O imperialismo norte-americano, através de seus monopólios, já controla a maior parte da economia brasileira. E agora, nem mesmo a nossa relativa autonomia política Trump quer deixar. Ele quer escolher diretamente quem vai governar o Brasil, dominar toda a região e se tornar uma espécie de imperador de todo o continente.
Em seu discurso na assembleia anual do conselho da ONU, Donald Trump distribuiu ameaças, em especial à América Latina. Reivindicando a invasão militar da Venezuela, com o sequestro de Maduro e a posterior tomada do petróleo do país com o governo chavista convertido em governo títere, Trump mandou um recado nada sutil aos países da região: “usaremos nosso poderio militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos".
Horas depois, o conjunto de países organizados no Escudo das Américas, uma aliança de governos de extrema direita regidos sob a orientação direta de Trump, anunciou o apoio à classificação pelo governo norte-americano de organizações criminosas como “terroristas”, incluindo o Comando Vermelho e o PCC. Um reforço no discurso hipócrita de Trump que busca abrir brecha para a legitimação de intervenções militares em qualquer país, a exemplo da Venezuela.
Ingerência nas eleições brasileiras
O que aconteceu na reunião da ONU é uma escalada na ameaça de intervenção em países não-alinhados à extrema direita, incluindo aí uma ingerência no processo eleitoral brasileiro. No último dia 19, a colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, divulgou um relatório da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) alertando as autoridades sobre o perigo da interferência do governo norte-americano nas eleições de 4 de outubro. A agência estaria identificando um aumento nas pressões "política, econômicas e diplomáticas" para influir no resultado das urnas.
A bem da verdade, não é preciso um serviço de inteligência para perceber que Trump está de olho nas eleições brasileiras. Além do sequestro de Maduro, as reiteradas ameaças e o bloqueio a Cuba, a interferência do imperialismo nas recentes eleições na Argentina (em que Trump liberou 20 bilhões de dólares a Milei para ajudá-lo no pleito legislativo), e na Colômbia em favor do candidato de extrema direita, Abelardo de la Espriella, já davam um indicativo de como os EUA atuariam no maior país da América Latina.
O próprio tarifaço, articulado com a família Bolsonaro, e a série de sanções contra autoridades brasileiras identificadas como contrárias ao bolsonarismo, já configuravam, por si só, uma descarada tentativa de intervenção com fins eleitorais.
Essa movimentação faz parte de uma política do governo norte-americano expressa no documento “Estratégia de Segurança Nacional” que visa transformar a América Latina numa região de estrita influência dos EUA. É a retomada da “Doutrina Monroe”, sintetizada no lema “A América para os americanos”, num contexto de uma dura disputa interimperialista diante da ascendente China enquanto potência capitalista que rivaliza mercados, recursos naturais e influência em todo o planeta.

Ameaça externa e entreguismo
Num momento em que os EUA anunciam o redirecionamento de drones e todo o tipo de força militar para a América Latina, qualquer cenário de intervenção está aberto. Se, por hoje, não está colocado um ataque militar direto, é certo que o imperialismo se utilizará de qualquer meio para garantir seus interesses acima da soberania do Brasil. Seja a utilização das big techs e dos algoritmos para favorecer seu candidato, seja o questionamento de um resultado eleitoral que não seja do agrado de Trump.
Alguns fatos reforçam essa atuação. O argentino Fernando Cerimedo, aquele mesmo que se tornou famoso espalhando fake news sobre as urnas eletrônicas em 2022, foi pego na Bolívia com uma fazenda de "bots", robôs que atuam nas redes sociais de forma coordenada, para influir nas campanhas eleitorais em favor da extrema direita no continente.
Cerimedo teria atuado nas últimas eleições da América Latina, assim como na de Jair Bolsonaro em 2022, e se preparava para fazer o mesmo agora. Além disso, o jornalista Guilherme Amado revelou que o empresário Pedro Sang, representante da Rockbridge Network (uma articulação de extrema direita ligada a Trump e fundada pelo vice-presidente J.D Vance), montou o comitê de campanha de Flávio Bolsonaro no Brasil.
A extrema direita brasileira, financiada pelo dinheiro de Vorcaro e assessorada por Trump, já ofereceu uma "equipe de transição" direto com a Casa Branca com uma vitória de Flávio Bolsonaro, mostrando como o discurso nacionalista não passa de hipocrisia na boca dessa corja de lambe-botas do imperialismo norte-americano.
Fora Trump do Brasil e da América Latina

Tudo mostra que Trump agiu, age e agirá para interferir nas eleições de 4 de outubro em favor de Flávio Bolsonaro, colocando o Brasil na rota dos países alinhados à extrema direita. A distância da linha que cruzará, porém, está no momento indefinida, pois não depende só da sua vontade. Outros vetores, como os interesses de setores da própria burguesia imperialista, uma crise interna diante das mobilizações do povo norte-americano e o próprio desgaste de Trump às vésperas das eleições legislativas, ou uma instabilidade que uma ruptura institucional no Brasil traria, estão colocados.
