Cultura

“Sete anos no Tibet” e os limites da religião

PSTU-PA

20 de outubro de 2023
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O filme mostra a história do alpinista Heinrich Harrer, cuja tentativa de escalar o pico do Himalaia é interrompida pela Segunda Guerra | Foto: Divulgação

Otávio Aranha, de Castanhal (PA)

Há 27 anos, “Sete anos no Tibet” (“Seven Years in Tibet”) estrelou nas telas do cinema, dirigido pelo talentoso Jean-Jacques Annaud, conhecido por seus trabalhos em “A Guerra do Fogo” e “O Nome da Rosa”. Estrelado por Brad Pitt, que encarna o alpinista Heinrich Harrer, cujo livro autobiográfico de mesmo título embasa a adaptação cinematográfica, relata sua jornada nas montanhas do Himalaia até a convivência com a criança que seria conhecida como Dalai-lama, a reencarnação viva de Avalokiteśvara, espécie de deus da compaixão na cultura do longínquo e remoto Tibet.

Recentemente, fui convidado a rever esta obra-prima da sétima arte e, a partir dela, tecerei algumas reflexões sobre a questão religiosa presente em nossa contemporaneidade.

Na década de 1930, o austríaco Heinrich Harrer se tornou um ídolo em seu país e no mundo por escalar montanhas, esporte ainda pouco conhecido no Brasil. Ao seguir para o Himalaia tentar vencer o “Nanga Parbat”, um dos picos mais altos e desafiadores do mundo, deixou para trás uma esposa grávida e um relacionamento em crise, tema não muito bem explorado no filme, a não ser para redimir Heinrich ao final de sua jornada.

Por se tratar de uma autobiografia, o filme tem na pessoa de Heinrich um narrador não-confiável, ou seja, é a sua perspectiva dos fatos que o espectador tem acesso. Ainda assim, podemos observar as contradições do austríaco, um egocêntrico e arrogante montanhista, além de nazista, em busca de glória pessoal.

Com a eclosão da Segunda Guerra, Heinrich e o grupo de alpinistas que estão no Himalaia, são presos por tropas inglesas. Como a Índia, cujas fronteiras se encontravam, não passava de uma colônia da Inglaterra, todo e qualquer cidadão alemão ou austríaco era considerado inimigo. Depois de anos na prisão e de tentativas fracassadas de fuga, conseguem finalmente escapar. Heinrich passou então a vagar pelas vielas de uma terra desconhecida até reencontrar Peter Aufshnaiter (interpretado por David Thewlis), outro alpinista de seu grupo, com o qual passou a se apoiar e,  apesar do ego de Heinrich, construir uma duradoura amizade.

Heinrich e Peter passam um longo tempo se escondendo da guerra numa região quase inóspita, tentando entrar no desconhecido Tibet, região de 4.900m de altitude, cuja cidade mais alta recebe facilmente a alcunha de “teto do mundo”. Depois de quase serem mortos por ladrões, passam disfarçados pelos portões da cidade de Lhasa, capital administrativa da Região Autônoma do Tibet, onde se localiza o sagrado Palácio de Potala, lar dos Dalai-lama, centro mundial do budismo tibetano.

Nesta época, Lhasa era fechada a estrangeiros, mas a benevolente cultura dos monges budistas os acolheram como exilados. Neste segundo ato do roteiro, vemos o modo de vida dos tibetanos a partir dos olhos de Heinrich, como também a curiosidade mútua entre Heinrich, um partidário do nazismo (que fica oculto durante todo o filme) e a criança Tenzin Gyatso, concebido como o 14º líder espiritual Dalai-lama.

A China e a teoria stalinista

Os dois estabelecem uma relação única de amizade. O jovem Dalai-lama é, como qualquer criança mundana, ávida por conhecer o mundo fora de seu palácio, por sua vez, Heinrich aprende a enxergar o seu mundo a partir de outra perspectiva – a dos “exóticos” monges – no qual até um anelídeo rastejante, como qualquer outro ser vivente, é tratado com respeito. Assim, ambos se tornam aprendizes e professores um do outro.

