Pluribus e a paranoia anticomunista norte-americana
A pessoa mais miserável da Terra precisa salvar o mundo da felicidade
[Atenção: o artigo pode conter alguns spoilers]
A série Pluribus, criada por Vince Gilligan (o mesmo de Breaking Bad e Better Call Saul), já se tornou o maior sucesso da história da Apple TV+. Em meio a uma nova onda de produções sobre o fim do mundo, Gilligan inverte a lógica da catástrofe: aqui, o apocalipse não chega com destruição e desespero — mas com felicidade.
A protagonista, Carol Sturka (vivida por Rhea Seehorn, também de Better Call Saul), é uma das treze pessoas imunes a uma misteriosa infecção que transforma toda a humanidade. Rabugenta e ainda lidando com o luto pela morte da parceira, Carol se vê sozinha numa realidade tomada por zumbis da alegria: mais de sete bilhões de pessoas conectadas por uma mente coletiva, Nós (ou os Outros), que busca convencê-la a abrir mão da própria individualidade e se unir a essa nova mente unificada e pacífica — uma promessa de satisfação total, mas à custa de tudo o que ainda a torna humana.
Para os mais de 7 bilhões contaminados pela felicidade, não existe mais o “eu” — o que há é apenas um Nós imperativo. Cada corpo que compõe essa teia de consciência tem acesso a todo conhecimento adquirido e produzido por quem faz parte dela — pelo conjunto da humanidade. Parece tentador, não? Uma realidade em que o poder é distribuído a todos, e que todos têm plenas condições de realizar todas as tarefas. Para aqueles que gostam de conclusões precipitadas, está aí um prato cheio contra o comunismo: tamanha harmonia, divisão justa do trabalho, o fim das classes sociais e da propriedade privada, tudo isso permeado pelo imperativo da felicidade e esmagado pela perda da individualidade.
Uma outra pista para aqueles com tendências mais conspiratórias é a menção que a protagonista faz a Stálin quando diz que o único outro grande extermínio em massa na história foi cometido por ele. Para aqueles que acham que os personagens devem ser mero veículo da voz política da equipe de direção da série, aí residiria um absurdo sem tamanhos: diante do genocídio em Gaza levado adiante pelo Estado sionista e ilegítimo de israel, diante de Hitler e do nazismo, diante de tantas guerras e extermínios causados por conflitos imperialistas, escolheram citar logo Stálin?
Bom, não deixa de ser verdadeira a crítica à Stálin. Mas a questão está para além disso: a escolha de citá-lo parece funcionar mais como parte da caracterização da personagem vivida por Seehorn do que um guia político da série — que, ao que tudo indica, não é um panfleto — e parece usar desse artifício da dicotomia para jogar com a expectativa de nossos impulsos hiper interpretativos e nossas expectativas sobre as já tão conhecidas e batidas tramas de fim-do-mundo-com-invasão-alienígena para tensionar a ironia e o suspense dos conflitos.
Que a indústria cultural hollywoodiana é uma máquina política e de mercadorias padronizadas a serviço da lógica do capital e do lucro, isso já sabemos. Assim como também foi — dadas as devidas diferenças e particularidades — o realismo soviético do stalinismo na URSS, que marcou a imposição de um estilo artístico, período marcado pela perseguição a comunistas contrários ao regime e pela proibição da circulação de obras subversivas.
De fato, a arte está emaranhada à política — é por isso mesmo que continua sendo importante se deter um pouco mais e ir além de polêmicas que dizem mais sobre o espectador do que sobre a obra em si. Que a paranoia anticomunista fique, por ora, apenas com a personagem, certo?
O bem ou o mal — nenhum, ambos?
Gilligan parte do lema dos Estados Unidos E pluribus unum (“de muitos, um”) e cutuca a ferida ainda aberta entre o social e o individual — uma ferida aberta pelo capitalismo. Em Pluribus, a dicotomia é como um cavalo de Troia. O que há de ruim num mundo onde não há mais violência, desigualdade, crimes e guerras? O que há de bom numa realidade onde a diferença é silenciada em nome da harmonia coletiva? Tentar dar uma resposta a essas questões, entre o bem e o mal, não levará ninguém — nem a série — a lugar nenhum. Uma protagonista tão antipática como Sturka faz esse caldeirão fervilhar ainda mais.
