“Um grito de dignidade: o que se pedia não era só econômico, os manifestantes sabiam que a miséria era causada pela política”
No dia 28 de dezembro, uma série de protestos populares tomou conta do Irã. Após o corte das comunicações e de uma série de massacres em várias cidades nos dias 8 e 9 de janeiro, os protestos se reduziram. Confira uma parte da entrevista com a artista e jurista iraniana Khazar para a CSP-Conlutas, na qual se debateu a questão iraniana sob a ótica da classe trabalhadora
Fábio: Quais são as razões para os protestos populares no Irã?
Khazar: Oi, espero que todos estejam bem. Eu queria deixar dois pontos muito claros. O primeiro é que sou iraniana e falo desde este ponto de vista. Tenho formação em Direito e sou atriz, mas de jeito nenhum me considero uma especialista no tema; minha especialidade é o envolvimento pessoal e o que acompanho de perto. O segundo ponto é que falar sobre um protesto isolado é perigoso, porque parece que é a primeira vez que algo acontece. Isso é um efeito da distância. Falar sobre esses protestos não significa que a luta iraniana começou agora.
Sobre os protestos de janeiro de 2026: é verdade que começaram dentro do Bazar de Teerã, o grande mercado da capital. Mas, dentro de uma teocracia e de um regime autoritário, nada é apenas uma coisa só. Nem em 2022, nos protestos “Mulher, Vida e Liberdade”, tudo era apenas sobre o véu, nem hoje tudo é apenas sobre economia. O Bazar é um setor que raramente se manifesta; tradicionalmente, é considerado um aliado do regime. Desta vez, foi o setor de importação — aparelhos eletrônicos e celulares — que se moveu. Muito rapidamente os slogans já miravam o Líder Supremo, Ali Khamenei e foram para as cidades periféricas, cidades pequenas e longe do centro, inclusive de algumas etnias. Os curdos, por exemplo, que estão sempre presentes, demoraram um pouco mais para entrar através de seus principais partidos, mas as cidades eram locais que já haviam sofrido muito durante a guerra com o Iraque. Eram cidades com taxas de pobreza muito altas e muito tradicionais. A questão parecia puramente econômica, mas criou-se uma imagem incrível em uma noite na cidade de Ilam, que é uma cidade etnicamente mista com grande presença curda, as pessoas invadiram uma rede de supermercados ligada às forças paramilitares da Guarda Revolucionária. Elas pegaram pacotes de arroz e, em vez de roubarem para comer, abriram os sacos e jogaram o arroz para o alto. Foi um grito de dignidade. Parecia que estava nevando arroz. Ficou claro que o que se pedia não era apenas econômico; os manifestantes sabiam que a miséria era causada pela política.
Apesar de ter havido repressão desde o início, várias organizações de Direitos Humanos denunciam que, a partir do dia 8, houve uma repressão organizada com corte de comunicações, execuções e massacres em vários pontos do país. Sei que há dificuldade para termos informações precisas, mas queria que você nos contasse o que sabe sobre como foi esse processo.
Tenho muito medo de falar em números, pois pode parecer sensacionalista na ausência de mídia livre. Mas hoje vi uma notícia de um Centro de Direitos Humanos no Irã dizendo que os números são certamente maiores do que as estimativas de 12 mil, 16 mil ou 20 mil mortos. Para não nos surpreendermos, precisamos lembrar que, apenas no ano de 2025, o regime iraniano enforcou 1.500 pessoas. Governar pela violência não acontece apenas pontualmente em crises; o regime sente-se ameaçado o tempo todo. Essa ameaça contínua justifica as mortes, que ocorrem com recortes de classe e etnia. Os maiores números de vítimas são de pessoas baluchis, árabes e curdas. Acredita-se que esses corpos chamam menos atenção e viram apenas estatística. Um dos nossos deveres na diáspora é catalogar esses nomes. Desde o “Novembro Sangrento” de 2019, eles nunca mataram tanto na rua quanto agora.

