução social que, ao por o povo trabalhador, majoritariamente não-branco, no poder, coloca a perspetiva concreta de frear o genocídio.

Mais textos de Israel Luz
WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux - Hosted & Maintained by PopSolutions Digtial Coop