Espectadores, acompanhamos os acontecimentos pelos olhos de Carol. As contradições e dilemas despontam pela ótica da protagonista — sua surpresa quando descobre que não há mais supermercados porque a comida está sendo distribuída ao redor do mundo, ou então quando visita o dormitório coletivo em que vivem os corpos que fazem parte dessa teia coletiva para economizar energia. Tudo sobre a nova maneira que o mundo se organiza causa estranhamento e repulsa à protagonista — e, se você é daquele que gosta de procurar por heróis e vilões, vai dar num beco sem saída.
Enquanto desenvolve seu relacionamento com Zosia, a figura escolhida pela mente coletiva para acompanhar e se comunicar pessoalmente com a protagonista, Carol descobre que emoções negativas demais levam a mente coletiva a um estado de choque em cadeia. Assim, sua grosseria com uma pessoa não é mais a grosseria com apenas uma pessoa, mas uma potencial arma de destruição em massa. Ora, mas que tipo de sociedade tão-tão-distante é essa em que a diferença causa tanto medo e sofrimento?
Em meio ao uníssono de um Nós sempre a postos para agradar, os demais imunes oferecem lampejos de diferença — uma mulher indiana que ainda vive com o filho contaminado e se desespera a cada vez que Carol produz as reações em cadeia de sofrimento na mente coletiva, com medo de que a criança morra; uma jovem quíchua que, para se juntar à família, vê como positiva a possibilidade de fazer parte da consciência compartilhada; um homem da Mauritânia que decide aproveitar tudo aquilo a que sempre teve o acesso negado: carros, mulheres, banquetes, hotéis de luxo. As experiências sociais, culturais e econômicas também dão o tom de como cada um dos imunes lida com a situação, desafiando o eixo da protagonista norte-americana, sempre muito impositiva e desinteressada pela experiência de seus pares. Carol não conhece o mundo que quer salvar e se isola diante das diferenças e desacordos.
As contradições pululam entre as personagens e seus dilemas. Afinal, quem pode decidir o melhor para a humanidade? Uma escritora de best-sellers fajutos que só conversa com quem sabe inglês? Uma nova forma de consciência que elimina toda a desigualdade, toda a violência, mas leva no mesmo balaio toda a diferença e individualidade? [atenção: individualidade, não individualismo].
Soma-se a essa equação um personagem que se mantém misterioso por boa parte da trama. O paraguaio Manousos Oviedo, o 13º imune, também interessado em salvar o mundo. Para isso, atravessa praticamente toda a América do Sul em busca de Sturka. Nesse meio tempo, a protagonista vive um romance com Zosia, sua acompanhante pessoal, e desacelera seus planos de salvação. Quando Oviedo a encontra, descobre uma Carol que tenta fisgar resquícios de humanidade em meio à mente coletiva.
A protagonista, num embate individual permeado pela elaboração do luto, tenta convencer o paraguaio de que os Outros não são violentos: não matariam nem uma formiga. E é verdade: além de não saberem mentir e precisarem gerar felicidade e satisfação constante, nenhum tipo de violência é aceitável para a mente coletiva; não tiram frutas das árvores: esperam que elas caiam; não matam animais para consumo: comem apenas o que já havia sido produzido até então; não interditam nenhuma forma de vida: consomem apenas aquilo que já está disponível — o que trará mais dilemas morais adiante. Diante de uma Carol resignada pela paixão, Manousos lança uma provocação: diz que tratar uma formiga e um humano da mesma forma já é uma violência.

E pluribus unum
É como aquele meme: tirou a minha alienação… me deixando só com a alienação. Sem classes sociais e sem exploração, o vírus dá a todos, através do emaranhado de consciências individuais, acesso a todo o conhecimento produzido pela humanidade. Retomando Lênin em “O Estado e a Revolução”, agora uma cozinheira sabe comandar um Estado (que já não existe) — fazer uma operação médica, pilotar um avião… tudo — só que não. Porque esse todos é apenas um. A subjetividade, pra não dizer anulada, é alienada.
O vírus alienígena (forçando a barra: alien… alienação…) surge, enquanto ainda não existem maiores justificativas para sua origem, como uma resposta fácil à fragmentação, ao isolamento e à impotência da subjetividade no capitalismo — sistema que, como bem sabemos, não combina nem um pouco com a felicidade plena (ainda que tente nos convencer ideologicamente dessa possibilidade, igualando bem-estar e saúde a conformismo e produtividade). Enfim, a questão é que esse totalitarismo pacífico também está longe de se aproximar do comunismo, justamente porque aplasta toda a diferença em unidade e coloca o que há de mais humano a serviço de algo que não a humanidade em si (e para si) — tomando emprestada a noção de classe em si e para si de Marx e conscientemente esbarrando no limite de que, ao que parece, não há conteúdo político, divisão de classes nem disputa de consciência no que se refere à mente coletiva. O que abre caminho para o que há de mais interessante na narrativa é o atrito entre a visão de mundo dos imunes, permeada por sua formação histórica, social e cultural, e essa nova realidade que se pretende, em certo sentido, ahistórica e apolítica.
