Ivan Moraes, pré-candidato pelo PSOL ao governo de Pernambuco, fez uma série de postagens cujo eixo é claro. Para ele, João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD), ao não defenderem publicamente a reeleição de Lula, estariam "fortalecendo a extrema direita". A tarefa do momento, conclui, é garantir a reeleição do presidente e, com isso, atropelar a extrema direita em Pernambuco. Quem não soma a essa frente, ainda que critique Lula, estaria na prática jogando contra a democracia.
É um argumento que vale ser enfrentado. A extrema direita brasileira é, de fato, uma ameaça. Trata-se de um setor golpista, com um projeto de desmonte do país, que organizou o 8 de janeiro, que ataca abertamente direitos sociais, serviços públicos e as condições mais básicas de vida da maioria. É preciso levar isso a sério, sem dúvidas. Mas o problema não está no diagnóstico, está na conclusão política que Ivan tira dele. Vamos por partes.
A crítica que vira ritual
Comecemos pelo ponto que mais incomoda, porque é o que melhor descreve a posição de Ivan. É verdade que Ivan tem críticas reais a Lula. Aponta a privatização, aponta a conciliação, aponta o que precisa apontar. Mas na hora decisiva, capitula e o apoia. A crítica do ano todo não muda nada na conclusão: o voto é o mesmo que seria sem crítica nenhuma.
Por que ele apoia, então, mesmo criticando? Porque a lógica do mal menor manda apoiar. Diante da ameaça da extrema direita, todo o resto vira detalhe a ser engolido em nome de derrotar o inimigo maior. O raciocínio parece sensato, mas tem um custo que recai inteiro sobre os trabalhadores. Quando o apoio é garantido de antemão, o governo tem passe livre para privatizar, fazer ajuste e conciliação sem pagar preço político nenhum. A crítica que não se converte em independência política é uma crítica que o governo pode ignorar com tranquilidade, porque sabe que, no fim, o voto vem do mesmo jeito. É o "mal menor" transformado em regra permanente. E "mal menor" permanente não passa de uma derrota administrada, parcelada em quatro anos, com setores da esquerda assinando embaixo a cada eleição enquanto a conta chega na casa de quem vive do próprio trabalho.
A ameaça existe, mas a estratégia não para de pé
A extrema direita é perigosa, já dissemos. A divergência começa quando Ivan transforma esse diagnóstico numa receita única para fechar fileiras atrás de Lula e tratar qualquer outra posição como deserção. Reconhecer que a extrema direita é perigosa não obriga ninguém a concluir que a única resposta possível é apoio incondicional a um governo de conciliação de classes. Esse é um salto, não uma conclusão.
E é um salto que a história já desmentiu. A extrema direita não caiu de paraquedas em 2018, nem nasceu embalada a vácuo. Cresceu no terreno preparado por anos de gestão que frustrou as expectativas populares. Anos de ajuste fiscal, reforma da previdência, conciliação com o andar de cima, mudanças que não vieram. Quando a esquerda no governo administra o capitalismo e sua crise jogando a conta nas costas dos trabalhadores, é a direita radical que embolsa a revolta e o discurso de ser anti sistema. Repetir a mesma fórmula esperando resultado diferente não é antifascismo. É apostar de novo no que já deu errado.
Se o que importa é reeleger Lula, então tanto faz João ou Raquel?
Aqui está onde a lógica do Ivan se vira contra ele. Se o critério derradeiro é a reeleição de Lula, e se quem não defende essa reeleição "fortalece a extrema direita", então a régua é a mesma para João Campos – que além de prefeito de Recife é presidente do PSB – e para Raquel Lyra. Os dois deixam de defender abertamente Lula. Os dois fazem cálculo eleitoral. Pela própria lógica de Ivan, são equivalentes: dois pesos da mesma balança. Mas ninguém em Pernambuco acredita que João Campos e Raquel Lyra sejam a mesma coisa. Embora defendam um projeto burguês muito parecido, têm trajetórias, bases e atuações diferentes. Se a régua não consegue distinguir os dois, é porque está curta demais.
Quando se reduz toda a política a um único eixo, "com Lula ou contra Lula", "com a direita ou contra a direita", perde-se a capacidade de enxergar o que está de fato em disputa: o que cada gestão fez com a água e a privatização da Compesa, com o serviço público, com o dinheiro de quem trabalha e com o transporte público, como é o caso da privatização do Metrô do Recife. A independência de classe é o que permite avaliar cada um pelo que faz, e não pela casa que ocupa no tabuleiro presidencial.
A contradição que Ivan vê nos outros é também a dele
Ivan aponta a incoerência do presidente nacional do PSB, que exige "exclusividade" de Lula enquanto mantém apoios bolsonaristas na Câmara e no interior de Pernambuco. A observação está correta.
O problema é que o mesmo bisturi corta para o lado dele. Se o critério é coerência entre discurso antifascista e prática política, então vale perguntar o que sustenta um governo que privatizou a Compesa, entregando a água dos pernambucanos à iniciativa privada, e que privatizou o Metrô do Recife. Pergunte-se o que sustenta um governo que mantém o teto de gastos com outro nome e que governa com o Centrão, o mesmo Centrão que viabilizou Bolsonaro e segue cobrando a conta. A "frente ampla" que Ivan defende não é bloco de pureza democrática nenhum. É uma coligação que abriga exatamente as forças cujo oportunismo ele denuncia nos adversários locais.