Muita gente imagina que a cúpula clerical iraniana é austera e tem uma vida modesta. Mas, para quem acompanha a história pós-79, percebe-se que se formou uma classe capitalista ligada aos negócios do Estado. No primeiro momento, tivemos a família Rafsanjani, que vinha do agronegócio do pistache e tornou-se multimilionária. Posteriormente, a família de Khamenei, o atual Líder Supremo, também enriqueceu através do controle de fundações que gerem a riqueza que permaneceu no país, além de privatizações e licenças exclusivas de importação e exportação. Queria que você contasse como é isso. Existe uma classe capitalista no Irã?
Sim. O núcleo fundador da revolução, mesmo quando pertencia a famílias ricas, tinha optado por uma vida muito simples, o que fazia parte da identidade do novo regime. Porém, depois que o Ayatollah Khomeini faleceu, esse peso moral de se comportar de certa forma se perdeu. Khomeini controlava o funcionamento econômico da família e proibia os filhos de comprar casas, por exemplo. Mas a guerra acabou e Rafsanjani chegou ao poder com muita força, iniciando a reconstrução do país e a reforma da Constituição.
Também começou a era dos embargos. Havia uma proibição explícita de Khomeini para que a Guarda Revolucionária não interferisse na política nem na economia, mas isso se perdeu. A Guarda tornou-se um ator econômico e um agente político, sendo chamada de “governo na sombra”. Não há negócio no Irã sem a presença da Guarda Revolucionária. Além disso, houve o projeto de imperialismo ao modo iraniano, com presença em outros países da região. Na era dos embargos, outra classe enriqueceu: a dos “facilitadores” para driblar as sanções. São pessoas que não pertencem ideologicamente ao fundamentalismo religioso e não seguem a estética da República Islâmica. De vez em quando, para fingir que combate a corrupção, o regime executa um desses empresários que não “é dos nossos”.
Antigamente, o núcleo duro tentava sustentar uma imagem de simplicidade, mas isso acabou com as redes sociais. Meses atrás, vazou o vídeo do casamento da filha de Ali Shamkhani, uma das figuras do início da revolução, com ostentação absurda. Antigamente, se isso acontecesse com um político reformista, seria uma crise, mas agora eles nem parecem mais preocupados em sustentar essa imagem.
Você falou da Guarda Revolucionária. O ex-presidente Ahmadinejad tem origem nela, não é?
Sim. Ele ganhou muitos votos em cima dessa simplicidade ostentada. No primeiro mandato, a relação dele com Khamenei era de “pai e filho”, reafirmando esse núcleo duro. Na sala onde recebia estrangeiros, não havia sequer tapetes; a estética era de total simplicidade. Mas, no segundo mandato, Ahmadinejad subiu através de um golpe na eleição de 2009 e “virou filho de ninguém”. Começou a desafiar esse pai e agora quase não se tem notícias dele; de vez em quando ele faz falas quase de oposição com um tom nacionalista. Esse é o movimento do regime: ou você aceita ser uma figura pequena ou, se começar a crescer demais, o poder do Líder Supremo o coloca no seu lugar. Ahmadinejad achou que tinha privilégios, mas o fizeram entender que não tinha.
Você citou a revolução de 1979 como “Revolução Islâmica”. Eu prefiro a definição do historiador Ervand Abrahamian, que relata que a revolução teve dois componentes: um de esquerda/estudantil e um clerical/bazarii. Como quem venceu foi o componente do clero, a esquerda desapareceu. No Brasil, as pessoas não fazem ideia de que existiu uma esquerda iraniana influente. O que você pode contar sobre isso?
Uso o termo “Revolução Islâmica” porque é o nome que o regime deu às suas instituições, como o Tribunal Revolucionário. Essa revolução como instituição matou absolutamente todos os seus filhos. Mesmo quem veio no mesmo avião que Khomeini, de Paris para Teerã, foi eliminado. Houve, sim, uma grande presença da esquerda de muitos campos. O Partido Tudeh, o mais clássico, criou-se dentro da elite intelectual que estudou no exterior e voltou socialista. O Tudeh serviu de modelo organizacional para todos os que criaram partidos depois, inclusive os partidos do próprio regime. É um fato histórico que ninguém pode negar.
