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Onde há agronegócio, há conflito: 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás

21 camponeses foram assassinados em um operação violenta da Polícia Militar em 17 de abril de 1996

Rosi Pantoja, de Belém (PA)

15 de abril de 2026
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Enterro das vítimas do Massacre de Eldorado do Carajás | Foto: J.R.Ripper/Site MST

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
Estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
Porém mais que no mundo te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada, não se abre a boca

[Funeral de um lavrador, de Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto]

Este ano completam-se 30 anos do maior massacre de trabalhadores rurais do mundo: o Massacre de Eldorado dos Carajás. Passadas três décadas, o que refletimos?

No dia 17 de abril de 1996, cerca de 1.500 famílias acampadas no município de Eldorado do Carajás, no sudeste do Pará, estavam reunidas na região conhecida como Curva do S. O objetivo era marchar até Belém para protestar e exigir do Estado a desapropriação de terras para fins de reforma agrária, em favor das famílias agricultoras.

A caminhada havia começado no dia 10 de abril, mas foi interrompida por uma operação violenta do Batalhão da Polícia Militar. O ataque resultou na morte de 21 camponeses, 19 no local e dois posteriormente no hospital, além de dezenas de feridos e de um profundo trauma psicológico. Adultos e crianças correram para se proteger em meio ao horror vivido naquele momento.

As ordens da operação vieram de instâncias superiores. O coronel Mário Pantoja e o major José Maria Oliveira, responsáveis diretos pela ação, foram condenados, mas só começaram a cumprir pena em 2012. À época, o governador do Pará era Almir Gabriel (PSDB), que nunca foi julgado.

Segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), as famílias das vítimas ainda não receberam reparação do Estado brasileiro. O movimento também denuncia que a polícia atua como braço do latifúndio, evidenciado não apenas em Eldorado dos Carajás, mas também nos massacres de Pau D’Arco e dos garimpeiros na ponte do rio Tocantins.

Para existir o agronegócio, precisa existir concentração de terras

O Brasil, quinto maior país em extensão territorial e detentor de enorme biodiversidade, também ocupa uma posição alarmante: é o segundo país com maior concentração fundiária do mundo. Menos de 1% das propriedades agrícolas detêm quase metade de toda a área rural brasileira, como aponta a Oxfam Brasil.

Essa concentração é resultado de um processo histórico de colonização capitalista, marcado pela expropriação de terras, pelo extermínio de povos originários e pela destruição de seus territórios e culturas. Soma-se a isso a escravização da população negra, submetida a um regime brutal de exploração que estruturou desigualdades sociais profundas, ainda presentes.

Ao longo do tempo, diferentes governos incentivaram esse modelo ao alimentar o capital especulativo e rentista ligado ao latifúndio, ao agronegócio, à mineração, às madeireiras e ao sistema financeiro que sustenta essa cadeia produtiva. Nesse contexto, os conflitos por terra não são enfrentados, pois isso implicaria realizar uma reforma agrária que reduzisse a concentração fundiária, algo incompatível com o modelo do agronegócio.

O massacre de Eldorado dos Carajás expressa justamente o medo das elites diante do crescimento da luta pela terra. Famílias buscavam apenas um pedaço de terra para produzir e viver. Em diversos países capitalistas, reformas agrárias já haviam sido implementadas, mas, no Brasil, a burguesia rentista e latifundiária, em aliança com o poder político, respondeu com violência para preservar a concentração de terras e a propriedade privada dos meios de produção.

Aumento da violência no campo e o esvaziamento da reforma agrária

A violência no campo sempre foi utilizada por setores que se sentem ameaçados, especialmente diante da impunidade. Mesmo após o massacre de 1996, as políticas dos governos seguintes não reverteram esse cenário. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que, entre 2004 e 2023, a Amazônia concentrou 52% dos assassinatos no campo, seguida pelo Centro-Sul (28%) e pelo Nordeste (18%).

Já o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) aponta que, durante o governo Bolsonaro, houve aumento de 54% nos assassinatos de pessoas indígenas, em um contexto de ataques às demarcações de terras e à proteção ambiental, favorecendo a expansão do agronegócio.

