Uma data para celebrar: 208 anos do nascimento de Karl Marx

Ana Godoi
Uma data para celebrar: 208 anos do nascimento de Karl Marx
Karl Marx, nascido em Tréveris, na Alemanha

5 de maio de 1818, Tréveris, Alemanha. Nessa data, nesse local, nascia Karl Marx. 208 anos nos separam desse momento, mas, acreditamos, temos muito o que lembrar e, principalmente, celebrar nesta data.

Nos dias de hoje, muito se fala sobre a distância que nos separa do Século XIX, e como o pensamento de Marx já não diz respeito ao que vivemos e a dinâmica de nossa sociedade. Exemplo emblemático são as declarações do ex-Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que se diz admirador do pensador alemão, porém, precisa afirmar que essa elaboração teórica diz respeito aos séculos passados. Nesse mesmo caminho, novas teorias dão lugar ao marxismo nas explicações sociais, reafirmando que, no Século XXI, não há mais espaço para conceitos “antiquados” como luta de classes, sujeito histórico, proletariado ou mesmo para a ideia de uma saída revolucionária para os problemas que vivemos.

E parece bem razoável pensar assim. Afinal, nesse momento, o mundo via o surgimento da máquina a vapor enquanto nós, hoje, debatemos se a IA é de fato inteligência ou não. Nesse percurso de dois séculos, o desenvolvimento social foi impressionante. Mas será mesmo que conformamos uma nova sociedade e com isso, o que Marx elaborou já não nos serve mais, levando-nos à necessidade de elaborar o Capital do Século XXI? Acreditamos que não. Acreditamos que tais formulações encobrem elementos que mudam a nossa forma de compreender a sociedade humana e são elas que queremos trazer à tona novamente. E com isso, reafirmar Marx para o século XXI.

Atualidade de Marx

É verdade que, tecnicamente, avançamos e muito, possibilitando ganhos sociais inimagináveis. Hoje conversamos com qualquer pessoa, em tempo real, em qualquer parte do mundo. Lemos notícias diárias sobre a disputa robótica que China e EUA travam além da guerra dos chips, que impactam na questão energética e domínio dos minerais críticos. Os computadores quânticos se mostram como o novo salto tecnológico e vislumbramos um futuro em que máquinas inteligentes vão dominar a produção. Sendo assim, como podemos comparar momentos tão distintos no tempo, ou mesmo usufruir de elaborações que se assentavam em um sociedade que via o tear mecânico como o mais avançado e na qual trabalhadores sobreviviam com três batatas diárias como alimentação?

O que nos interessa não é a mera comparação entre o Século XIX e o Século XXI. O que queremos mostrar é que se fizermos a pergunta certa, o que está oculto nessa análise vem à tona e é esse segredo revelado por Marx há dois séculos que nos interessa diretamente. Houve mudanças gigantescas, mas a pergunta não é sobre o desenvolvimento técnico, mas sobre quais relações entre os homens esses avanços técnicos se desenvolveram. Deixemos mais transparente o que queremos dizer. Sob todo esse desenvolvimento técnico, existem relações entre pessoas, entre indivíduos, que sustentam o processo de avanço social. E são exatamente essas relações as que mais interessam em nossa discussão. Isso porque a forma com que essas relações se estabelecem são as mesmas desde o Século XIX (para sermos ainda mais rigorosos, até antes mesmo dos Século XIX).

As sociedades humanas se conformam a partir de relações entre os seres humanos e são essas relações que dão a forma, dão a cara, dão o jeito a sociedade em que vivemos.

Revelando a dinâmica do capitalismo

O fato dessas relações no capitalismo estarem ocultas de nossa percepção, de nossa visão, deixam as coisas mais turvas e, consequentemente, nos exigem mais teoria para compreendermos os seus fundamentos. Por isso, a teoria do Marx ainda é uma ferramenta poderosíssima. Ele desnudou exatamente essa dinâmica da sociedade capitalista: de que, de um lado, temos uma massa de pessoas que se sustentam, que sobrevivem, através da renda de seu trabalho, ou seja, que recebem salário pelo trabalho realizado. Que esse trabalho é o produtor de toda a riqueza social.

E, de outro, temos grandes proprietários, que concentram em suas mãos as grandes fábricas, como produtores de petróleo, automóveis ou mesmo a indústria de base, como siderurgias e metalurgias, e se apropriam da riqueza produzida por serem eles os seus donos.

E toda a dinâmica do mercado, como títulos da dívida, sistema financeiro, nada mais é do que a redistribuição dessa riqueza produzida em uma ponta da cadeia, aos agentes proprietários de outro. Sim, Marx também investigou o sistema financeiro e nos deixou fundamentos importantes sobre seu funcionamento.
Assim, a forma com que nos relacionamos está mediada por esse lugar distinto que ocupamos dentro das relações constitutivas da sociedade.

Explicar porque acabamos nos organizando socialmente dessa forma e quais suas consequências é das tarefas a mais importante, pois ela desnuda o funcionamento de toda nossa sociedade. E por isso, temos certeza que Marx ainda é, dos autores, um dos mais relevantes, já que sua obra se assenta no desdobramento dessa pergunta. E mais. Ao desnudar as bases constitutivas de nossa sociedade, ao trazer à tona essas relações ocultas e explicar sua natureza, pode também desvelar como podemos fazer para superar tamanha desigualdade, consequência desses lugares tão distintos que ocupamos no mundo capitalista.

Explicar o mundo para mudá-lo

Afinal, se as sociedades humanas se constituem por relações entre pessoas, se essas mudam no tempo e em nossa sociedade elas têm características específicas, então, precisamos de novas relações sociais para construir um mundo diferente, sem as mazelas desse mundo em que vivemos. Só uma revolução pode construir novas relações entre os homens e, com isso, uma nova sociedade. Portanto, a revolução não aparece em seu pensamento como uma vontade ou um desejo vindo de suas inquietações pessoais, ela emerge como conclusão da análise do movimento da própria sociedade, das próprias relações que produzimos e reproduzimos todos os dias de nossas vidas.

E aprendemos com ele, não apenas que a revolução é a única saída para as mazelas de nossa sociedade, mas que ela é a única esperança de dias melhores e de um futuro digno para a humanidade. Por isso, brindemos ao senhor Marx!

Conheça o canal da Ana Godoi

 Assine
 Assine