Esta incomum relação para a tradicional cultura do Tibet, um Estado Teocrático, cuja supremacia dos Dalai-lama é inquestionável, é fortalecida com a invasão militar chinesa. Aqui, cabe um esclarecimento: a China governada por Mao Tsé-Tung, utiliza-se da base teórica stalinista de nacionalidade para oprimir e subjugar povos e culturas minoritárias da Ásia, rasgando qualquer proximidade, portanto, com o marxismo e o leninismo, cuja relação entre povos e nações tem por princípio o respeito a soberania.

Deste modo, os generais “comunistas” do partido chinês, que de comunistas não possuem nada, são retratados como grosseiros e arrogantes, enquanto os monges são generosos e amantes da paz. O diálogo entre o jovem Dalai-lama e os militares não deixa dúvidas sobre que lado o espectador deve tomar, lado que até mesmo um partidário do nazismo como Heinrich se encontra.

A invasão militar de tropas chinesas “comunistas” ocorreu de verdade e, no que pese as meditações e orações de um povo para garantir a sua existência, o resultado foi centenas de mortos na “Batalha de Chamdo”, quando tibetanos são massacrados e posteriormente obrigados a reconhecer a autoridade política chinesa sob a região. Como o próprio filme registra, as esculturas das divindades budistas sob as quais os monges achavam que os protegeriam, derreteram sob o sol escaldante do verão e, ainda que a linda filosofia pacífica, generosa e de resiliência dos monges sirva para uma jornada individual em busca do Nirvana, uma espécie de estado de hiperconsciência onde o sofrimento e a dor inexistem, não foi capaz de impedir o sofrimento e a dor que este povo foi submetido com a opressão chinesa maoísta sob a região.

Marxismo

“Die Religion … Sie ist das Opium des Volkes” escreveu o alemão Karl Marx em sua crítica introdutória à filosofia hegeliana. O pensamento sintetizado por Marx, contudo, era comum em pensadores da época, que viam na religião uma forma de alívio ao sofrimento humano. O ópio, diferente da carga negativa que possui hodiernamente, era uma substância empregada de forma costumas como anestésico ou até mesmo como sonífero para crianças e bebês dormirem. O “pulo do gato” do entendimento de Marx era, pois, que não é a religião que faz o homem, mas sim o homem que faz a religião.

Nesta perspectiva, a religião é uma “consciência invertida do mundo, por que eles são um mundo invertido”. Mesmo que no budismo tibetano, diferente dos sistemas organizados teocêntricos, não exista um paraíso nos céus a ser alcançado pelo temor do pecado, mas uma prática de vida que superaria o sofrimento a partir de uma perspectiva individual: o desejo, o apego e a ignorância. O exercício do desapegar e do desejo estariam na base do caminho da iluminação. Em tal exercício, a bondade, a empatia, a compaixão, mesmo pelo inimigo, seriam a essência desta filosofia de vida. Assim, como pontuou Marx, um “[…] suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma”. O grande problema é que a felicidade ilusória criada pelos homens e que aparece de forma invertida, impede a felicidade real de homens e mulheres reais num mundo imperfeito, porém real.

líderes religiosos — líderes políticos

Muito distante do sermão pregado pelo jovem Dalai-lama aos generais chineses relatado por Heinrich em sua jornada, no Brasil atual, os líderes religiosos têm se tornado líderes políticos num claro projeto de disputa do poder. Tais líderes, associados principalmente aos setores do grande agronegócio, arrebanham suas ovelhas em torno deste projeto político, cuja base está assentado num pensamento conservador, preconceituoso e de “demonização” do diferente. Assim, destilam ódio e até praticam crimes, como a violência lgbtfóbica; tudo isso sob a alegação de liberdade religiosa.

