Lutas

Técnicos administrativos da UERJ preparam greve após assembléia histórica; docentes já iniciaram paralisação. Todo apoio!

Com salários corroídos, direitos atacados e universidade em crise, categoria luta para se somar à greve já iniciada pelos professores e aponta para uma luta unificada em defesa da UERJ

PSTU Rio de Janeiro

26 de março de 2026
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Assembleia realizada no dia 23 de março

Em assembléia histórica realizada no dia 19 de março, centenas de professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) aprovaram a deflagração da greve, iniciada nesta quarta-feira (25), após o esgotamento das negociações com o então governador Cláudio Castro (PL), o que expressa a insatisfação acumulada da categoria e o aprofundamento de uma crise que atravessa toda a universidade.

Os trabalhadores docentes colocam no centro da pauta a recomposição salarial, o retorno dos triênios e a recomposição do orçamento da instituição, reivindicações que dialogam diretamente com as demandas dos trabalhadores técnico-administrativos, que agora avançam para a construção de sua própria greve, impulsionados por um processo de base que cresce rapidamente.

Na última terça-feira (24), os técnicos administrativos realizaram sua terceira assembléia do ano, marcada por uma participação massiva (a maior desde 2016) que supera, inclusive, as assembléias recentes da própria categoria e dos docentes, o que demonstra o nível de mobilização existente.

A enorme maioria da categoria defendia a discussão imediata da entrada em greve já na próxima semana. No entanto, a atual direção do Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Públicas do Estado do Rio de Janeiro (SINTUPERJ) não apenas se posicionou contra a paralisação, como, para evitar ser derrotada no voto, se recusou a colocar em votação qualquer encaminhamento e abandonou a assembléia.

Diante disso, os trabalhadores foram até a sede do SINTUPERJ para realizar a entrega de um abaixo-assinado, conforme previsto no estatuto do sindicato, que já reuniu mais de mil assinaturas, incluindo mais de 10% dos sindicalizados, o que obriga a convocação de uma nova assembléia em até 72 horas, com indicativo de greve, que deve ocorrer entre o até quarta-feira da próxima semana (dia 01/04/2026), enquanto cresce a disposição da base de garantir a realização do movimento mesmo diante de novas tentativas de bloqueio.

Crise política do governo impulsiona mobilização

A assembléia ocorreu em um contexto de agravamento da crise política no estado do Rio de Janeiro, marcado pela renúncia de Cláudio Castro (PL), sua condenação a inelegibilidade pelo Tribunal Superior Eleitoral, e pela eleição indireta por parte dos deputados da ALERJ, em breve, de um governo “tampão” para dirigir o Rio até o final do ano, o que abre uma janela de instabilidade no Executivo e reforça a avaliação de setores da categoria de que este é um momento favorável para intensificar a luta pela recomposição salarial e pelos direitos. A leitura é que, seja quem for o governador “tampão”, estará vinculado aos mesmíssimos escândalos que levaram à condenação não apenas de Castro, mas também de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da ALERJ, e que envolvem também boa parte da cúpula de várias instituições estaduais, como o CEPERJ, a UERJ, e muitos dos próprios deputados da ALERJ. Junto a isso, a postura da direção sindical de impedir a votação gerou forte indignação entre os trabalhadores, que passaram a defender com ainda mais força a necessidade de avançar com a greve para arrancar conquistas.

O principal elemento que hoje unifica técnicos e docentes é a brutal defasagem salarial, resultado de anos sem reposição inflacionária, uma vez que o governo do estado não cumpre sequer a lei de 2021 que garante a recomposição das perdas acumuladas desde 2017, o que faz com que os trabalhadores acumulem perdas que ultrapassam 30% apenas nesse período, e muito superiores a 100% desde o último reajuste linear, em 2001. Essa situação é tão dramática que ajuda a explicar como a UERJ passou da universidade pública com os melhores salários para professor do país no início da década de 2000 para a segunda pior nesse quesito, à frente apenas da UEMG.

