Cultura

Oscar Wilde: vida, arte e morte que ecoaram o “amor que não se diz o nome”  

Wilson Honório da Silva, da Secretaria Nacional de Formação do PSTU

30 de novembro de 2022
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O escritor e dramaturgo Oscar Wilde faleceu há 122 anos, em 30 de novembro de 1900. Oficialmente, foi vítima de meningite. Contudo, como atestado por seu médico na época, a verdadeira causa de sua morte foram os maus-tratos que Wilde sofreu no período em que esteve preso e submetido a trabalhos forçados, entre 1895 e 1897, condenado por “cometer indecência grave [ou repugnante] com pessoa do mesmo sexo”.

Para muitos, o escritor, dramaturgo e poeta Oscar Wilde, que nasceu em 16 de outubro de 1854, em Dublin, na Irlanda, é praticamente sinônimo do termo “witty”, utilizado pelos britânicos para designar o humor sarcástico, irreverente, felino, escandaloso, às vezes vulgar, mas sempre extremamente inteligente. Por isso mesmo, o triste e melancólico final de Wilde e sua morte precoce, aos 46 anos, é ainda mais revoltante e indigno.

No entanto, o impressionante enredo de sua vida mesclou-se com sua arte e esta ressoou forte na realidade, nos permitindo, hoje, refletir sobre um tanto de coisas que caracterizam uma sociedade ainda mais decadente do que aquela em que ele viveu, criou, ousou amar e foi punido. Temas como a relação da Arte com a História, a liberdade criativa como arma contra o conservadorismo e como a opressão se enreda com tudo isto. Além disso, conhecer Wilde também nos ajuda aprender um pouco sobre os primórdios do movimento LGBTI e até mesmo sobre como os socialistas se posicionaram sobre o tema, naquele momento.

Sua língua felina e raciocínio rápido, ainda nos deixaram uma coleção enorme de aforismo; ou seja, frases curtas e geralmente satíricas, ditas à imprensa, em ocasiões públicas ou colocadas na boca de seus personagens. Algumas, é preciso ser dito, tem um caráter um tanto misógino (ofensivo às mulheres), mas “contradições” são parte da compreensão de quem foi Oscar Wilde.

Uma delas, presente no pouco conhecido “A alma do homem sob o socialismo” (1891), que abordarei no final, é particularmente boa para começar a falar de sua breve, mas ultraprodutiva, passagem pelo planeta: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.

E Wilde viveu, intensa e apaixonadamente. E, por isso mesmo, apesar de seu verdadeiro martírio, continua vivo, como parte da cultura mundial e uma referência inestimável particularmente para a comunidade LGBTI.

Uma observação: o artigo começou a ser escrito apenas para lembrar seu aniversário. Contudo, acabou “ganhando vida própria” e se desdobrou em quatro partes. Neste, iremos do início da carreira de Wilde até o momento em que começa a fazer sucesso e encontra Alfred “Bosie” Douglas, seu grande amor e razão de sua vertiginosa derrocada, passando por um tema fundamental para entendê-lo: o que significava ser gay numa época em que a palavra “homossexual” sequer existia, mas a repressão era muitíssimo real.

E, pra quem quiser, recomendamos assistir o excelente “Wilde” (1987), dirigido por Brian Gilbert, com o genial Stephen Fry no papel título, acompanhado por um elenco de primeira, como Jude Law e Vanessa Redgrave.

A adesão ao Esteticismo e à “arte pela arte”

Filho de uma classe média intelectualizada, Wilde freqüentou escolas e universidades de elite, em Dublin e, depois, Londres, geralmente com auxílio de bolsas de estudo conquistadas pelo seu alto desempenho acadêmico, o que lhe proporcional uma formação “clássica” e bastante refinada.

E, em ambientes como estes, ele já se destacava por coisas que eram, no mínimo, consideradas “excentricidades”, como cabelos compridos, roupas extravagantes, o desprezo pelas atividades tipicamente “masculinas” (com os esportes) e um profundo apreço pela decoração, ao ponto de seus aposentos na universidade terem ficado famosos pela abundância de penas de pavão, girassóis, lírios e objetos de arte.

