Portugal: “A acampada tem feito o governo tremer”

Redação
Portugal: “A acampada tem feito o governo tremer”
Manifestação em Lisboa contra a crise habitacional @em.luta.lit

Desde 17 de outubro, milhares de jovens estão mobilizados em Portugal contra o alto custo dos aluguéis, o déficit habitacional e a carestia. Inspirados pelo movimento que começou na Espanha, jovens e trabalhadores organizaram um acampamento na cidade do Porto e na Praça Rossio, em Lisboa, a “Acampada”, que enfrenta uma forte repressão da polícia do primeiro-ministro Luís Montenegro, mas se mantém forte e questiona não só o problema da moradia, mas o próprio modelo de cidade e os sucessivos governos que atuam em prol da burguesia e dos grandes fundos de investimento, em detrimento da população.

O Opinião Socialista conversou com João Veloso, ativista pelo direito à habitação da Acampada-Lisboa e militante do Em Luta, seção da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI) no país. Veloso relata a experiência da mobilização e a auto-organização dos jovens da acampada frente ao governo e à repressão.

Como iniciou a acampada em Portugal?

Na verdade, era algo que já vinha sendo sentido pelas pessoas há muito tempo, os preços dos aluguéis já estavam muito altos, e acabamos de certa forma sendo contagiados por aquilo que tem sido a acampada de Madri.

Então, vários coletivos decidiram organizar também uma acampada aqui em Lisboa. Ela começou ao final de uma manifestação da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), uma das centrais sindicais, no dia 17 de outubro. Começamos a montar tendas e no mesmo dia fizemos nossa primeira assembleia popular.

Depois de três repressões policiais, após a polícia ter nos expulsado três vezes, voltamos sempre e até hoje continuamos. Estamos chegando à terceira semana resistindo, apesar de toda a repressão policial e da falta de respostas do governo ao problema da moradia.

A assembleia popular, que fazemos todos os dias, é o órgão máximo da acampada. O espaço onde se tomam as decisões, com o microfone aberto, onde qualquer pessoa pode apresentar uma proposta, algo que as pessoas acham que a acampada pode fazer, sejam questões políticas, sejam organizativas. Desde as relações com os sindicatos, movimentos, até com as instituições, como a prefeitura.

Para além disso, a acampada se organiza em diferentes grupos de trabalho. Temos o grupo de trabalho da logística, da comunicação, da cozinha, de porta-vozes. Vários grupos que organizam a estrutura da acampada para que ela continue funcionando. Temos ainda uma cantina popular onde servimos diariamente entre 200 e 300 refeições para qualquer pessoa que passe por aqui, e também um espaço-criança, com uma programação voltada às crianças.

Conte como está sendo a repressão policial

Foram bastante violentas. A primeira foi no terceiro dia em que estávamos aqui, às 4h. A polícia começou a bater nas pessoas e a expulsá-las. Inclusive pessoas que estavam dormindo, a polícia alegou que estavam resistindo, mas elas estavam dormindo! Completamente surreal! Vários ativistas foram feridos, inclusive na cabeça.

A segunda repressão aconteceu depois de uma manifestação que organizamos, em que juntamos 25 mil pessoas. Uma manifestação gigantesca equiparada em tamanho às manifestações de 25 de abril. Fizemos nossa assembleia popular, e ficaram centenas aqui na praça, dispostas a resistir à polícia. Ficamos de braços dados, em várias linhas de resistência, a polícia começou a reprimir e muita gente foi ferida, foi horrível, várias pessoas espancadas no chão. E mesmo depois de a polícia ter dispersado as pessoas aqui no Rossio, a perseguição durou várias horas em diferentes pontos da cidade. É uma demonstração de que o objetivo da polícia não era apenas acabar com o acampamento.

Houve ainda grupos de extrema direita que perseguiram ativistas, como o Grupo 1143, inclusive com um esfaqueado. E estamos sofrendo ataques de diversos tipos, principalmente os imigrantes, como nosso companheiro Antônio Tonga.

Quais as perspectivas para o movimento?

Algo determinante é esse movimento conseguir continuar vivo e mobilizando pessoas. Isso pode passar por várias coisas, a acampada continuar se juntando aos vários movimentos, chamar os sindicatos, as categorias, para fortalecer a luta, rumo a uma greve geral em defesa da moradia, contra o alto custo de vida e as nossas reivindicações. Temos essencialmente seis reivindicações: a revogação da lei do arrendamento; o fim das demolições e dos despejos; o fim da aquisição de habitações por fundos imobiliários; ampliação da habitação pública; recuperação de imóveis devolutos para habitação da população e a imposição de um teto para os aluguéis.

Essa acampada colocou várias questões em cima da mesa: tem feito o governo Montenegro tremer, apesar da dura repressão. E acho que essa mobilização também questiona o modelo de uma cidade essencialmente virada para o turismo e os grandes negócios, como as plataformas como Airbnb ou as redes de hotéis. Questiona, enfim, o modelo de governo do PSD e de governos anteriores, como o PS.

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