Embora Castro tenha concedido reajustes parciais recentes, que somam cerca de 20%, o valor está muito distante de recompor as perdas reais, o que mantém os servidores em uma situação de arrocho permanente. É importante lembrar também que o que Castro havia prometido já alcançaria mais de 50% nesse momento, e que essa promessa veio em troca de um verdadeiro pacote de maldades aprovado na Alerj no início de 2022 que retirou uma série de direitos dos servidores, como os triênios (adicionais por tempo de serviço).

Condições de trabalho precárias, retirada de direitos e crise orçamentária da UERJ

Para além da questão salarial, a pauta dos trabalhadores expõe condições de trabalho cada vez mais precárias, como no caso do adicional de insalubridade, que segue sendo calculado com base no salário mínimo de 2015, o que faz com que servidores que atuam em ambientes de alto risco, com itens como explosivos, radiação e agentes patológicos altamente infectantes, recebam valores irrisórios.

Também está entre as reivindicações a revogação da lei que retira os triênios, o tratamento digno para trabalhadores terceirizados, que enfrentam atrasos recorrentes, e a regularização dos contratos precários (os chamados “projetos”) no complexo de saúde da UERJ, notadamente o Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), onde profissionais passam três meses sem salário todo início de ano e recebem salários muito inferiores aos dos servidores efetivos, além da exigência de recomposição das bolsas estudantis cortadas em 2024, o que evidencia que a crise atinge toda a comunidade universitária.

Essas demandas refletem uma crise mais ampla da UERJ, marcada por cortes orçamentários e pela deterioração das condições de funcionamento, o que compromete tanto o trabalho dos servidores quanto o acesso e a permanência dos estudantes. Historicamente reconhecida por seu caráter popular, por políticas pioneiras como as cotas raciais e por cursos de excelência, a UERJ enfrenta hoje um processo de sucateamento que ameaça suas conquistas, ao mesmo tempo em que o governo estadual mantém políticas que favorecem setores empresariais e o pagamento da dívida pública, enquanto negligencia o financiamento da educação.

“A universidade só conquistou o que tem com luta”

O atual cenário de mobilização é resultado de um processo acumulado, já que em 2024 houve forte disposição de luta na universidade, com estudantes ocupando a reitoria e técnicos tentando iniciar uma greve, movimento que acabou sendo bloqueado por manobras que impediram a unificação das categorias naquele momento.

Agora, no entanto, a situação é distinta, pois as assembléias demonstram uma adesão avassaladora à greve, indicando que o movimento represado no passado está sendo retomado com ainda mais força. A greve que foi represada em 2024 está explodindo com força em 2026.

Para os trabalhadores, a greve não é apenas uma resposta imediata às perdas salariais, mas parte de uma luta mais ampla em defesa da universidade pública, como afirma Gabriel Tolstoy, técnico administrativo da UERJ, ao destacar que “tudo que a universidade conquistou, desde as cotas raciais e as políticas de permanência até a própria continuidade da existência da instituição, foi fruto de mobilização e greve, e é esse caminho que precisamos retomar para garantir o futuro da UERJ”.

A importância e a necessidade do apoio dos estudantes e da população

Diante desse cenário, a construção de uma greve unificada entre técnicos e docentes aponta para um novo momento de enfrentamento, no qual a defesa da UERJ se conecta com a luta mais geral da classe trabalhadora contra o arrocho salarial e o desmonte dos serviços públicos.

A mobilização que se constrói na universidade coloca a necessidade de apoio ativo dos estudantes, dos trabalhadores e da população do estado do Rio de Janeiro, uma vez que a defesa da educação pública, gratuita e de qualidade está diretamente ligada às condições de vida da maioria da população, que depende desses serviços e será diretamente afetada caso o processo de sucateamento siga avançando.

Todo apoio à greve unificada de técnicos e docentes da UERJ!

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