Meio ambiente

Subúrbio de Salvador sofre com crime ambiental: famílias ficam sem renda e sem apoio do poder público

PSTU-BA

27 de março de 2026
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Crustáceos mortos por produtos químicos na praia de São Tomé do Paripe, em Salvador | Foto: Divulgação

Moradores, pescadores e marisqueiras de São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, vêm denunciando, desde fevereiro deste ano, um crime ambiental contra comunidades tradicionais: o aparecimento de substâncias de coloração azul e amarela na água do mar e na faixa de areia da região.

O fenômeno, registrado por diversos moradores, não é isolado. As manchas surgem ao cavar a areia ou em áreas atingidas pela maré, com variações de cor que vão do azul intenso ao amarelado e esverdeado. Em paralelo, pescadores relatam a morte de peixes, siris e até tartarugas. Um sinal claro de possível contaminação química.

A situação atinge diretamente a subsistência de dezenas de famílias que dependem da pesca artesanal, da mariscagem e do comércio ligado à praia. Para essas comunidades, o mar não é apenas paisagem: é trabalho, alimento e sobrevivência. Hoje, no entanto, o que se vê é a paralisação forçada das atividades e o avanço da fome.

Sem poder pescar e com a praia parcialmente interditada, pescadores, marisqueiras e barraqueiros acumulam prejuízos diários. Em uma realidade marcada pela informalidade e pela ausência de direitos trabalhistas, cada dia sem trabalho significa não ter o que comer. Ainda assim, o que mais revolta é a ausência de resposta concreta do poder público.

O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) realizou coleta de amostras e segue investigando o caso, mas até agora não apresentou qualquer conclusão à população. A única medida efetiva foi a interdição de parte da praia. Uma ação necessária, mas que transfere o peso da crise para os trabalhadores, sem garantir qualquer proteção social.

Substâncias de cor azul faixa de areia da da praia de São Tomé de Paripe | Foto: Divulgação

A prefeitura de Salvador limita-se a ações paliativas de sinalização, ignorando completamente a urgência de políticas de assistência às famílias afetadas. O governo do estado, por sua vez, restringe sua atuação ao campo técnico, como se a crise fosse apenas ambiental. Quando, na realidade, já é uma crise social instalada.

Mais grave ainda é o silêncio do governo federal. Mesmo sendo responsável pelas áreas marítimas e dispondo de órgãos como a Marinha do Brasil, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Ministério da Pesca e Aquicultura, não há qualquer ação visível à altura do problema.

Essa omissão não é casual, é política. O problema envolve a Gerdadu e outras empresas. O capital vale mais que o meio ambiente.

Trata-se do mesmo padrão que atinge comunidades pobres e periféricas em todo o país: quando o desastre ambiental impacta os de baixo, a resposta é lenta, insuficiente ou simplesmente inexistente. Enquanto isso, empresas seguem operando, responsabilidades não são apuradas e trabalhadores arcam sozinhos com o prejuízo.

– Não há auxílio emergencial;
– Não há compensação financeira;
– Não há garantia de renda.

Há apenas abandono.

Diante disso, é preciso ir além da denúncia. É urgente exigir:

– Pagamento imediato de auxílio emergencial para todas as famílias atingidas;
– Suspensão de atividades potencialmente poluentes na região até a completa apuração dos fatos;
– Investigação independente, com participação da comunidade, para identificar os responsáveis;
– Punição exemplar das empresas envolvidas, caso seja confirmada contaminação;
– Implementação de políticas públicas permanentes de proteção aos trabalhadores do mar;
– Transparência total dos laudos e das ações dos órgãos públicos.

Não se trata apenas de resolver um problema ambiental pontual, mas de enfrentar uma lógica em que o lucro de poucos vale mais do que a vida de muitos.

O caso de São Tomé de Paripe escancara o que já é regra: nas periferias, o Estado chega tarde e, muitas vezes, não chega. Cabe agora à mobilização popular transformar a indignação em luta, para que esse crime não seja mais um a cair no esquecimento.

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