Outro fato histórico é que, mesmo às vésperas da Revolução de 79, o Partido Tudeh — após sofrer muita opressão e exílio — não possuía tantos membros e não era tão “popular” entre os jovens quanto outros partidos de esquerda da época. O Mujahedin-e-Khalq, por exemplo, era extremamente popular entre adolescentes e jovens.
No entanto, desde a sua fundação no início do reinado de Reza Shah Pahlavi, o Tudeh era o “corpo cultural” do país. Você não consegue nomear quase nenhum poeta, autor, fundador de teatro ou ator daquela época que não fosse membro ou simpatizante do Partido Tudeh.
Com o tempo, surgiram outros partidos muito mais radicais e mais afastados da União Soviética do que o Tudeh, mas ele serviu como o grande exemplo de estética e organização da esquerda até o golpe contra Mossadegh (1953). Inclusive, foi um setor do Tudeh, infiltrado no exército, que denunciou a primeira tentativa de golpe, permitindo que ela fosse anulada. Após o sucesso do golpe posterior, eles foram duramente reprimidos, houve execuções em massa e os sobreviventes fugiram para a União Soviética, Paquistão e Afeganistão.
Durante quase todo o reinado Pahlavi, os membros do maior partido de esquerda estavam no exílio. Os outros partidos, como o Fadaian, viviam sob constante ameaça. O regime Pahlavi era uma ditadura de fachada liberal: você só tinha problemas se tivesse envolvimento político — o que, na época, quase sempre significava ser de esquerda. Quem tinha liberdade de organização eram as mesquitas e os religiosos.
Recentemente, saiu um relato de um ex-diretor da SAVAK (o serviço secreto do Shah) afirmando que eles investiram na publicação dos livros de Khomeini na época, pois acreditavam que ele serviria para contrabalancear e tirar o poder da esquerda. O que não calcularam é que, na ausência de qualquer outra oposição, ele se tornaria a única alternativa séria. Quando o mandaram para o exílio, o poder do xiismo serviu como um unificador: mesmo de longe, sua influência chegava através dos aiatolás que traziam seus recados para dentro do país.
Aconteceu o que ninguém imaginava: quando Khomeini chegou ao aeroporto, muitos não sabiam que aquilo se tornaria uma “Revolução Islâmica”. Minha mãe, como uma jovem revolucionária contra o Shah, conta que só percebeu que a revolução não era mais “deles” durante o discurso de Khomeini no cemitério de Teerã, logo no primeiro dia.
O processo foi gradual até que, em 1980, anunciaram que o véu seria obrigatório em prédios públicos e instituições. Muitas mulheres de classe média e média-alta protestaram durante a semana do 8 de março. Infelizmente, o corpo da esquerda dizia que aquilo era um “atentado à revolução”, um tema de “classe média alta” que não afetava a mulher trabalhadora. Aquela manifestação foi oprimida com a colaboração da esquerda. Por isso, os protestos de 2022 foram também um grande mea culpa e uma reparação histórica dos sobreviventes da esquerda às mulheres de 1980, que foram isoladas e esquecidas. É como a fala de Brecht: pensaram que a opressão não era com eles, até que ela chegou na casa de todo mundo.
Mesmo os membros do Tudeh presos após 79 acreditavam em um “mal-entendido” e que seriam libertados por serem aliados da revolução. Há relatos de que, mesmo após as primeiras execuções, alguns ainda diziam que eram apenas rumores. É uma tragédia anunciada que espero que sirva de lição para a esquerda no resto do mundo.
Antes de morrer, Khomeini emitiu uma fatwa orientando a execução de todas as pessoas de esquerda presas. Historiadores e organizações de Direitos Humanos afirmam que cerca de 5.000 pessoas foram executadas sumariamente em 1988. Foi terrível: os homens eram enforcados e as mulheres chicoteadas cinco vezes por dia para renunciarem ao marxismo ou ao ateísmo; se não o fizessem, morriam no processo. Um dos juízes desse processo, Ebrahim Raisi, veio a se tornar presidente do país e morreu recentemente em uma queda de helicóptero.
