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Sepultura encerra a carreira celebrando o metal, a arte e a vida

Diego Cruz

11 de fevereiro de 2024
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Há duas coisas bem prováveis de você topar numa eventual viagem a qualquer canto recôndito do planeta: uma camisa 10 da seleção canarinho com o nome de Pelé, e algum jovem, ou não tão jovem assim, com a camiseta da banda brasileira de heavy metal Sepultura. 

Se você não é familiarizado com o estilo, pode estar achando exagero. Mas acredite, não é. Ao lado da bossa nova e de Garota de Ipanema, o peso da banda mineira talvez tenha sido o som produzido no Brasil que mais viajou ao redor do mundo. Mais do que isso, arrebanhando uma legião de fãs das mais diversas culturas e regiões. Quem mais reuniria 40 mil pessoas num estádio da Indonésia, ou 60 mil fãs alucinados em Cuba?

O melancólico anúncio do encerramento das atividades do Sepultura, realizado durante coletiva de imprensa em dezembro passado por todos os seus atuais integrantes após 40 anos de estrada, não deixa de ser (mais) uma péssima notícia à legião de fãs do grupo ao redor do planeta. Mas está servindo também para jogar luz na importância de uma banda que não só levou o metal brasileiro mundo afora, mas que influenciou diretamente estilos dos mais variados. Do black metal norueguês (para o bem ou para o mal) ao chamado “nu metal” norte-americano que se alastrou nos anos 2000 (também para o bem ou para o mal, dependendo do gosto).

Fato é que o Sepultura inscreveu seu nome na história do metal mundial, conquistou um séquito de fãs e a admiração de gente como o ex-baterista do Nirvana, Dave Grohl, ou mesmo do eterno vocalista do Black Sabbath, Ozzy. Inspirou inúmeras bandas no Brasil e fora, e até hoje, numa cena parasitada pela esdrúxula figura do “roqueiro reaça”, suas músicas com temas sobre violência e massacre policial, ditadura, opressão e meio ambiente frequentam as vitrolas até daquele seu tio que se diz liberal na economia e conservador nos costumes.

De Minas Gerais para o mundo

O começo do Sepultura tem tudo a ver com a época que o Brasil vivia naquele início da década de 1980. A distensão política dos estertores da ditadura permitia uma certa lufada de ar fresco a uma juventude que já nascera no arbítrio. Ao mesmo tempo, a repressão e o conservadorismo persistiam em muitos setores, como no cotidiano violento da Polícia Militar, que continua até hoje, inclusive. Mas para uma nova geração um horizonte se abria, de expressão de uma revolta e indignação latente reprimida por anos, e que de repente podia ter vazão sob as mais variadas formas.

Em São Paulo e na região do ABC já havia uma cena punk acontecendo.  Ao mesmo tempo, o país se abria aos grandes shows internacionais. Num deles, de ninguém menos que o Queen, em 1981, estavam na plateia dois irmãos pré-adolescentes: Massimiliano Antônio Cavalera, e Igor Graziano Cavalera. Ambos filhos de um funcionário da Embaixada italiana, e típicos garotos de classe média, moradores do bairro de Higienópolis. Essa ascendência italiana, inclusive, influenciou não só a paixão dos dois pelo Palmeiras, como determinaria o futuro musical de Igor, que começou ainda criança batucando na torcida do Palestra durante os jogos.

O impacto da banda de Fred Mercury é instantâneo e devastador. Mesmo sem saber tocar qualquer instrumento, a dupla Igor e Max já sabia que queria ter uma banda de rock. Mas, uma dentre tantas tragédias que acompanhariam os dois, muda o rumo de suas vidas de forma repentina: a pouco tempo de se mudarem para a Itália, o pai dos irmãos sofre um infarto fulminante e morre. Com dificuldades financeiras, a família é obrigada a se mudar para Belo Horizonte onde a matriarca Vânia Cavalera (que teria papel fundamental na futura carreira dos garotos) tinha família.

Na capital mineira, os irmãos Cavalera buscam os integrantes para a sua banda e montam o que viria a ser o Sepultura (de início seria chamada de Tropa de Choque, mas já havia uma banda com esse nome). O nome veio de uma música do Motorhead, “Dancing on your grave”. Aliás, a tradução ao português de músicas de bandas que bombavam na época, como o Iron Maiden, Judas Priest, AC/DC ou até o Van Halen foi a forma que tiveram de aprender rudimentos do inglês que escreveriam suas futuras músicas.

