Os donos do futebol

João Pedro  Andreassy Castro
Os donos do futebol

A Copa do Mundo sempre foi vendida como a grande festa do futebol. Um momento em que povos de diferentes países se encontram para celebrar o esporte mais popular do planeta. Mas basta olhar para os preços dos ingressos do Mundial de 2026 para perceber que algo mudou profundamente.

Em alguns casos, ingressos revendidos oficialmente chegaram a custar centenas de milhares de reais. Para partidas da Seleção Brasileira, torcedores encontraram ingressos que ultrapassavam R$ 700 mil no mercado oficial de revenda da FIFA. Ao mesmo tempo, a entidade implementa mecanismos de "preço dinâmico", sistema que aumenta os valores de acordo com a demanda, transformando o acesso aos jogos em uma espécie de leilão permanente.

Na prática, a entidade máxima do futebol envia uma mensagem direta: a Copa continuará sendo cada vez menos popular.

Expulsando quem construiu o futebol

O aumento dos preços não é um fenômeno isolado. Ele faz parte de um processo mais amplo de elitização do futebol.

Durante décadas, operários, trabalhadores, estudantes e moradores das periferias construíram a cultura das arquibancadas. Foram eles que transformaram o futebol em paixão nacional em diversos países. Foram eles que criaram cantos, bandeiras, festas e tradições que hoje são exploradas comercialmente por clubes, patrocinadores e transmissões televisivas.

Agora, porém, muitos desses torcedores estão sendo expulsos dos estádios.

O torcedor popular é substituído pelo consumidor que pode pagar mais. Os setores mais baratos desaparecem. A arquibancada deixa de ser um espaço popular para se transformar em um produto destinado a uma minoria privilegiada.

A Copa do Mundo passa a reproduzir cada vez mais a lógica de exclusão que marca o restante da sociedade.

A FIFA e o futebol dos ricos

Isso tudo não ocorre por acaso.

A FIFA se transformou em uma das organizações mais poderosas e lucrativas do planeta. Seu discurso fala em inclusão e desenvolvimento do esporte. Sua prática segue outra lógica.

Ao longo das últimas décadas, a entidade acumulou escândalos de corrupção, relações promíscuas com governos e acordos bilionários com “tubarões” do esporte. Mais do que uma organizadora de torneios, a FIFA atua hoje como uma multinacional do entretenimento esportivo.

Nesse contexto, os preços abusivos dos ingressos não são um simples erro de planejamento. São consequência de um modelo que visa o lucro.

Dos petrodólares à ultradireita: quem a FIFA escolhe como parceira?

A realização da Copa do Mundo de 2022 no Catar e da Copa de 2034 na Arábia Saudita demonstra até onde a FIFA está disposta a ir quando há bilhões de dólares envolvidos.

Em ambos os casos, estamos falando de regimes denunciados internacionalmente por violações de direitos humanos, perseguição a opositores políticos e restrições às liberdades democráticas. Ainda assim, a entidade não apenas aceitou essas candidaturas, como as transformou em vitrines globais.

Trata-se de um fenômeno conhecido como sportswashing: governos utilizam o esporte para melhorar sua imagem internacional, enquanto entidades esportivas recebem investimentos bilionários e expandem seus negócios.

Mas o problema não se limita ao Oriente Médio, é importante dizer que essa não é uma ruptura com o passado da FIFA. Desde sua fundação, a entidade esteve profundamente vinculada aos interesses econômicos e políticos dominantes. Ao longo de sua história, conviveu com ditaduras, fechou acordos com grandes corporações, acumulou escândalos de corrupção e frequentemente colocou os interesses comerciais acima dos esportivos. A própria Copa de 1978, realizada sob a ditadura militar argentina, mostrou que a FIFA nunca teve grandes problemas em associar seu principal torneio a regimes autoritários.

No entanto, seria um erro afirmar que nada mudou. Nos últimos anos ocorreu um salto qualitativo nesse processo. O peso crescente dos mega empresários, dos petrodólares das monarquias do Golfo, da mercantilização extrema do esporte e da aproximação aberta com setores da ultradireita internacional elevou essa lógica a um novo patamar.

