Onde o racismo mais acontece na cidade de São Paulo?
“Onde o racismo mais acontece na cidade de São Paulo?”. Esse é o título de uma postagem da Rede Nossa São Paulo ao divulgar o Mapa da Desigualdade 2025. Na categoria “violência racial”, os dados mostram que os bairros centrais e de classe média são os mais racistas.
A pesquisa é muito importante para fornecer dados que nos ajudem a combater as desigualdades na cidade de São Paulo, mas nos parece que, ao ser apresentada dessa forma, a postagem reforça uma ideia equivocada: a de que o racismo se resume à sua manifestação na esfera da ofensa ou da agressão física contra pessoas negras.
É fundamental compreender o racismo em profundidade, pois políticas de Estado cujos principais afetados negativamente são a população negra do nosso país são, também, políticas racistas. Nesse sentido, o próprio Mapa da Desigualdade traz dados importantes no que se refere à moradia, ao emprego, ao acesso à cultura, à saúde, à violência e à educação. Em geral, as periferias apresentam os piores indicadores — e não é coincidência que esses territórios concentrem a maior parte da população negra.
Pautas como a escala 6×1, a violência policial, a falta de saneamento, a moradia precária e o feminicídio incidem diretamente sobre a população negra. Não são essas, também, expressões do racismo?
Periferia e centro: formas distintas de uma mesma opressão
Se concordamos com isso, é equivocado ranquear qual bairro é mais racista, pois, na periferia, temos uma forma de manifestação do racismo, e, nos bairros mais ricos, outra. Nos bairros centrais e ricos, o racismo se expressa tanto pela “ausência” de pessoas negras quanto, como mostram os dados da pesquisa, por índices elevados de ofensas e agressões contra aquelas que transitam por esses espaços.
Já nas periferias, o racismo aparece vinculado a uma política deliberada de sucateamento promovida pelo Estado brasileiro e por seus governantes. Um Estado que não tem nada de neutro, estando voltado à defesa dos interesses da classe dominante, majoritariamente branca.
Compreender o racismo em sua complexidade é fundamental para que possamos propor saídas reais e evitar a armadilha de tratá-lo como uma anomalia que poderia ser corrigida no interior do capitalismo, por meio do simples “alargamento” da democracia.
Esse ponto é central. Se, em 1988, setores do movimento negro acreditavam que a inserção na nova institucionalidade inaugurada com o Estado democrático possibilitaria avanços na eliminação do racismo, hoje, passados quase 40 anos, é possível afirmar que não apenas o Estado não é neutro, como também a democracia não se opõe, necessariamente, ao racismo.
Em uma sociedade dividida em classes sociais, o racismo é um instrumento funcional à dominação da burguesia. Assim, a maior ou menor inserção no aparelho de Estado não significa, por si só, avanço no combate ao racismo. A experiência da SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), nos governos petistas, evidencia esse limite: durante seu período de existência, aprofundaram-se expressões brutais do racismo, como o genocídio, o encarceramento em massa da população negra e o aumento da violência contra mulheres negras.
Organizar para enfrentar: o caminho da luta antirracista
O que pode possibilitar avanços reais na luta contra o racismo é a organização do povo negro das periferias para a luta antirracista. Para isso, é fundamental combater todas as manifestações do racismo, desde o mito da democracia racial até suas formas mais brutais, como o genocídio e o feminicídio de mulheres negras.
Ao mesmo tempo, não podemos perder de vista que a superação definitiva do racismo está ligada ao enfrentamento de suas bases materiais: a própria estrutura de dominação da burguesia e de seus governantes. Sem cair na ilusão de que ministérios ou governantes “bem-intencionados” possam, por si sós, resolver um problema estrutural.
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