Perdemos, na manhã deste sábado 2, um grande jornalista que traçou sua trajetória de vida na luta contra a ditadura militar, sempre combatendo o bom combate em defesa do povo mais explorado e oprimido. Foi uma das principais referências a gerações de jornalistas que se recusaram a assumir o papel de porta-vozes do capital da chamada "grande imprensa", e consagrar suas forças em defesa da classe trabalhadora.
Nascido no interior de Pernambuco, na cidade de Exu, Raimundo começou sua carreira ainda muito jovem na revista Realidade, e posteriormente no jornal O Estado de S. Paulo, passando ainda pela fundação da revista Veja (bem antes de se transformar no folhetim da direita que é hoje). Teve a coragem, neste período, de estampar a palavra "tortura" na capa da revista em pleno governo Médici. Estudante do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), foi expulso e preso pelo DOPS, onde permaneceu dois meses no cárcere.

Foi, porém, nos anos 1970, que Raimundo se destacou em seu trabalho no jornal Opinião, marcando o que viria a ser conhecido como “imprensa alternativa”. Após romper com o dono da publicação, o empresário Fernando Gasparian ("não se pode mesmo confiar na burguesia brasileira, dizia ironicamente"), fundou, em 1975, o jornal Movimento. A publicação foi uma das principais vozes contra as arbitrariedades da ditadura militar. Expressou, ainda, o processo de lutas que ascendia no ABC paulista, com as históricas greves operárias fundamentais para a derrocada do regime de terror e autoritarismo.
Mais do que uma linha editorial em defesa das liberdades democráticas, Movimento foi uma tentativa de se criar um jornal "sem patrões", dirigido pelos próprios jornalistas de sua redação. Grande parte deles militantes clandestinos de diversas organizações, que disputavam e definiam, em assembleia, a linha das edições.

Enfrentou censura e perseguição pelo regime militar, mas, de forma heroica, sobreviveu entre 1975 e 1981. Acabou vítima dos mesmos ataques terroristas da extrema direita que atingiram o Versus (ameaças, atentados a bombas em bancas de jornais, perseguições burocráticas), publicação antecessora do Jornal da Convergência Socialista, corrente que daria origem ao PSTU.
Passaram por Movimento jornalistas e intelectuais de renome que, hoje, infelizmente viraram caixa de ressonância do poder e do status quo. Ao contrário de Raimundo que, por vezes politicamente equivocado, manteve-se coerente até o final da vida.
A importância de assumir um lado
Numa palestra na faculdade de jornalismo em que este redator cursava, Raimundo ensinou o papel de um profissional da comunicação numa sociedade cindida por classes. "Se você vai cobrir a repressão da polícia militar numa ocupação do MST, tem que se decidir de que lado vai estar para relatar os fatos: do lado da polícia ou do lado do MST; o bom jornalista precisa se decidir sobre, a partir de qual ponto de vista, vai informar seus leitores", disse.
Com a queda da ditadura, se lançou a projetos que visavam interpretar o país e a realidade, destoando da superficialidade que tomou conta das publicações da grande imprensa, com reportagens marcadas pelo rigor da apuração e aprofundadas. Esse foi o espírito de Retratos do Brasil nos anos 1980, e, mais recentemente, a revista Reportagem (pela editora Manifesto). Esta última foi uma tentativa de se manter a independência política do período da imprensa alternativa, com a manutenção financeira garantida por um sistema de "cotas" dos próprios leitores.
Homem simples, sempre interessado e questionador, Raimundo dizia que sua atividade favorita era caminhar pelas ruas, conversar com o povo e sentir, na pele, a realidade do país e da população. Um quadro que "fonte" nenhuma no alto escalão do poder seria capaz de relatar.
Recebeu, em 2013, o prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Deixa um legado e uma trajetória saudada e homenageada pelo PSTU e a redação do Opinião Socialista.