PT, Paes e Washington Reis: a chapa que prova que o combate à ultradireita é só discurso
Cyro Garcia, pré-candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro pelo PSTU
A disputa pelo governo do Estado do Rio de Janeiro este ano escancara um dilema político na esquerda. Enquanto se fala em “frente ampla democrática” para barrar a ultradireita, o que se consolida, na prática, é a velha lógica de acordos por cima entre partidos tradicionais e setores ligados ao grande capital. A aliança de Eduardo Paes com Washington Reis, apoiada por Lula e pelo PT, é expressão concreta dessa política que se afasta dos interesses reais da classe trabalhadora e do povo pobre, ao mesmo tempo em que abre espaço para figuras conservadoras e inclusive ligadas ao bolsonarismo. Diante desse cenário, afirmamos a necessidade de uma alternativa verdadeiramente independente, classista e socialista, que não se submeta aos pactos com os poderosos e que coloque no centro da disputa as lutas e reivindicações dos trabalhadores, da juventude, dos povos indígenas e das periferias.
A aliança de Eduardo Paes é para atacar os trabalhadores
A aliança política costurada por Eduardo Paes para a disputa pelo governo do estado expõe com nitidez a natureza de uma composição que não tem nada a ver com o combate à ultradireita como defende o PT. A composição da chapa, agora formada com a indicação da advogada Jane Reis, irmã do dirigente do MDB fluminense, Washington Reis, revela a continuidade de uma política de alianças com figuras tradicionalmente ligadas aos centros de poder mais conservadores do estado, e até com parte da base do bolsonarismo, sob o manto de um suposto “amplo campo democrático”.
Washington Reis, figura central nessa trama, tem um histórico político que atravessa anos de influência na política fluminense. Ex-prefeito de Duque de Caxias e atualmente presidente estadual do MDB, Reis já ocupou cargos eletivos como deputado federal e, mesmo diante de controvérsias legais e situações de inelegibilidade, continua sendo um nome de peso na política local. Sua trajetória é marcada por articulações dentro do Centrão, alianças com forças mais conservadoras e forte inserção nos círculos tradicionais de poder do estado. O nome de Washington Reis chegou a ser ventilado pelo bolsonarismo estadual para disputar o governo do Rio antes desta aliança com Paes, e possui conversas com Flávio Bolsonaro sobre apoio à sua campanha, a ponto de ter declarado que sua base vai apoiar o senador na eleição presidencial, mesmo enquanto formalizava a aliança com a chapa de Paes.
O programa de Paes: segurança militarizada e inflexão à direita
Essa aproximação com setores conservadores vai ao encontro de um programa de governo de Paes que, ao longo dos últimos anos, tem sinalizado uma inflexão contínua à direita. No Rio de Janeiro, sob sua gestão como prefeito, Paes se engajou na agenda de segurança pública voltada para a militarização de políticas repressivas: incluiu projetos como o armamento da Guarda Municipal, que busca justificar uma presença policial fortemente armada nas ruas, uma medida que agrava a violência estatal contra nossa juventude, moradores de favelas e setores populares, especialmente o povo negro.
Além disso, a disposição de Paes em buscar inspiração em modelos autoritários de segurança pública, como as políticas do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, em que a lógica de “ordem” é imposta sobre direitos fundamentais, demonstra o tipo de projeto político que está sendo defendido. Bukele se tornou símbolo de uma direita dura, que sacrifica liberdades civis sob o pretexto de reduzir a violência, um tipo de postura que, se adotado aqui, aprofundaria a repressão sobre as nossas comunidades e legitimaria respostas autoritárias aos problemas sociais e econômicos. Exemplos como a chacina do Complexo da Penha, um verdadeiro genocídio racial praticado pelo também reacionário Claudio Castro, tendem a aumentar.
Paes ampliou também gestos públicos que lhe aproximaram de líderes religiosos fundamentalistas, como o pastor Silas Malafaia, cuja base de poder explora a fé do povo, para reforçar posições conservadoras e reacionárias, chegou a declarar apoio público a Malafaia durante culto religioso.
Lula, PT e a opção pelos acordos com o grande capital
No anúncio oficial da chapa, Paes deixou claro que a indicação de Jane Reis para vice-governadora em sua pré-candidatura ao Palácio Guanabara foi feita com o apoio do presidente Lula e do PT, num gesto que materializa um acordo entre forças políticas distantes dos interesses dos trabalhadores. Paes comunicou Lula pessoalmente da aliança com Washington Reis e da escolha de sua irmã como vice, e afirmou que o presidente apoiou integralmente essa decisão.
Esse gesto revela um aspecto essencial da nossa crítica: não é desta forma, costurando alianças deste tipo que se combate a ultradireita e se defende a classe trabalhadora. Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT, declarou apoio à chapa Paes-Reis e exaltou a “retomada de diálogo político”, endossando a ideia de que essa união seria positiva para o desenvolvimento do estado, uma visão que ignora a clara contradição entre os interesses sociais dos trabalhadores e a prática de alianças com elementos reacionários e conservadores.
Tudo isso ocorre num contexto em que o presidente Lula e o PT, ao invés de governarem colocando os trabalhadores e os setores populares no centro de sua política, têm repetidamente demonstrado vontade de fazer acordos com as forças do grande capital. No plano federal, vemos, por exemplo, medidas que abrem a economia a privatizações e transferências de riqueza para grandes conglomerados privados, como o decreto 12600, que colocava rios importantes do país para privatização ameaçando diretamente a vida e os territórios dos povos indígenas que resistem contra essa barbaridade. A ocupação no porto da Cargill virou o principal fato da luta de classes no país no último mês e obrigou o governo Lula a revogar o decreto esta semana. Essas decisões não são meros acidentes de percurso, são expressões da incapacidade, de um governo que se declara de esquerda, de romper com a lógica capitalista e colocar os interesses da maioria acima dos privilégios da minoria rica e poderosa.
Ao lado dos povos indígenas e dos trabalhadores em luta
Nós do PSTU, no entanto, estamos ao lado dos povos indígenas que ocupam a Cargill e resistem contra a privatização dos nossos recursos hídricos e a devastação do meio ambiente, uma luta contra a mercantilização da natureza e pela vida. Estamos junto dos trabalhadores que lutam contra a exploração e por reivindicações imediatas como o fim da escala 6×1, por melhores salários, por trabalho digno e direitos conquistados com luta. Não nos renderemos aos acordos fáceis com os poderosos que, na prática, só servem para reforçar o poder do capital sobre a vida dos trabalhadores.
É por tudo isso que lancei minha pré-candidatura ao governo do Estado do Rio de Janeiro. Ela expressa a necessidade de colocar as lutas imediatas e históricas dos trabalhadores e do povo pobre no centro do debate, construindo um governo que seja, de fato, nosso, sem os capitalistas e suas alianças conservadoras. Nesta tarefa, estarei ao lado do meu amigo Hertz Dias, pré-candidato a presidente pelo nosso partido, que estava junto aos povos indígenas na ocupação da Cargill. Convocamos todos e todas que querem expressar sua indignação com os velhos acordos políticos e construir uma alternativa de verdade a se somar nessa luta conosco.