Esse seu jeitão “dândi-largado” (sendo “dândi” o nome dado a jovens de classe média que adotavam modos e roupas identificados com os da nobreza, transformando o bom gosto e a beleza numa verdadeira religião, como dizia Charles Baudelaire, o mais famoso deles) fez com que, inevitavelmente, ele se aproximasse do Esteticismo, um movimento artístico que floresceu na Inglaterra por volta de 1850.

Suas bases, bastante criticadas pelos artistas mais “engajados”, estão sintetizadas no lema “A arte pela arte”, cunhado por um de seus fundadores, Walter Pater (1839-1894), na defesa da tese de que a arte deveria valorizar, acima de tudo, o próprio ato criativo e a “beleza”, distanciando-se de qualquer função sociopolítica ou de finalidades morais ou mesmo didáticas.

Geralmente apontado como puramente alienado em relação ao mundo, é preciso dizer, no entanto, que o Esteticismo também surgiu como uma reação àquilo que seus adeptos chamavam de “a feiúra das máquinas”, em referência ao impacto da Segunda Revolução Industrial nas cidades e seu cotidiano; e, principalmente, à estética (o jeito de se pensar e fazer a Arte) predominante na chamada Era Vitoriana, período relativo ao longuíssimo reinado de Vitória (de 1837 a 1901).

Décadas que, refletindo o caráter autoritário e soturno da rainha, foram marcadas por altíssimas doses de conservadorismo, preconceitos, rigidez puritana, moralismo cristão e profunda repressão sociocultural. Tudo isto combinado com o agressivo caráter imperialista do Reino Unido, o que, para a população britânica, significava a obrigação de se submeter a qualquer regra ou lei que o Estado considerasse apropriadas para aqueles que deveriam se comportar como “senhores do mundo” e padrões da “civilização”.

Neste sentido, o Esteticismo também foi, a princípio, uma tentativa de distanciar a Arte da submissão à ética e função social que a ideologia dominante tentava impor. O caminho pelo qual enveredou, depois, é outra história; mas o fato é que Wilde era um ardente defensor da proposta, algo que, inclusive, lhe rendeu pesadas críticas, como uma caricatura publicada na revista satírica “Punch”, em que Wilde, na forma de um girassol, aparece ao lado de uma frase que fazia um trocadilho com seu nome (próximo de “selvagem”, em inglês): “O esteta dos estetas: seu nome é Wilde, mas sua poesia é mansa!”.

É verdade que muitas destas críticas mascaravam ataques tanto às “excentricidades” quanto à origem irlandesa do escritor. Mas, Wilde, sem dúvidas, era um porta-voz do movimento, inclusive viajando, em 1882, para a América do Norte para palestrar sobre o tema, protagonizando, inclusive, um episódio que ajudou a fazer sua fama. Ao passar pela alfândega de Nova York, perguntaram se ele tinha algo a declarar. E ele disparou: “Nada além da minha genialidade”.

A frustrada tentativa de se ajustar à ordem

Neste mesmo período, Wilde publicou suas primeiras poesias e iniciou sua produção teatral. Mas, também, começou a enveredar por caminhos que, ao mesmo que o levariam ao topo, acelerariam sua vertiginosa queda.

Nunca escondendo seu desejo um tanto obsessivo em alcançar o sucesso e a fama, Wilde fez o que pôde para garantir uma posição no restrito círculo social da “intelectualidade” de sua época, menosprezando, inclusive, algo que conhecia muito bem, além do conservadorismo reinante: sua própria incapacidade em conter uma personalidade dada aos “excessos” e amante da liberdade.

Foi assim, por exemplo, que, acuado por um padrão praticamente compulsório, ele se casou, em 1884, com Constance Lloyd, filha de um advogado da Corte, com quem teve dois filhos, Cyril e Vyvyan, aos quais, vale ressaltar, era extremamente dedicado. Uma história que, contudo, começou a se complicar dois anos depois, quando o futuro jornalista e crítico de arte Robert “Robbie” Ross, então com 17 anos, literalmente explodiu a ilusória bolha de vidro onde Wilde tentava se manter.

