Proposta de federação coloca PSOL diante do espelho
A proposta de federação do PT com o PSOL não é produto de um giro à esquerda do PT. É um passo a mais na adaptação do PSOL ao projeto político petista. Fica mais evidente algo que muitos ativistas honestos do PSOL ainda não percebiam: esse caminho tende a liquidar o próprio PSOL enquanto suposta alternativa ao petismo.
Projeto do PT é capitalista
De um partido que nasceu das lutas operárias e cumpriu um papel relativamente progressivo ao organizar a classe trabalhadora com independência de classe contra a ditadura militar no final dos anos 1970 e 1980, o PT se transformou no partido que mais governou a Nova República, em 17 dos 37 anos desde redemocratização.
Adotou uma política econômica dentro dos limites do receituário neoliberal exigido pelo capital nacional e imperialista, em alianças com setores empresariais e partidos do centrão e da direita. Enquanto aplicava medidas limitadas de combate à pobreza ou pequenos aumentos do salário mínimo, também retirava direitos, precarizava o trabalho e ampliava a carga tributária sobre trabalhadores e setores médios para conceder isenções fiscais aos bilionários. Aprofundou a dependência econômica, a reprimarização e a manutenção dos pilares estruturais da desigualdade social.
Tão ou mais nocivo do que as medidas do governo em si, foi o fato de os governos do PT também contribuírem para desorganizar a luta independente da classe trabalhadora, subordinando-a aos limites da ordem vigente.
PSOL: da oposição de esquerda ao lulismo
O PSOL surgiu em 2005 expressando a ruptura de um setor do funcionalismo público contra a reforma da Previdência do governo Lula. Naquele momento, colocou-se como oposição de esquerda ao governo e ao projeto neoliberal, embora sem um programa revolucionário e socialista.
Em 2022, o PSOL decidiu apoiar Lula já no primeiro turno, algo inédito até então. A direção do partido afirmava que isso não significava integração ao governo. No entanto, quando Sônia Guajajara assumiu como ministra e, mais tarde, Boulos passou a integrar o governo, tornou-se evidente a participação do PSOL na base governista.
O partido que nasceu criticando o lulismo passou a sustentar o governo petista de forma gradual. Não por acaso, setores da própria esquerda do PSOL passaram a denunciar que o partido estaria se tornando um “puxadinho do PT”.
Repete-se um processo já visto antes: um partido que critica os efeitos do sistema, mas sem romper com ele, acaba adaptando-se cada vez mais à ordem vigente. Ao compartilhar um programa de conciliação de classes e priorizar a ação institucional, o PSOL se tornou refém do próprio processo de institucionalização que alimentou, tendo em Boulos sua expressão mais evidente hoje.
Longe de “puxar o governo para a esquerda”, o PSOL dá um verniz de esquerda para os ataques do governo. Foi o papel de Boulos ao tentar desmobilizar a luta dos indígenas, chamando-os a confiar em um governo aliado da Cargill. A revogação da privatização dos rios não foi obra do PSOL, mas da força da luta que obrigou o governo a recuar. Não se pode “puxar para a esquerda” um governo capitalista de conciliação de classes, a não ser que este rompa com a burguesia.

Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, na abertura da Cúpula dos Povos, em Belém (PA) | Foto: Jerê Santos/MAM
A capitulação ao PT não ajuda a enfrentar o bolsonarismo
O crescimento da extrema direita no Brasil também se explica pela desmoralização e pela desorganização produzidas pelos anos de governos do PT. Ao governar dentro dos limites do sistema, o PT ajudou a manter as condições sociais que alimentam o bolsonarismo.
Defendemos a mais completa unidade de ação contra os ataques da extrema direita e do imperialismo. Estaremos na primeira fila contra qualquer tentativa de golpe ou ingerência imperialista no país. Mas mesmo nessas condições não se pode defender politicamente o PT pela simples razão de que isso não ajuda a disputar a consciência dos trabalhadores para o caminho da independência de classe e do socialismo, inclusive para combater a extrema direita.
O caminho adotado pelo PSOL significa, na prática, defender o governo Lula. Cada vez mais acoplado ao PT, o partido integra o campo político permanente do governo que ataca os trabalhadores, algo muito diferente de uma unidade de ação pontual contra o bolsonarismo ou o imperialismo.
Que programa?
A federação é um salto na submissão do PSOL ao PT
A proposta de federação deixa nítido o projeto defendido por Guilherme Boulos, Sônia Guajajara, Erika Hilton e a Revolução Solidária. Argumenta-se que a federação permitiria acumular forças, superar a cláusula de barreira e enfrentar o bolsonarismo. No entanto, de que adianta ampliar votos se isso significa se adaptar à ordem existente e abandonar os interesses dos trabalhadores?