E foi assim que, no auge de seus 13 e 14 anos, tem início a primeira formação do Sepultura, com os irmãos Cavalera, o baixista que ainda não sabia tocar baixo (e dizem as más línguas que até hoje não aprendeu), Paulo Jr., e o então vocalista Wagner Lamounier, logo adotando a alcunha de Wagner “Antichrist”. Wagner teria uma passagem rápida pelo grupo, saindo para formar o não menos icônico Sarcófago, uma banda de vida efêmera mas que é até hoje cultuada, inclusive lá fora, muitos creditando a eles a criação dos “blast beast”, ou por aqui a “metranca”, estilo de baquetadas rápidas e violentas que seriam a marca do death metal. Hipótese controversa, verdade, mas não tira o mérito do pioneirismo dos meninos.

Max, Wagner e Igor no começo do Sepultura

A saída de Wagner abre espaço para Max assumir o vocal, e para a vinda de um segundo guitarrista, Jairo Guedez, um músico mais experiente que, a princípio, fica chocado com o amadorismo da banda. Mas, ao mesmo tempo, é cativado pelo “sangue nos olhos” dos garotos e a vontade de fazer acontecer. Jairo teve também uma rápida passagem pela banda, gravando o EP Bestial Devastation e o álbum Morbid Visions pelo selo Cogumelo Records entre 1985 e 1986 (a Cogumelo era uma loja de BH que resolveu virar uma gravadora para atender aquela efervescente cena metal mineira).  

O estilo adotado pelo Sepultura naquele período refletiria bandas mais extremas do metal, como Venom, Kreator ou Exodus, e que expressaria de forma mais plena toda a raiva e energia adolescente em ponto de ebulição. Aliás, em Belo Horizonte se criava um verdadeiro celeiro de bandas de metal, um fenômeno discutido pelo excelente documentário “Ruído das Minas”, que você pode assistir aqui:

  

Há diversas obras para quem quiser se aprofundar nos meandros da história do Sepultura e da música pesada no Brasil, como o livro Relentless, mas entender essa gênese do grupo é fundamental para se ter uma ideia da conformação da banda que ganharia o mundo nos anos seguintes e a sua influência.

Dito isso, o importante aqui é marcar a saída de Jairo da guitarra do Sepultura e a entrada do novo integrante que também seria fundamental para a carreira da banda. Jairo Guedez se vê obrigado a largar a música para trabalhar e sustentar a família (lembremos que, até aqui, estamos falando de um bando de adolescentes que mal sabiam tocar seus instrumentos e que compensavam isso com uma energia que realmente impactava os headbangers, já tornando os meninos meio famosos na cena). Atualmente, inclusive, Jairo está em plena atividade e toca na excelente banda Troops of Doom.

Quem viria a ocupar o lugar de Jairo seria ninguém menos que Andreas Kisser, um talentoso guitarrista do ABC paulista que, numa família muito musical, começou tocando violão clássico e que iria ser responsável por elevar o nível técnico e profissionalismo da banda. Com ele gravam Schizophrenia em 1987, ainda pela Cogumelo. O disco começa a mesclar elementos do trash metal ao death um tanto tosco que a banda já vinha tocando. Essa evolução faz com que a banda ganhe uma projeção internacional que, num período sem Internet, e ainda se falando de um estilo fora do mainstream, se resumia a troca de cartas, matérias em fanzines e envios de fitas cassetes. Cópias piratas de Schizophrenia rodam por toda a Europa e já consolidam uma restrita mas fiel base de fãs antes mesmo da entrada de uma gravadora em cena, o que não demoraria para acontecer. 

A repercussão é tanta que atrai a atenção da gravadora norte-americana Roadrunner, que assina com a banda e lança, em 1989, o disco Benneath The Remains. Este, já mais calcado no trash, catapulta a carreira internacional do Sepultura, que sai em turnês com nomes já consagrados no cenário, como o Sodom. E, em 1991, já estabelecidos nos EUA, lançam Arise, que elevaria ainda mais o nome do grupo. No mesmo ano, tocam para um público de 100 mil pessoas na segunda versão do Rock in Rio.