Gostaria que você falasse sobre isso e sobre o movimento das famílias de Khavaran, o cemitério onde foram localizados corpos dessas pessoas executadas. Isso me lembra muito as Mães da Praça de Maio na Argentina. Como se formou esse movimento e qual a situação dele hoje?
Dizem que quando Khomeini entendeu que seu câncer estava avançado, decidiu resolver três pontos: encerrar a guerra Irã-Iraque, definir seu substituto (expulsando o Ayatollah Montazeri, que criticava o poder excessivo do Líder) e eliminar os presos políticos. Ele sabia que ninguém depois dele teria autoridade para lidar com isso.
Ele estabeleceu uma pergunta administrativa de caráter religioso: “Você é muçulmano ou comunista?”. Na linguagem teocrática, ser comunista significa “estar em guerra contra Deus”, o que acarreta pena de morte. Isso foi uma segunda onda de execuções.
Falo agora como família de sobreviventes. Durante um verão, logo após bombardeios em Teerã, as prisões foram isoladas. Cortaram visitas e dividiram as celas para impedir qualquer comunicação. Os presos, de olhos vendados, eram levados a uma mesa onde clérigos faziam a pergunta. Quem respondia que não era muçulmano era levado ao enforcamento. As famílias não sabiam de nada. Pouquíssimos conseguiram uma última ligação para se despedir.
O movimento de Khavaran começou quando se soube de um terreno afastado em Teerã, próximo a um cemitério de praticantes da fé Bahá’í (também perseguidos). Um padre teria avisado familiares que caminhões chegavam à noite para enterrar corpos em valas comuns. Os familiares foram ao local, cavaram com as próprias mãos e acharam os corpos de seus entes queridos, ainda com suas roupas e objetos. Tiraram fotos para provar ao mundo antes de enterrá-los novamente.
Até hoje, o Estado não assume o massacre. Nenhuma certidão de óbito traz a causa da morte e as cerimônias são proibidas. O terreno de Khavaran parece um deserto, com algumas pedras marcando onde estão os corpos. Os familiares se juntam em datas específicas para cantar e colocar flores, mas a polícia frequentemente fecha os portões. Houve até ameaças de transformar o local em plantação para apagar a memória. Na Suécia, conseguiram condenar Hamid Noury, um dos operadores das execuções, à prisão perpétua, mas ele foi devolvido ao Irã em uma troca de prisioneiros e hoje está livre. É muito triste pensar que as mães desse movimento estão morrendo uma a uma sem ver a justiça ser feita.
Você mencionou as mobilizações de 2022. Qual a situação das mulheres hoje no Irã?
As mulheres foram o primeiro alvo do regime, mesmo quando suas pautas eram ignoradas pela esquerda em 1980. O corpo feminino sempre foi atacado, mas as mulheres foram quem melhor resistiram, primeiro contra os “Comitês” nos anos 80 e depois contra a “Polícia Moral”.
Quando Mahsa Jina Amini foi assassinada pela Polícia Moral, foi um fogo que se espalhou pelo mundo. Ela poderia ser qualquer uma de nós; inclusive, no dia em que foi presa, ela estava usando roupas consideradas muito cobertas para os padrões de Teerã. O pensamento geral foi: “Se até ela pode morrer nas mãos deles, todas nós podemos”.
Jina era curda. No seu enterro em Saqqez, escreveram em seu túmulo: “Querida Jina, você não morrerá, seu nome se tornará nosso símbolo”. As mulheres curdas repetiram o slogan que tem origem na luta curda: Jin, Jiyan, Azadi (Mulher, Vida, Liberdade). Isso se uniu a 41 anos de resistência contra o véu obrigatório.
No papel, nada mudou. O “apartheid de gênero” continua: ainda é crime não usar o véu, carros são confiscados e serviços públicos podem ser negados. Mas, na prática, a desobediência civil tornou-se comum. Hoje, no Irã, é visível o grande número de mulheres que circulam sem o véu como um ato político cotidiano.
