Red pill: o ódio às mulheres organizado na internet
Joana Salay e Mandi Coelho, de São Paulo (SP)
Em meio à epidemia de feminicídios no Brasil, ganha força a disseminação de uma cultura misógina organizada nas redes sociais, expressa no movimento red pill (pílula vermelha, em inglês). O que antes circulava em espaços marginais hoje alcança milhões de jovens, influenciando comportamentos, relações e oferecendo base ideológica para a violência contra as mulheres.
O que está por trás da cultura red pill
No universo red pill, influenciadores prometem um suposto despertar, revelando a verdade sobre as relações. A narrativa sustenta que as mulheres seriam manipuladoras por essência e interpretam as transformações nas relações de gênero, especialmente a maior autonomia feminina, como ameaça à posição masculina. A partir disso, constrói-se uma visão baseada no controle, no desprezo e na desigualdade.
Termos como alfa, beta e valor de mercado organizam relações a partir de hierarquias de poder. Afeto, convivência e sexualidade passam a ser tratados como disputa e dominação. Comunidades como fóruns no Reddit, grupos incels e MGTOW (Men Going Their Own Way, ou “homens seguindo seu próprio caminho”) estruturam esse ambiente, que surgiu dos chans da deep web e se expandiu para plataformas como YouTube, Telegram, Discord, TikTok e Instagram.
A difusão dessas ideias cumpre um papel político direto, articulando-se com projetos reacionários que atacam direitos e reforçam valores conservadores, funcionando como canal de radicalização, em especial entre jovens.
O conteúdo de ódio se espalha
O discurso red pill começa com um conteúdo sobre autoestima ou frustrações pessoais. Aos poucos, porém, transforma-se numa defesa aberta de que problemas sociais são culpa das mulheres, e o ressentimento passa a ser dirigido contra elas. Circulam conteúdos que defendem manipulação, naturalizam a violência e ridicularizam vítimas. Influenciadores ensinam a controlar mulheres.
No Brasil, viralizaram recentemente vídeos em que homens simulam agredir mulheres num cenário hipotético em que fossem rejeitados, acumulando milhões de visualizações. Aparecem como conselho, humor ou trend, mas é, na prática, a difusão sistemática de uma ideologia de ódio.
Ao mesmo tempo, essa dinâmica se converte em um negócio altamente lucrativo. Quanto mais polêmico e agressivo o conteúdo, maior o engajamento. Influenciadores acumulam milhões de seguidores e monetizam esse material por meio de publicidade, cursos e doações, enquanto as plataformas impulsionam justamente o que gera mais alcance, mesmo quando baseado em discurso de ódio. A misoginia se transforma em uma verdadeira indústria.
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DAS TELAS À REALIDADE
Quando o ódio virtual vira violência real
Essa dinâmica não fica restrita às redes. No Rio de Janeiro, o estupro coletivo de uma adolescente reacendeu o debate sobre a influência dessas comunidades. Em São Paulo, estudantes criaram uma “lista de meninas estupráveis”. No mesmo estado, um tenente-coronel da Policia Militar, acusado de assassinar a companheira, trocava mensagens com termos como “macho alfa provedor” e “fêmea beta, obediente e submissa”.
Esses casos evidenciam como essa ideologia circula para além da internet e contribui para naturalizar a violência contra as mulheres. A violência deixa de parecer absurda e passa a ser justificável.
SAÍDA
Combater a misoginia é tarefa da classe trabalhadora
Diante desse cenário, é urgente enfrentar o movimento red pill, responsabilizar plataformas, combater redes de ódio e fortalecer políticas de proteção às mulheres. Também é preciso disputar a consciência dos jovens, hoje alvo direto desse tipo de conteúdo.
As grandes plataformas sabem o que viraliza e dá engajamento e não fazem nada a respeito porque preferem se manter lucrando com a disseminação do ódio às mulheres. É preciso enfrentar as big techs, atacando seus lucros e construindo um espaço on-line público, gratuito e sob controle dos trabalhadores.
O problema, porém, é mais profundo. Enquanto persistirem as condições que alimentam a desigualdade e a opressão, ideologias como essas seguirão encontrando terreno fértil. Enfrentar o machismo, inclusive dentro da própria classe trabalhadora, é parte central dessa luta.
Sindicatos, centrais e movimentos sociais precisam incorporar esse enfrentamento de forma permanente, articulando a luta contra a violência com a disputa ideológica e o fortalecimento da organização coletiva das mulheres e de seus direitos democráticos.
Ao mesmo tempo, é preciso compreender que a superação da desigualdade e da violência contra as mulheres está ligada à transformação das condições materiais que as sustentam. Isso coloca a necessidade de lutar por uma sociedade sem exploração e sem opressões, construída por meio da mobilização consciente e organizada da classe trabalhadora.