Além da violência direta, os dados da reforma agrária revelam a continuidade da concentração fundiária. Durante o governo Bolsonaro, a política de reforma agrária foi praticamente paralisada, sem registros significativos de desapropriação de terras para assentamentos. No governo Temer (2016–2018), mesmo com forte retração, ainda foram desapropriados cerca de 14,3 mil hectares para reforma agrária. Já no atual governo Lula, entre 2023 e 2025, esse número foi ainda menor, aproximadamente 13,3 mil hectares desapropriados, segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Nos dois primeiros anos do governo Lula, inclusive, não houve desapropriações, retomadas apenas de forma tímida a partir de 2025. Ao mesmo tempo, o governo passou a priorizar mecanismos como compra e regularização fundiária. Entre 2023 e 2026, cerca de 577 mil hectares foram obtidos por essas vias, o que implica transferência direta de recursos públicos para proprietários rurais.

Em relação às famílias assentadas, o governo afirma ter atendido cerca de 71 mil famílias em 2024. No entanto, movimentos sociais contestam esses números, argumentando que grande parte se refere à regularização de famílias que já estavam na terra, e não a novos assentamentos efetivos.

No entanto, em 2025, os assassinatos no campo dobraram, tendo como principais vítimas trabalhadores sem-terra, indígenas e posseiros. Esse aumento da violência ocorre em pleno governo Lula, que não apenas deixou de enfrentar a escalada do agronegócio, como também incentivou sua expansão por meio de financiamento público.

Os investimentos em crédito agrícola entre grandes e pequenas propriedades também refletem profundas desigualdades. Desde o ano passado, o governo destinou mais de R$ 500 bilhões ao agronegócio, setor que segue expulsando comunidades tradicionais, originárias e camponesas de seus territórios. Para 2025/2026, o Plano Safra da Agricultura Familiar prevê R$ 89 bilhões em crédito rural via Pronaf, enquanto o agronegócio exportador receberá R$ 516,2 bilhões. Ou seja, um punhado de grandes proprietários (cerca de 1%) receberá quase seis vezes mais recursos do que os mais de 70% das pequenas propriedades rurais.

Esse cenário evidencia que, apesar das diferenças de discurso, há continuidade no impedimento da realização da reforma agrária no país.

A luta não é e não pode ser em vão

A luta daqueles que tombaram precisa continuar. A realização de uma verdadeira reforma agrária no Brasil segue sendo urgente. Para isso, é necessário enfrentar o poder do agronegócio, dos grandes empresários e das políticas que sustentam esse modelo.

Nesse cenário, também se impõe um debate necessário sobre o papel das direções dos movimentos sociais. O MST, historicamente protagonista da luta pela terra no Brasil, passou por um processo de adaptação à institucionalidade, aproximando-se dos governos de conciliação de classe e priorizando a negociação dentro dos marcos do Estado. Essa inflexão política, ao apostar na conciliação e na mediação institucional, contribuiu para a redução das mobilizações diretas e da pressão social por desapropriações. Na prática, essa orientação acaba subordinando a luta pela reforma agrária aos limites de um Estado comprometido com os interesses do agronegócio e do capital financeiro, enfraquecendo a independência política necessária para enfrentar a estrutura fundiária brasileira.

Não se pode alimentar ilusões em governos que destinam bilhões a setores que avançam sobre territórios, destroem biomas e violam direitos, enquanto oferecem recursos insuficientes para quem produz alimento e sustenta suas famílias.

É necessário exigir do governo Lula uma reforma agrária radical, sob o controle dos trabalhadores, que garanta comida no prato do povo brasileiro. Afinal, a fome é resultado direto da concentração de terras nas mãos de poucos. Lula precisa parar de destinar recursos públicos ao agronegócio exportador e priorizar a agricultura familiar, que de fato produz alimentos: ampliando o crédito, garantindo condições de produção e assegurando o escoamento dessa produção.

Da mesma forma, é urgente exigir a demarcação e homologação de todas as terras indígenas e a titulação dos territórios quilombolas, como parte de um processo de justiça histórica e de enfrentamento à estrutura fundiária desigual do país.

Superar essa realidade exige transformar o modelo de produção, hoje voltado à exportação e ao lucro, para priorizar a alimentação do povo, a agroecologia, o respeito à natureza e aos modos de vida tradicionais.

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