Apoiar governos nos marcos do sistema e em aliança com o centrão não enfraquece a extrema direita. Ao contrário, preserva as condições do capitalismo que alimentam o bolsonarismo. A federação representa uma subordinação orgânica ainda maior ao PT: não se trata apenas de uma aliança eleitoral no primeiro turno, o que já é grave, sobretudo em uma frente de colaboração de classes, mas de uma integração estrutural, com programa comum, disciplina conjunta e atuação política unificada.
O objetivo dessa ala do PSOL é se cacifar para ser herdeira eleitoral de Lula e do PT. Para isso, precisa se integrar cada vez mais à máquina petista, reproduzindo seu modo de governar em aliança com os grandes capitalistas. Boulos aposta em tornar o PSOL cada vez mais semelhante ao PT. Caso não consiga, ele próprio pode migrar para o PT ou retomar esse projeto mais adiante, com um partido ainda mais adaptado. Não à toa já se especula o que fará se a federação for derrotada.
Duas questões para os que são contra a federação
Queremos abrir um dialogo fraternal com os companheiros que se opõem à federação.
Se for aprovada, coloca-se a questão sobre o que fariam os companheiros que a consideram liquidacionista e um abraço de urso do PT. Poderiam dizer que lutariam para revertê-la internamente, mas isso dificilmente ocorreria diante do crescente nível de adaptação do partido. Então ficaria a disjuntiva entre romper com o PSOL ou continuar nesta organização construindo um projeto que em nada se diferenciaria do projeto do PT.
Nesse cenário, colocamos à disposição a cessão democrática de legenda àqueles que optem por romper com o PSOL e se localizar na oposição de esquerda e de classe ao governo Lula, fortalecendo a luta contra a extrema direita.
No entanto, mesmo que a federação seja rejeitada, permanece o problema central que deu origem a essa proposta. O PSOL já se encontra integrado ao governo Lula e opera dentro dos mesmos marcos estratégicos do PT. A pressão para adaptação continuará existindo. Pode ser inclusive que a decisão não passe agora, mas seja jogada para a frente.
A questão de fundo não é apenas organizativa. É programática. Com um programa que aceita os limites do capitalismo, a ação institucional como prioritária em relação à mobilização e organização política da classe trabalhadora para lutar, com atuação integrada ao governo, o partido tende a se aproximar cada vez mais do petismo, seja por meio de federação, seja pela migração de seus principais quadros. Ou vai se tornando cada vez mais parecido com o PT que dizem querer superar.
Que projeto?
Por que o PSOL percorre este caminho?
A disputa interna que se abriu no PSOL com a federação é uma oportunidade para fomentar o debate sobre os rumos da esquerda e os limites do projeto do PT e do próprio PSOL. O caminho percorrido pelo PSOL deriva de seu projeto original de partido amplo de oposição ao neoliberalismo, mas dentro dos limites do sistema e do regime vigente, priorizando a ação institucional e eleitoral.
Embora se apresente como o partido dos radicais, seu programa nunca foi à raiz dos problemas do país nem da própria experiência que levou o PT a governar dentro da lógica burguesa, tampouco desenvolveu um parlamentarismo revolucionário capaz de impulsionar a organização independente da classe trabalhadora.
Esse projeto é um obstáculo para a construção de uma alternativa de esquerda que supere o PT. O problema não é apenas que o PT errou, mas que seu próprio projeto tende a favorecer os capitalistas e impor retrocessos aos trabalhadores. Superá-lo exige ir além dos limites de seu programa; enfrentar os bilionários e o sistema por meio da mobilização independente da classe trabalhadora e de suas organizações, com um programa socialista contra o regime, o governo do PT que o administra, a extrema direita e o imperialismo. O PSOL apenas recicla, com nova aparência, sem o mesmo enraizamento operário que deu origem ao PT, o antigo modelo petista: uma esquerda com programa capitalista.
A necessidade de uma alternativa revolucionária e socialista de verdade
Superar os limites do PT significa fazer oposição de esquerda ao governo e romper com o programa de conciliação de classes. Isso exige enfrentar os grandes capitalistas, os bancos e o agronegócio e defender um projeto que coloque os trabalhadores no poder para mudar o sistema. Sem independência de classe não é possível construir uma alternativa que supere o PT e enfrente de verdade a extrema direita e o imperialismo.
O PSTU defende essa perspectiva. Não é um partido eleitoral voltado à adaptação institucional. Somos uma organização com um programa de transição ao socialismo. Não somos um partido eleitoreiro que faz qualquer coisa para ter mais votos. Vamos disputar a eleição e buscar também ter o máximo de votos possível, mas sem que isso signifique abrir mão do programa. Aos que compartilham dessa visão, fazemos um chamado para construir essa alternativa socialista, operária e revolucionária.