Menos preocupados em pregar a busca do paraíso, um mundo fantasioso criado pelos próprios homens para confortar suas angústias, estes falsos profetas do apocalipse objetivam moldar a sociedade, principalmente a classe trabalhadora, em torno de sua mentalidade ultradireita e pretensiosamente cristã, porém, em verdade, mesquinha e egoísta, pois trata-se tão somente de interesses privados de mercenários a serviço de ricos capitalistas. É isso que está por trás de suas posições contra o casamento homoafetivo, os transexuais e a descriminalização do aborto.

Adolf Hilter fazia referências a Deus e a Providência Divina em seus discursos para ganhar apoio popular nas massas trabalhadoras alemãs. E ainda que alguns religiosos parlamentares de ultra-direita neguem esta afinidade ideológica, defendem abertamente que “Diante de Deus e do mundo, o mais forte tem o direito de afirmar a sua vontade” (dizeres atribuídos a Hitler, mas que também são reproduzidos pelos Felicianos, Magnos Maltas e Malafaias da vida).

Em confronto com esta posição, um Sidarta Gautama (o supremo Buda) ou um Jesus de Nazaré, caso consideremos suas existências históricas, abriram mão de suas posses e orgulhos pessoais e se dirigiram a prostitutas e pecadores, não para afirmar a supremacia do mais forte, mas para consolar marginalizados e oprimidos, tanto que é nesta condição que o messias cristão é julgado e condenado pelo Estado conservador romano.

O alpinista Heinrich, ser de carne e osso do mundo real, praticamente ocultou seu vínculo com a SS nazista ao contar sua história de “7 anos no Tibet”. Isento de crimes de guerra quando julgado, décadas depois se referiu a sua posição política como “imaturidade da juventude”, com o detalhe de que possuía 26 anos quando integrou a “tropa de proteção” do partido de Hilter. Mas convenhamos que se para os cristãos o que importa não é se você pecou, mas se se arrependes, como também para o budismo a ideia de “pecado” é irrelevante, pois sofrerás do carma que plantou, por sua vez, para o marxismo, tal julgamento moral se quer tem sentido.

Crítica marxista

A crítica dos marxistas à religião não é uma crítica moral, mas política e filosófica. Para o marxismo, todos devem ter o direito de opinião e de crença, todos devem ter o direito a exercer a sua crença religiosa, mas tal prerrogativa não pode dar o direito de incitar a violência contra determinados grupos sociais e minorias. Em particular, Marx, ao contrário do que aqueles líderes ignorantes pensam, absteve-se de desenvolver uma crítica religiosa, pois em seu entendimento, o acúmulo histórico do conhecimento filosófico e científico já o teria feito, restando-lhe a necessidade da crítica, isto é, o exercício de clarificação, ao mundo real, compreendido melhor como “modo de produção capitalista e suas inerentes relações de produção e troca”.

Assim, não é à Religião ou ao mundo das ideias que Marx se dirige, mas ao mundo dos homens e mulheres, posto que se este mundo real e “não-imaginário” resolva suas reais contradições, ou seja, o sofrimento e as mazelas produzidas pela organização econômica privada dos meios produção, a necessidade de um paraíso nos céus, expressão do desejo de um paraíso na terra, deixaria de ter sentido.

Ao final de sua jornada, Heinrich retorna para casa e, com base nos ensinamentos do jovem Buda, reencontra o filho que o havia rejeitado como pai ausente. Escalar montanhas é uma atividade perigosa, há riscos de acidentes ou quedas letais, porém, são capazes de gerar sentimentos de grande satisfação quando se alcança o topo.

Muitos anos se passaram para que Heinrich conseguisse chegar no cume do Everest, o ponto mais alto no planeta, mas a sua felicidade maior foi ter realizado este feito com o seu filho já adolescente. Mas não é a felicidade na terra que os homens e mulheres buscam? Não sei se Tenzin Gyatso, agora com 88 anos de idade, conseguiu de fato alcançar a felicidade almejada no budismo, mas sei que a busca da felicidade para todos é o objetivo final do marxismo, única ferramenta do pensamento capaz de libertar-nos da opressão do reino das necessidades em direção ao reino da liberdade e reencontrar, finalmente, na felicidade de outro ser humano, a escalada de nosso próprio cume.