Mas foi mesmo com o disco Chaos A.D. que o Sepultura se tornou um verdadeiro fenômeno mundial. Já tinha havido, então, uma transição entre o black/death e as suas temáticas clichês “satânicas” para um trash que inseria temas sociais, mas com Chaos isso deu um salto. Neste disco, do trash, o Sepultura iniciou sua transição para o que viria ser chamado de “groove” metal, com um ritmo mais lento, cadenciado, mas não menos pesado. Desse álbum vieram sucessos como “Territory” (lembrado hoje por muitos por conta do massacre na Palestina), a contestatória “Refuse/Resist” ou “Kaiowas”, que prenunciava a influência indígena que viria a seguir. 

O disco traz ainda a faixa Manifest, que denuncia o massacre no Carandiru e que, estranhamente, é “esquecido” hoje em dia por muita gente, além de uma versão um tanto mais violenta de “Polícia”, dos Titãs.

Roots, um marco controverso

Em 1996, o Sepultura já figurava entre os grandes nomes do metal mundial. Neste ano, lançam Roots, um álbum que aprofunda o “groove”, traz elementos de músicas brasileiras e que contou com faixas gravadas com a tribo Xavantes, dando um verdadeiro nó na cabeça dos mais tradicionalistsa headbangers. Além da participação não menos controversa de Carlinhos Brown.

Se o disco fez muitos fãs antigos torcerem o nariz, já que, embora o Sepultura nunca se fiasse numa mesma fórmula disco após disco, o que aparecia agora era simplesmente diferente de tudo o que tinham visto. Muitos diriam que era “batucada” para gringo ver. Outros, que tinha um evidente apelo comercial e que “traía” o movimento. Bom, fica a critério de cada um escolher a sua versão. Fato é que Roots foi um divisor de águas na história do metal mundial. Se hoje não é incomum essa mistura de um som “moderno” e cosmopolita com influências históricas e regionais (ou “étnicas), na época isso era simplesmente impensável.  

A produção ficou a cargo de Ross Robinson, que seria visto posteriormente como o nome por trás do fenômeno do “nu metal”. E é interessante notar que Roots foi gravado quase que simultaneamente ao clássico Holy Land, do Angra, então com o saudoso André Matos. Embora num estilo completamente diferente, o power metal (aqui no Brasil popularizado como “metal melódico”), também radicalizava essa mescla entre metal e música tradicional brasileira.

Além da sonoridade que influenciaria outros estilos, Roots traz letras contra as injustiças sociais, a destruição da Amazônia e do meio ambiente pela ganância do capital, e, inclusive, uma música que denuncia diretamente o assassinato de Chico Mendes, “Ambush” (Emboscada).  Confira abaixo (Na versão de estúdio se reproduzem os sons dos disparos que executam o ativista).

Em Roots, há ainda “Dictatorshit”, que denuncia a ditadura militar brasileira e que chegou a ser reproduzida por fãs  nas redes sociais durante o governo Bolsonaro. No meio da canção, Max berra “Tortura nunca mais”.

Apesar do rechaço dos fãs mais tradicionalistas, Roots vendeu 2 milhões de cópias pelo mundo e colocou o Sepultura em outro patamar. As denúncias sobre desigualdade social, repressão e opressão realizadas sob uma ótica tipicamente brasileira, ainda que num estilo como o metal e cantadas em inglês, encontravam profundo eco entre fãs e, sobretudo, jovens ao redor do mundo, das mais diversas culturas e continentes, principalmente na periferia do capitalismo.

Para muitos, o Sepultura caminhava para o topo do metal, desbancando o chamado “Big Four” do trash composto pelo Slayer, Anthrax, Megadeth e o Metallica. Mas a ruidosa ruptura que viria a seguir abortou essa possibilidade. E que, afinal de contas, apesar de uma discussão que dura décadas, nunca pareceu verossímil. A tendência de crescimento avassaladora poderia ter colocado o Sepultura num nível parecido ao do Slayer? Poderia. Mas a comparação com o Metallica parece infundada, já que a banda de James Hetfield precisou quase se descaracterizar para ganhar o grande público, amenizando ao máximo seu estilo para entrar nas rádios e no gosto médio. Algo que seria muito mais difícil, para não dizer impossível, em se tratando de Sepultura. Mas fato é que a banda dos irmãos Cavalera ganhava o mundo quando a traumática ruptura ocorreu.

Uma nova era

Quase trinta anos se passaram desde a saída de Max Cavalera do Sepultura, e o tema ainda é predominante nos fóruns e comentários das redes sociais. Recentemente, o próprio exibiu num show um cartaz escrito “No Cavallera, no Sepultura”, demonstrando que maturidade não tem necessariamente a ver com idade.

