Sete anos depois de Brumadinho, Minas Gerais volta a viver com medo
Nos últimos dias, moradores de Congonhas (MG), trabalhadores das minas e as comunidades sentiram na pele mais uma vez o terror das mineradoras. Três vazamentos em menos de uma semana foram confirmados em minas da região – incluindo áreas controladas pela Vale e outras grandes empresas como a CSN. O que se viu foi a mesma sujeira descendo, água poluída chegando aos rios (córrego do Goiabeira e Rio Maranhão) e a sensação de que nada mudou de verdade.
Esses vazamentos acontecem justamente quando se completam sete anos do rompimento da barragem de Brumadinho, que, em 25 de janeiro de 2019, matou 270 pessoas, destruiu famílias e deixou um rastro de sofrimento que ninguém esquece. Para quem vive próximo à mineração, cada novo episódio de vazamento é um lembrete doloroso de que os riscos ainda estão presentes.
Mineração predatória
Não dá para separar o cenário recente do que já vivemos. Os vazamentos em Congonhas mostram que o problema não foi apenas um grande desastre isolado no passado. A mineração realizada por grandes empresas privadas segue acontecendo sem a segurança e o cuidado que as pessoas e o meio ambiente merecem. As comunidades afetadas, como a antiga Plataforma e o bairro dos Motas, já sofreram e ainda sofrem com o ataque da mineração com desapropriações forçadas, poluição dos rios já destruídos pela contaminação constante.
Quem trabalha nas minas sabe: há pressão por produção, falta de transparência e pouca participação dos trabalhadores nas decisões que afetam sua segurança. Além disso, durante e depois da pandemia a mineração teve uma política ofensiva para reduzir custos de produção, o que refletiu em demissões e aumento relativo e absoluto da jornada de trabalho e, em consequência, menos investimento em segurança das estruturas e dos trabalhadores. Hoje, um trabalhador da Vale, por exemplo, tem que fazer o trabalho de três ou cinco trabalhadores. Se tem que garantir a produção, como cuidar das estruturas para evitar rompimentos?
Para quem mora nas cidades e distritos próximos, resta a preocupação constante com a água, o solo e a saúde das famílias. A notícia de mais um vazamento não é apenas mais uma manchete, é um medo real, que reverbera nas casas, nas escolas e nas rodas de conversa.
É preciso dizer com firmeza: a Vale e as mineradoras não conseguem operar sem destruir. Não é falta de tecnologia ou de dinheiro. É escolha. Escolha de economizar na segurança. De priorizar o lucro. De considerar vidas e rios como custos descartáveis. Os vazamentos recentes, três em poucos dias, são a prova viva de que esse modelo está quebrado.
Responsabilidade dos governos
Por outro lado, ficam evidentes as consequências do desmonte dos órgãos de fiscalização, promovido pelo governo Zema. Ele permite que as mineradoras possam fazer tudo sem regras a cumprir. Após os desastres, aplica multas que não são pagas. Essas regras também são seguidas e incentivadas pelo governo Lula ao promover cortes orçamentários em toda área ambiental. Agora, com a aprovação pelo Congresso do PL da Devastação, a situação tende a se complicar ainda mais.
Outro aspecto é a impunidade dos executivos das mineradoras. Após sete anos, nem um dos executivos do alto escalão da Vale foi punido. Acordos financeiros são feitos para comprar políticos e seu silêncio e cumplicidade. O modelo exploratório e destruidor continua. O ciclo de destruição se renova, e novos desastres e crimes prosseguem. Quem vê Congonhas pelo alto enxerga cenas apocalípticas de destruição da natureza, barragens imensas, rios barrentos da cor dos rejeitos, sem vida, sem peixes.
Sete anos depois de Brumadinho, não queremos mais promessas vazias, nem desculpas de velhacos executivos e acionistas, nem multas que não mudam nada. Queremos mudanças reais.
Se os vazamentos continuam a acontecer, mesmo depois de uma tragédia tão grande como Brumadinho, é porque o problema está no modelo, não em algumas empresas isoladas.
Outro jeito de minerar é possível, mas isso só virá quando as comunidades e os trabalhadores tiverem voz e controle sobre seus próprios recursos.
Exigimos:
– A estatização da Vale e de toda a mineração, para tirar das mãos privadas os recursos que pertencem ao povo.
– Controle dos trabalhadores e das comunidades atingidas sobre as decisões que impactam suas vidas;
– Fundo de reparação diretamente gerido por quem sofreu com os desastres e vazamentos, e não por empresas envolvidas nos próprios crimes;
– Reformas profundas na fiscalização e na segurança para que não sejamos reféns de mais vazamentos, poluição e mortes.