Constance, mulher de Wilde

Ser gay quando a palavra “homossexual” sequer existia, mas a opressão era enorme

E, aqui, é preciso “abrir um parêntese” para que se compreenda como o jeito de Wilde lidar com sua sexualidade foi moldado pelo contexto em que vivia. Se sexo, em si, já era um absoluto tabu na Era Vitoriana, qualquer coisa para além da heterossexualidade sequer era cogitada como uma possibilidade (pura hipocrisia, já que era óbvia existência de muitas variantes).

Aliás, não havia sequer um “nome” para isto, apesar da “prática” ser alvo de fortíssima repressão. Na No Império Germânico, por exemplo, em 1871, foi introduzido o Parágrafo 175 do Código Penal (que só foi inteiramente revogado em 1994), que igualava o sexo entre homens a crimes sexuais que iam da prostituição e bestialidade ao abuso sexual de menores.

Já no Reino Unido, em 1885, foi aprovada uma Emenda ao Código Criminal que, seguindo o modelo alemão, deu origem ao artigo aplicado na condenação de Wilde e criminalizava todo tipo de contato sexual ou íntimo entre homens, em ambientes públicos ou privados (e só começou a ser derrubado em 1967, na Inglaterra, ou no início dos 1980, em outras partes do Reino Unido).

Como se pode notar, as legislações só se referiam aos homens, não porque não houvesse perseguição às lésbicas, mas simplesmente porque as mulheres, em geral, estavam numa espécie de limbo, já que a moral vigente sequer considerava associá-las à sexualidade. De qualquer forma, para além das perseguições e prisões, leis como estas ainda deixavam homossexuais vulneráveis à chantagem (diante de possíveis denúncias), o que, inclusive, resultava num alto índice de suicídios.

Evidentemente havia reações a tudo isto. A luta contra o Parágrafo 175, por exemplo, foi o principal motor para a formação, em 1897, em Berlim, da primeira entidade criada abertamente para defender LGBTIs: o Comitê Científico Humanitário, que tinha à frente Magnus Hirschfeld, que vale dizer, se tornou amigo de Robbie Ross, ao envolver-se na campanha pela soltura de Wilde.

Magnus Hirschfeld, fundador do Comitê Científico e Humanitário, com mulheres trans, na virada dos 1900

Por fim, pra fechar o parêntese, é preciso saber que foi exatamente neste contexto que o termo “homossexual” foi criado, em 1869, pelo húngaro Karl Maria Benkert, médico, jornalista e um dos primeiros ativistas em defesa das “minorias sexuais” (o que fazia mantendo sua própria homossexualidade guardada a sete chaves). A popularização do termo, contudo, só se deu em 1886, quando o psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing publicou “Psicopatia Sexual”, um estudo pioneiro sobre a questão e onde aparecem, também pela primeira vez, as palavras “heterossexual” e “bissexual”.

Pra qualquer leitor(a) mais atento, o simples fato da palavra “psicopatia” aparecer no título do livro deve provocar aversão e “medo”. Mas, é preciso contextualizá-lo. Primeiro, na época, o termo “psicopata” não tinha exatamente o mesmo significado que tem hoje (desenvolvido somente a partir da década de 1940), apesar de, também, se referir a uma desordem clínica, no caso uma degeneração hereditária do sistema nervoso.

Contudo, o que pode parecer ainda mais bizarro para o olhar de hoje é que, na época, o livro foi fortemente atacado pelos conservadores (a igreja à frente) e serviu de instrumento de luta para as LGBTIs em geral e o seu nascente movimento.

Lembrar disto é importante, e fundamental para entender Wilde, porque a tese central tanto de Benkert quanto Ebing, mesmo que totalmente ultrapassada, tinha como objetivo defender aqueles que eram perseguidos e criminalizados pelo Estado, ao sustentar que, ao contrário de “pervertidos” ou “criminosos” e “degenerados”, os homens gays, no caso, haviam nascido daquela forma e nada poderia ser feito para mudá-los, cabendo, então, unicamente aceitá-los.