Os detalhes da ruptura de Max com os antigos membros em 1996 ainda são nebulosos, mas a versão oficial dá conta de que o então vocalista, por ser casado com a empresária da banda, seria privilegiado em detrimento dos outros componentes. Uma versão que não deixa de ser um tanto machista, como a que “culpa” Yoko Ono pela saída de Lennon dos Beatles. Fato é que a disputa por protagonismo e grana botaram Max para fora do grupo e abortou precocemente a maior banda de metal que já existiu por aqui.

A notícia foi um enorme choque na época, e quase deu fim ao Sepultura. A então gravadora, Roadrunner, e a empresária de Max, Glória Cavalera, tinham a caracterização de que Max poderia muito bem deslanchar numa carreira solo e prescindir dos demais membros da banda. Tanto que a gravadora deu toda a estrutura para Max formar sua nova banda, o Soulfly, enquanto colocava os remanescentes do Sepultura na geladeira.

Andreas, Paulo e Igor, porém, após uma breve reflexão, resolvem continuar como um trio, com Kisser nos vocais. Contudo, tocar num nível como Andreas toca e ainda cantar se mostrou logo um desafio impossível. E foi daí que partiram para a busca de um novo vocalista. 

A era Derrick Green

O nome escolhido para substituir Max nos vocais, após alguns testes, foi o do norte-americano Derrick Green. Nascido em Ohio, Derrick já havia cantado em algumas bandas de hardcore, que chegaram a ter expressão regional, como o Outface, além de fazer bicos de segurança em casas noturnas. O Sepultura sempre teve um pé no punk e hardcore, apesar das tretas entre punks e metaleiros nos anos 80, mas o estilo de Derrick em nada lembrava o de Max, e era exatamente isso que a banda buscava. Tanto que, como revelou recentemente Kisser, chegaram até a cogitar mudar de nome, mas, após alguns shows-teste, concluíram que a energia dos fãs e a ideia que movia a banda continuavam os mesmos.

A separação rachou a base de fãs do Sepultura numa picuinha ridícula que se estende há incríveis três décadas. De um lado os que ficaram fieis à banda Sepultura, e de outro os que viam em Max a verdadeira alma do grupo, muitos chamando os remanescentes de “covers” de si mesmos. 

É uma discussão sem nexo, mas que não deixa de ter um certo sentido. Max Cavalera contava então com o vocal mais característico do metal, além de ser uma verdadeira fábrica de riffs, compensando sua inabilidade técnica com uma criatividade espantosa. Então, é até natural que haja esse tipo de discussão e competição. Por outro lado, também é inegável que o Sepultura sem Max conseguiu manter sua força, produzindo num nível altíssimo e, mais que tudo, conservando uma característica que sempre foi a marca da banda: a coragem em experimentar e ir sempre além.

Isso se mostrou logo no disco Against, de 1998, o primeiro com Derrick à frente dos vocais. Em sentido contrário ao Roots, Against flerta com o hardcore em canções rápidas, sem perder o peso, com elementos das vertentes mais modernas do metal, como o industrial e até mesmo o tão excredo nu metal, mas nunca parecendo forçado. Enquanto que, o disco de estreia do Soulfly, embora não fosse ruim, longe disso, soava como uma espécie de continuidade do Roots.

E aqui é importante ressaltar um outro aspecto. O Sepultura escolheu um vocalista negro para estar à frente da banda, numa cena em que, lamentavelmente, o racismo é bastante presente. Com isso, a banda enfrentou os racistas headbangers que torceram o nariz para a novidade, e também a própria gravadora, que foi contra a escolha do cantor com a justificativa de que soava bastante diferente de Max. O Sepultura encarou ambos, bancou Derrick e seguiu em frente.

Nessa nova fase, o revigorado Sepultura trilhou um verdadeiro caminho das pedras. Além do boicote explícito da Roadrunner, a passagem dos anos 2000 marcava também uma profunda crise das gravadoras com a proliferação da pirataria, e a difusão dos programas de compartilhamento de músicas como o Napster. Porém, com um nome já consolidado e uma sucessão de trabalhos que redundaram em discos sempre bem recebidos, mantiveram-se firmes atravessando os modismos de ocasião e conservando uma boa parte dos fãs, e conquistando novas gerações.