A Copa do Mundo de 2026 é a síntese disso. Nos últimos anos, Gianni Infantino (o presidente da FIFA) aprofundou sua aproximação com Donald Trump e setores da ultradireita norte-americana. Em uma cerimônia amplamente divulgada, chegou a entregar ao presidente estadunidense um chamado "troféu da paz", simbolizando uma relação cada vez mais estreita entre a entidade e o governo.

Ao mesmo tempo, a FIFA tem sido cúmplice das políticas xenófobas implementadas pelos Estados Unidos. As restrições migratórias impostas a cidadãos de países sancionados não apenas afetam diretamente o caráter universal que uma Copa do Mundo deveria possuir, mas excluem jogadores, torcedores e dirigentes que não podem participar do torneio. 

A Copa também é um negócio para os Estados Unidos

A escolha dos Estados Unidos como principal sede da Copa de 2026 não atende apenas a interesses esportivos. Ela também responde a interesses econômicos e políticos.

Em 2025, os EUA registraram uma queda de aproximadamente 6% no número de visitantes estrangeiros, tornando-se uma exceção entre os principais destinos turísticos do planeta, que seguiram registrando crescimento no período. Analistas relacionaram esse recuo ao endurecimento das políticas migratórias, às deportações em massa, às restrições para obtenção de vistos, à análise das redes sociais de viajantes e ao aumento das tensões geopolíticas envolvendo o país.

Nesse contexto, a Copa do Mundo surge também como uma oportunidade de recuperar receitas do turismo e reconstruir a imagem internacional dos Estados Unidos. Não é por acaso que Infantino tenha investido tanto na construção de uma relação próxima com Trump, vendendo a ideia de uma Copa capaz de unir povos e culturas em torno do futebol. Para Trump, o torneio também possui um enorme valor político. Assim como a Copa do Mundo de Clubes realizada nos Estados Unidos em 2025, a Copa de 2026 aparece como uma oportunidade para associar sua imagem a um dos maiores eventos esportivos do planeta e construir uma espécie de "Copa de Trump", para fortalecer seu governo.

Mas a realidade tem sido escrachante.

Os conflitos internacionais dos últimos anos, incluindo a escalada militar envolvendo Irã e Estados Unidos, os bombardeios contra o território iraniano e a crise política venezuelana, ampliaram as tensões em torno do torneio. O sequestro de Nicolás Maduro pelo governo norte-americano e o aprofundamento da política imperialista de Trump contribuíram para deteriorar ainda mais a imagem de acolhimento que a FIFA tentou associar à Copa.

O caso mais emblemático envolve o Irã. Embora a seleção tenha sido confirmada na competição, dirigentes e representantes da Federação Iraniana enfrentaram sucessivos obstáculos para circular na América do Norte. O presidente da Federação Iraniana e outros integrantes da delegação foram impedidos de participar do Congresso da FIFA realizado em Vancouver após terem seus vistos cancelados durante a viagem.

Os problemas não se limitaram aos dirigentes. Torcedores iranianos enfrentaram dificuldades para obter vistos e, além disso, tiveram ingressos cancelados dias antes da estreia da seleção. Em diversos momentos, a própria participação do país na Copa chegou a ser colocada em dúvida.

O mesmo acontece com outros povos. Haitianos convivem com o fim de programas de proteção migratória e com ameaças de deportação em massa. Cidadãos de diversos países africanos enfrentam restrições severas para entrar nos Estados Unidos, enquanto torcedores de países como Tunísia, Argélia e Cabo Verde encontram exigências financeiras e burocráticas que tornam a viagem praticamente inviável.

Nem mesmo profissionais ligados diretamente ao torneio escaparam dessas políticas. Omar Artan, árbitro somali e primeiro representante de seu país selecionado para atuar em uma Copa do Mundo, teve sua entrada negada pelas autoridades norte-americanas por conta da sanção americana ao seu país.