O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou atacar o Irã alegando preocupação com as execuções de manifestantes — o que soa estranho vindo dele. Sabemos que o interesse imperialista nunca é humanitário ou sobre liberdades democráticas. Qual a opinião do povo iraniano sobre essas agendas externas e intervenções militares?
Meu posicionamento sobre intervenção militar é um “não” categórico. Ainda no contexto iraniano, temos um Estado extremamente militarizado. Meu posicionamento não é baseado na ideia de que morre mais gente em uma guerra do que sob o regime iraniano; afinal, certamente morrem muito mais pessoas sob o regime atual do que em uma guerra contra um governo estrangeiro. Minha posição é contra a intervenção militar porque ela nunca será humanitária; será motivada por interesses econômicos e geopolíticos.
Além disso, com figuras como Trump, não há certeza de que o regime seria removido. Já imaginou o filho de Khamenei ou o ex-presidente Rouhani, que fazem parte da oligarquia, chegando ao poder? Seria trocar seis por meia dúzia. O paralelo com a Venezuela também não é preciso; o regime iraniano é muito diferente, atuando como o último do eixo de resistência xiita. Desta vez, parece que a intervenção militar só não ocorreu porque os países vizinhos árabes (sunitas) se opuseram.
A intervenção militar não faz parte dos projetos que apoio. Não escolho entre extremas-direitas, sejam elas “islamofascistas” ou “comerciantes americanos”. Pela primeira vez, calculo quantos corpos precisam cair para que haja mudança. Nosso posicionamento ético deve olhar para os rostos de quem morre em cada levante. Se o único jeito de sobreviver é morrer, isso não pode ser uma posição aceitável, especialmente vinda de mim, que estou na diáspora.
O regime iraniano se diz anti-imperialista num dia, mas no outro se une aos EUA para combater o Daesh ou vira amigo do Talibã. Eles não têm posição fixa; fazem qualquer coisa para se manter no poder. Se tivessem certeza de que uma aliança com Trump os manteria no poder, eles a fariam.
Quem morre sob esse regime? Não sou eu, que apesar da opressão, ainda tenho privilégios. Quem morre é a classe trabalhadora: o menino de chinelo que sai do trabalho para a rua; o trabalhador da farmácia; o operário árabe; o Curdo que morre congelado nas montanhas entre o Iraque e o Irã fugindo de tiros; ou o Baluchi (existem quase 1 milhão deles sem certidão de nascimento) que vive do tráfico de gasolina para não passar fome.
A Mahsa Amini ficou conhecida assim, mas seu nome curdo era Jina. O regime obriga meninas curdas a terem nomes persas e proíbe línguas regionais nas escolas. É um regime fascista contra etnias, imperialista na região e capitalista no mundo. A esquerda que defende esse regime fora do Irã deveria saber: se vocês fizessem uma greve de motoboys ou um protesto trabalhista em Teerã, o regime atiraria em vocês.
Você mencionou que não quer trocar uma ditadura por outra. Na oposição, além de liberais e a esquerda, há monarquistas.
Sobre a monarquia: há dez anos a situação era diferente. O regime, estrategicamente, ridiculariza os monarquistas como “velhos sem noção” para criar conflito na oposição e anular outras alternativas, tal qual fez o regime do Xá contra a esquerda. Porém, como o Estado continuou aniquilando qualquer outra forma de pensamento organizado, criou-se um vácuo.
O “príncipe herdeiro”, que vive nos EUA há 47 anos, acabou virando a única alternativa visível para muitos, impulsionado por TVs em Londres e Los Angeles que propagam um saudosismo da liberdade individual anterior a 1979. Para um iraniano médio de 33 anos, isso funciona como um refúgio psicológico diante da falta de opções.
Encerro citando o poeta Saadi: “Ir ao deserto é melhor do que ficar sentado. Se eu não chegar ao meu desejo, no mínimo farei o que puder”. Tem um rapper iraniano que diz que uma nova revolução é a única solução. Eu sei que o Brasil é muito distante e muitas pessoas de esquerda daqui não concordam comigo, mas temos que ter esperança nessa luta, que é uma questão até mesmo de sobrevivência. Agradeço muito pelo convite; me senti acolhida e em casa.