A descoberta do “amor que não diz o nome”

E era exatamente assim que Wilde se via. Na verdade, consta que ele tentava lutar a “manifestação” de seu “distúrbio” até que este espelho distorcido fosse estraçalhado pela atrevida ousadia do jovem Robbie que, ao contrário dele, lidava de forma muito mais “tranquila” com sua sexualidade, ao ponto de, mesmo muito jovem, já ter confrontado alunos de sua escola que o oprimiam em função de não fazer muito esforço para omitir sua orientação sexual.

Como tudo o que cerca Wilde, não se pode afirmar com certeza que Robbie tenha sido o primeiro homem com quem ele se relacionou. Alguns biógrafos citam histórias anteriores, como o pintor Frank Miles, com quem dividiu a moradia estudantil, em 1879. E o próprio Wilde, depois, revelou que seu encontro, em 1882, com o escritor norte-americano Walt Whitman (1819-1892) foi pra muito além do debate literário: “Ainda sinto nos lábios o beijo de Walt Whitman”, comentou com um amigo, se referindo ao autor de um clássico da poesia gay: “Folhas da relva” (1855).

Como também se sabe que no Reino Unido ou em suas andanças pela Europa, ele sempre esteve em contato com a comunidade gay, através de artistas, como Paul Verlaine, na França; ativistas dos movimentos pelas “reformas sexuais”, como o mencionado Magnus Hirschfeld e uns tantos outros que, mesmo não sendo seus amantes, certamente poderiam tê-lo colocado em contato com a “vida gay”.

Dentre eles, vale destacar Edward Carpenter (1844-1929), até mesmo pra resgatar uma das figuras mais interessantes deste período. Em 1887, Wilde colaborou para a mesma revista que Carpenter, um filósofo e poeta que, apesar de ter nascido em um berço muito mais “esplêndido” do que o irlandês, conseguiu construir uma história totalmente diferente.

Membro da elite londrina, Carpenter se tornou um militante socialista, com forte trabalho nos movimentos operários; viveu em uma comunidade gay e, depois, numa naturalista; e, ousadia total, como um casal, por quase 40 anos, com operário George Merrill (1867-1928), uma relação que inspirou o escritor E. M. Forster (1879-1970) a escrever, em 1913, o belíssimo romance “Maurice” (transformado em filme, em 1987, por James Ivory).

No entanto, o consenso é que Robbie foi, sim, o primeiro “amor” de Wilde. E, mesmo assim, a história é cercada de lendas, a começar por uma que, com certeza, é quase um “fóssil” das nossas próprias, já que é uma situação “típica” até hoje, mas só porque, desde sempre, o direito à manifestação pública do “amor que não se diz o nome” nos é negado: eles teriam se encontrado pela primeira vez no banheiro de um parque ou algo assim.

Seja como for, também é sabido que foi Robbie que tomou a iniciativa e “seduziu” Wilde, então com 33 anos. Como também que foi ele que introduziu o escritor à “vida gay”, principalmente aos bares e salões freqüentados pelos jovens michês, e que, apesar do romance ter sido breve, os dois mantiveram uma relação de extrema solidariedade e carinho, que durou para o resto da vida.

Alias, a devoção de Robbie a Wilde e sua memória é realmente comovente. Além de cuidar de Wilde no exílio, ele pagou pelo belo túmulo onde o escritor foi enterrado e, de importância histórica, tornou-se o seu executor literário, o que significa que teve que localizar e comprar os direitos a todos os textos, que haviam sido vendidos juntamente com os bens de Wilde, quando decretaram sua falência, além de impedir a publicação de falsificações de seus livros (e foram várias, a maioria elevando o teor erótico ao patamar da pornografia). Um trabalho que consumiu anos, mas resultou na publicação, em 1908, da primeira edição das “Obras completas de Oscar Wilde”.

Por fim, também foi Ross que apresentou Wilde àquele que foi seu “amour fou” (expressão francesa para uma paixão intensa, verdadeira, mas insana) e razão de sua queda e desgraça: Lord Alfred “Bosie” Douglas (1870-1945). Robbie os apresentou quando tinham, respectivamente, 22 e 37 anos, e se tornaram inseparáveis, numa relação bastante pública até mesmo porque coincidiu com a explosão da fama de Wilde, conquistada pela perfeita combinação coisas que têm tudo a ver com ele: escândalo, inteligência e talento artístico.

É isto que veremos no próximo artigo.

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