Quem manda no futebol?

A elitização do futebol está a todo vapor…

Esse processo pode ser observado no futebol brasileiro com o modelo das Sociedades Anônimas do Futebol, as chamadas SAFs. Apresentadas como solução para os problemas financeiros dos clubes, as SAFs transformam instituições associadas aos seus torcedores em empresas controladas por investidores privados. Hoje, mais de uma centena de clubes brasileiros já aderiu ao modelo.

Em alguns dos casos mais emblemáticos, clubes tradicionais passaram ao controle de empresas internacionais. O Bahia pertence ao City Football Group, conglomerado que controla clubes em diversos continentes, sendo o mais conhecido deles o Manchester City. O Botafogo foi adquirido pelo empresário norte-americano John Textor. O Vasco passou para o controle da 777 Partners, fundo estrangeiro que posteriormente mergulhou em uma série de crises financeiras e disputas judiciais.

A mesma lógica atinge as categorias de base. Cada vez mais jovens são negociados para o exterior antes mesmo de completarem 18 anos, o Brasil é inclusive chamado de "celeiro" de craques. Empresários e intermediários observam adolescentes como potenciais ativos milionários para o mercado europeu. O desenvolvimento esportivo e humano do atleta frequentemente se torna secundário diante da perspectiva de retorno financeiro.

Ao mesmo tempo, os problemas estruturais continuam. Os clubes brasileiros seguem acumulando dívidas bilionárias. Muitos times e atletas de alto nível enfrentam disputas tributárias ou problemas com o fisco. A promessa de que a entrada do capital privado resolveria as contradições do futebol brasileiro está longe de se concretizar, ela reforça o problema.

O império das bets

Outro setor que representa bem essa transformação são as casas de apostas.

Em poucos anos, elas se tornaram as principais patrocinadoras do futebol brasileiro. Cerca de 90% dos clubes da Série A possuem algum tipo de vínculo comercial com casas de apostas, e a esmagadora maioria exibe marcas do setor em suas camisas.

Os números ajudam a explicar esse avanço. Somente os contratos de patrocínio entre bets e clubes da Série A movimentam mais de R$ 1 bilhão por temporada. O mercado brasileiro de apostas já movimenta dezenas de bilhões de reais por ano e se tornou um dos maiores do planeta.

As casas de aposta se apresentam como financiadoras do esporte, mas sua expansão tem sido acompanhada por inúmeras controvérsias. Mesmo após a regulamentação, persistem denúncias sobre publicidade abusiva, endividamento de apostadores, falhas de fiscalização e mecanismos que operam frequentemente nos limites da legislação.

Quanto mais dinheiro circula em torno das apostas esportivas, maiores se tornam os incentivos para a manipulação de resultados. Nos últimos anos, o futebol brasileiro foi palco de investigações envolvendo esquemas de apostas, atletas aliciados e tentativas de interferência em partidas.

Recuperar o futebol para quem o construiu

Se o futebol é do povo, por que cada vez menos gente consegue participar dele?

E talvez a resposta esteja justamente em quem manda no jogo.

A FIFA, as grandes empresas e as casas de apostas não construíram o futebol. Quem construiu o futebol foram os trabalhadores que lotaram arquibancadas durante gerações, os clubes de bairro, os campos de várzea, os atletas e os milhões de torcedores que transformaram esse esporte no esporte do povo trabalhador.

Por isso, a luta contra a elitização dos estádios, contra a privatização dos clubes e contra a submissão do esporte aos interesses do mercado não é uma pauta secundária. É parte da defesa do próprio caráter popular do futebol.

Recuperar o futebol para o povo significa democratizar as entidades esportivas, garantir acesso popular aos estádios e enfrentar a transformação do esporte em simples mercadoria. Bem como lutar contra todo o sistema que molda ele dessa forma. Isso significa lutar pela transformação social, pelo socialismo.

Porque o futebol nasceu do povo. E é ao povo que ele deve pertencer.

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