Nem mesmo a saída do último fundador da banda, Igor Cavalera, em 2006, 10 anos após a traumática saída do irmão, foi capaz de encerrar a carreira do Sepultura. Igor acabou se reconciliando com o irmão e hoje tem o projeto Cavalera Conspiracy com Max, além de excursionar em turnês temáticas com álbuns icônicos do Sepultura, como o Roots. Também dedica boa parte do tempo à paixão pela música eletrônica que desenvolveu ainda em sua antiga banda.

O Sepultura, por outro lado, sempre teve a sorte de contar com ótimos bateristas. Primeiro, Jean Dolabella, que chegou a tocar os álbuns A-LEX e Kairos. Nessa fase, o Sepultura vivia altos e baixos. Tentando se manter em meio à incerteza do mercado fonográfico, enfrentava o estigma da sombra de Max e o desafio de se firmar com um estilo próprio. Algo que, se você renunciar a qualquer comparação e nostalgia do passado, cumpriram muito bem.

Dolabella, porém, não se adaptou à rotina de extensas turnês mundo afora da banda e, após 5 anos na equipe, resolveu sair em 2011. O que poderia ser um baque a mais na trajetória do Sepultura, no entanto, acabou sendo o que injetou uma nova força de ânimo e impulsionar a carreira da banda. Isso porque logo em seguida arregimentaram o prodígio Eloy Casagrande, um jovem baterista que já havia tocado com André Matos e integrava então a banda Glória.

Com apenas 20 anos de idade, Eloy impressionou os integrantes da banda e bastou uma audição para que fosse definitivamente acolhido pelo grupo, em 2013. Extremamente técnico, preciso e criativo, Eloy tem uma batida forte que combina perfeitamente com o estilo do Sepultura. Batida forte é um eufemismo, ele espanca sem dó a bateria nos shows com vontade e violência que deixa a todos boquiabertos.

Essa mais recente formação, a mais sólida talvez de toda a carreira, é responsável pelos discos The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart, de 2013; Machine Messiah de 2017, e finalmente, Quadra, de 2020, este um dos mais bem sucedidos discos da carreira do grupo, não só na era Derrick, mas desde a sua fundação. Estes dois últimos discos, principalmente, inserem elementos que muitos definem como “progressivo”, marcando a tendência do grupo em sempre inovar. A faixa do disco, Guardians os Earth reforça a preocupação com o tema ambiental e indígena.

A eterna rivalidade entre o atual Sepultura e os irmãos Cavalera, sobretudo Max, vai continuar para sempre, não se iluda. E é importante, apesar de algumas falas imbecis de Max nesse período, reconhecer seu talento e seu amor incondicional ao metal. Nessas três décadas pós-Sepultura ele fez muitas coisas boas e inspiradas, outras nem tanto, mas sempre se mantendo coerente. O Sepultura, por outro lado, embora hoje não conte com nenhum integrante fundador, levou adiante o espírito da banda, que há muito transcendeu de seus criadores e plasmou-se numa verdadeira “sepulnation”.

Como diz o jornalista norte-americano Jason Korolenko, autor de uma biografia nos 30 anos da banda, o Sepultura só poderia ter nascido no Brasil. Tanto pela capacidade de absorver estilos estrangeiros, como o metal, como para interpretá-lo sob a influência de uma musicalidade tão rica quanto a brasileira (e é só pensar como o samba ou o maracatu se refletem nas batidas de Igor). E para expressar temas e problemas títpicos do “terceiro mundo”, o que gera identificação imediata com jovens de todo o mundo.

Celebrando, no fim, a trajetória

No dia 8 de dezembro, os integrantes do Sepultura convocaram uma coletiva de imprensa para anunciar o encerramento de suas atividades, e uma turnê de despedida durante 2024, chamada “Celebrating Live Through Death” (Celebrando a vida através da morte). A ideia seria terminar oficialmente a banda no auge, sem enfrentar o inexorável processo de decadência, inclusive física, que vemos muito por aí.

Fica evidente, inclusive pelo próprio nome da turnê, que contribuiu para essa decisão a morte precoce da esposa de Andreas Kisser, Patrícia Kisser, em julho de 2022, vítima de câncer. Após o episódio, Andreas fundou o movimento “Mãetrícia”, a fim de promover a conscientização sobre o direito a uma morte digna e popularizar os cuidados paliativos. Trata-se de desmistificar o fim, preparando esse momento a fim de se evitar, ou lidar da melhor forma possível, com a dor. 

O momento, então, torna-se mais do que uma despedida, mas uma celebração da maior banda de metal do Brasil, que marcou gerações. E uma celebração da música, da arte, e por que não, da própria vida?

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