Tendo a concordar com o personagem paraguaio: tratar uma formiga e um humano da mesma forma já é um tipo de violência. E não porque um valha mais que o outro, mas porque a diferença é o que nos faz humanos — para não entrar no mérito da questão do desenvolvimento da consciência no homem e o que nos diferencia dos outros animais. Eles tentam provar seu amor por Carol a todo instante — que é o mesmo amor que sentem por Manousos, o mesmo amor que sentem por todos os outros imunes, o mesmo amor que sentem por qualquer ser vivo. A homogeneização da diferença admite o amor? Um amor pasteurizado, condicionado à vigilância constante, à aniquilação da diferença, a um suposto limite demarcado pelo consentimento — limite que é borrado em se tratando da contaminação (ou conversão, ou salvação) dos imunes.
Há quem entenda tudo isso como uma crítica (bem caricata) ao comunismo; há aqueles que entendem como uma crítica ao capitalismo; outros, à religião; para alguns, tudo gira em torno de uma grande alegoria à inteligência artificial. O que fiz aqui foi tentar elencar alguns elementos para além da tentação de um olhar paranoicamente interpretativo. De toda forma, não é à toa que a série tenha se tornado a mais assistida na plataforma da Apple: não deixa de ser um produto e não deixa de precisar gerar lucro para justificar sua existência e continuidade — ainda mais numa gigante (não só) do streaming; assim, mirar em todas as direções e se manter na corda bamba de um pressuposto de neutralidade podem servir a essa lógica — afinal, lucro é lucro, independente se venha do bolso da esquerda ou da direita. De toda maneira, a série escapa àquela lógica literalista de pegar o espectador pela mão rumo à metáfora ou mensagem final que precisa ser — facilmente — decodificada; ao mesmo tempo, parece prever e brincar com essa lógica hiper interpretativa de quem busca respostas definitivas e finais explicados.
Não quero refutar nem confirmar interpretação alguma. Até porque não é errado procurar significados na arte. Mas também pode ser interessante nos permitirmos nos deter por alguns momentos diante desse impulso incontrolável de interpretação, entrar no jogo e tentar entender o que está para além dessas categorias e caixinhas pré-estabelecidas, sem tentar espremer suco de limão de um maracujá. Podemos lançar um olhar para além do que a protagonista, algum personagem ou o roteiro nos conta, para além de dicotomias que aprisionam nossos sentidos, para além da sedução da interpretação que aprisiona a arte.
Entre o ritmo lento do isolamento solitário de Carol e a velocidade dirigida pela tensão nos momentos em que parecemos estar mais próximos de algum tipo de resolução, Gilligan nos oferece um universo de imagens que extrapolam as alegorias que vemos saltar diante de nós. Sem ousar entrar nos meandros mais estéticos do seriado, vale ressaltar que há toda uma gama de sensações também causadas pelas imagens, nos posicionando — através da tela, das cores, do enquadramento — para além desse pêndulo entre a reivindicação da individualidade, o absurdo de uma mente coletiva totalitária e a tentação de fazer parte desse algo maior e harmônico. E a maneira como somos seduzidos ou repelidos por essas imagens, como as encaixamos num quebra-cabeças individual de significados coletivos, não deixa de fazer parte do jogo da interpretação (e de desafiá-lo) — porque há peças que faltam e há peças que sobram.
Por fim… você deve ter visto manchetes (possivelmente falsas) sobre um anúncio de Pluribus veiculado na tela de uma geladeira da Samsung, certo? Com os dizeres We’re sorry we upset you, Carol (“desculpe-nos por termos te decepcionado, Carol” em tradução livre), a propaganda teria desencadeado o surto psicótico de uma britânica chamada Carol. O absurdo da situação (fake ou não) mostra como ficção e realidade se sobrepõem, e, entre o caos desenfreado e violento da promessa de liberdade do capital e a harmonia social de uma felicidade totalitária e vigilante, lança uma fagulha para aqueles dispostos a encarar com rebeldia esse atrito entre ficção e realidade.