Fato é que não dá para jogar com a sorte, ou com os interesses do imperialismo, e deixar nas mãos de Trump a definição de quem governará o Brasil. Uma intervenção imperialista, seja de qual tipo for, representa uma grave ameaça aos trabalhadores, e, caso concretizada, precisa ser respondida com luta e mobilização, em unidade de ação com todos os setores contra a entrega do Brasil aos EUA.
Lula prega soberania, mas não combate o imperialismo
No discurso realizado na assembleia da ONU, o presidente Lula foi enfático na defesa da soberania: "O Brasil não cabe no quintal de ninguém". Porém, mais uma vez, o discurso de Lula passa ao largo de suas ações concretas.
No caso do tarifaço, o governo, atendendo aos pedidos do agronegócio e da indústria nacional, atavicamente atados ao imperialismo, sequer adotou qualquer retaliação contra os EUA. A fala escandalosa do próprio ministro da Defesa, José Múcio, em que, diante de uma hipotética invasão militar, "a gente terá que abrir o portão", foi simplesmente ignorada pelo governo brasileiro.
A realidade é que o Brasil está completamente à mercê da ameaça do imperialismo norte-americano. Se por um lado, a ultradireita tem um projeto descaradamente entreguista, convertendo o Brasil num protetorado dos EUA, por outro o governo Lula não tem qualquer política de enfrentar o imperialismo.
O que difere a extrema direita do governo Lula é que o projeto do PT não é o de se contrapor frontalmente aos EUA, mas conciliar diferentes interesses imperialistas. Lula quer a liberdade para negociar, e continuar entregando o país e seus recursos, principalmente as terras raras, também ao imperialismo chinês ou europeu. Isso, por hoje, contraria Trump, que não abre mão da exclusividade do acesso aos minerais críticos, no marco de sua disputa interimperialista com o ascendente imperialismo chinês na região.
Para a classe trabalhadora e a maioria do povo, não difere tanto ter seus recursos explorados e roubados pelo imperialismo norte-americano, chinês ou europeu. Que, na prática, é o que ocorre hoje inclusive. No entanto, uma ameaça de ingerência direta imperialista não pode ser subestimada, e a política do governo Lula deixa o país vulnerável a isso.
Para enfrentar a ameaça de Trump é preciso atacar os monopólios capitalistas
A vulnerabilidade política, e até militar, do Brasil está intimamente ligada à subordinação econômica do país frente ao imperialismo, hoje principalmente os EUA. O bolsonarismo quer entregar o país de vez a Trump, mas a política levada a cabo pelo governo Lula representa o avanço no processo de recolonização, e da perda da nossa soberania.
Alguns setores defendem a unidade eleitoral em torno de Lula contra a ameaça imperialista. Mas é preciso questionar: Trump vai ligar para qualquer resultado eleitoral se decidir intervir no Brasil? Se não interferir agora, o país, com esse projeto do governo do PT, vai continuar à mercê da ameaça dos EUA em conluio com a extrema direita. Por isso, a saída para uma ação direta do imperialismo é a mais ampla unidade de ação nas ruas, enquanto que, para os trabalhadores, está colocada a tarefa de construir uma alternativa realmente antiimperialista, que questione a fundo o problema de nossa soberania.
Contra a ameaça imperialista, um Brasil soberano e socialista
É impossível enfrentar a ameaça trumpista sem atacar as bases em que se dão essa subordinação: o controle dos grandes monopólios capitalistas estrangeiros sobre os setores chaves da nossa economia. Do grande agronegócio, passando pela indústria, até nossa soberania digital. Por isso que o projeto do PT é incapaz de se contrapor, de forma coerente e até às últimas consequências, com a ofensiva de Trump e dos EUA.
Para isso é necessário expropriar os grandes monopólios estrangeiros que ditam a dinâmica da nossa economia: exploram recursos e mão-de-obra aqui, e remetem seus lucros para fora. Para eles não há interesse em reindustrializar o Brasil, nem que a população tenha salário decente ou direitos sociais mínimos. Pelo contrário, já que não dependem essencialmente de um mercado interno, quanto pior para o povo, melhor para eles.
Um Brasil realmente soberano e independente passa pela necessidade da classe trabalhadora tomar em suas mãos as rédeas das nossas riquezas, tomando o controle dos setores chaves da economia, reindustrializando o país em favor dos interesses da população, rompendo com o imperialismo e a subordinação. Inclusive, desenvolvendo uma forte indústria bélica para dissuadir ou enfrentar qualquer ameaça de ingerência. Soberania, assim, está indissociada de um profundo processo de transformação social em que a classe trabalhadora organizada, junto aos setores mais oprimidos e explorados, controlem e dirijam as riquezas que ela mesma produz, desenvolvendo o Brasil e transformando profundamente as condições sociais da maioria da população.
Se não há dúvidas de que uma intervenção imperialista deva ser combatida com a mais ampla unidade nas lutas, a disjuntiva colocada nestas eleições não passa por uma alternativa mais ou menos entreguista. Ambas não alteram a subserviência do Brasil e sua vulnerabilidade frente ao imperialismo. A tarefa colocada para os trabalhadores é a de fortalecer um projeto realmente antissistema, contra o imperialismo e em defesa de um Brasil soberano e socialista.
É a esse projeto que a candidatura Hertz Dias e Vanessa Portugal está a serviço.