E aqui está o ponto que precisa ficar claro. O argumento de Ivan não falha só quando aplicado a João e Raquel. Ele falha também, e principalmente, quando se vira contra quem quer construir uma alternativa. Porque a nossa crítica a Lula não é o desabafo do ano que termina em apoio. É oposição. Coerente justamente porque não abrimos mão da independência de classe. Não criticamos o governo para depois reforçá-lo nas urnas incondicionalmente. Criticamos porque defendemos outro caminho e disputamos esse caminho na prática. É essa coerência entre dizer e fazer que falta na posição de Ivan. E não é coerência por capricho de pureza, é que só uma oposição de esquerda que não se dissolve no governo pode oferecer à população uma saída de verdade para a crise, que é a única forma de retirar o terreno sob os pés da extrema direita. Sem essa oposição, a revolta popular continua sem para onde ir, a não ser para o colo de quem se vende como anti sistema.
"Fortalecer a extrema direita" virou um curinga que encerra o debate
O movimento mais escorregadio da fala de Ivan é este. Quem não adere é acusado de fortalecer o inimigo. Raquel "fortalece os extremistas" quando se faz de isenta. João "fortalece a extrema direita" quando chama a governadora de bolsonarista. A lógica é quase imbatível, porque transforma qualquer posição diferente da dele em colaboração com o fascismo.
É um argumento elegante, mas inócuo, porque é fechado em si mesmo. Se discordar de Lula é fortalecer a extrema direita, então a existência do próprio PSOL como partido independente já seria suspeita. Com essa régua, não sobra espaço para nenhuma crítica de esquerda ao governo, e uma esquerda que não pode criticar o governo, de colaboração de classes, vale lembrar, deixou de ser força autônoma para virar correia de transmissão. Antifascismo de verdade não pode ter como preço o silêncio sobre privatização, ajuste e conciliação. Quando o medo do inimigo é usado para blindar o governo de toda crítica ou para fazê-la de maneira formal, o que se fortalece não é a democracia. É a ideia de que não existe alternativa, que é justamente o que a extrema direita quer que a população acredite.
A alternativa existe, e tem nome
Ivan pergunta qual seria a alternativa para “deter o fascismo” neste ano. A pergunta é legítima.
A alternativa é a independência política da classe trabalhadora. Disputar a revolta popular com programa próprio em vez de entregá-la de bandeja a quem só oferece mais do mesmo. Enfrentar a extrema direita pela raiz, atacando as condições materiais que a alimentam, e não só o seu rosto eleitoral mais visível. A esquerda que se dissolve numa frente subordinada a um governo burguês não derrota a extrema direita. Ela administra a própria irrelevância e prepara, sem querer, a próxima onda autoritária. Já foi assim antes. Pode ser de novo.
Querer vencer o bolsonarismo nas urnas é legítimo, ninguém aqui diz o contrário. Mas confundir esse passo com a entrega da independência de classe é um erro que já saiu caríssimo. Derrotar a extrema direita exige mais do que trocar um governo por outro. Exige construir uma força que dê resposta concreta a quem está sendo esmagado, e essa força não se constrói calando a própria voz, tampouco se resume às eleições burguesas.
O debate fechado entre conservar e destruir
Há ainda um problema mais de fundo, e ele explica por que essa armadilha se repete. A extrema direita assumiu o papel de anti sistema. Ela quer destruir tudo o que está aí: direitos, conquistas, serviços, a própria ideia de coletivo. É essa a saída que defendem para a crise capitalista. Deixar morrer.
Diante disso, a esquerda institucional liderada pelo PT se apresenta como a força da "resistência". Sim, resistir e derrotar a ofensiva da ultradireita é necessário. O problema é que isso só é insuficiente, e por uma razão que precisa ser dita com todas as letras. O PT no governo não resiste, nem sequer mantém as coisas como estão. Ele administra o retrocesso a conta-gotas. Aplica um projeto de país a serviço da burguesia, com privatização, ajuste e conciliação, e é exatamente esse projeto que produz as condições sociais, econômicas e políticas das quais a ultradireita se alimenta. Quem chama de "resistência" a gestão que precariza a vida da maioria está, na prática, cavando o buraco por onde a extrema direita avança. Não é só que a resistência seja pouca. É que, do jeito que está, ela trabalha contra si mesma.
Por isso o debate nacional acabou se fechando, curiosamente, em duas posições: uma reacionária, que quer demolir, e uma conservadora, que quer preservar um modelo que já não serve a quem vive de salário. E aí está a pergunta que ninguém dos dois lados responde: onde fica o projeto de superação deste modelo de sociedade? Conservar o que está aí é conservar a desigualdade, a precarização, a água e o metrô na mão do mercado. Destruir o que está aí, no projeto da extrema direita, é destruir justamente o que sobrou de proteção para os de baixo. Quem só tem essas duas opções no cardápio está condenado a perder das duas formas. A independência de classe é o que recupera a terceira posição, a única que interessa à maioria: a de não conservar nem demolir, mas superar. Quando a esquerda abre mão dessa terceira posição para virar fiadora do "resistir", ela entrega de graça o lugar do anti sistema para quem vai usá-lo contra o próprio povo.
A saída tem nome: Hertz
O debate que Ivan abriu é exatamente o que a esquerda precisa ter, em alto e bom som. A pergunta que importa não é "com Lula ou contra Lula". É como derrotar a extrema direita de um jeito que não nos deixe, daqui a quatro anos, exatamente no mesmo beco, pedindo de novo que todo mundo abra mão de tudo em nome do mal menor.
A independência de classe não é luxo de purista nem birra sectária. É a única estratégia que ataca o problema pela raiz. E é justamente por levar a sério a ameaça autoritária que a gente se recusa a combatê-la com as mesmas armas que já falharam na nossa mão.
É por isso que nessas eleições o PSTU apresentará candidaturas com independência política e de classe. A pré-candidatura à presidência de Hertz é exatamente o instrumento para a construção dessa alternativa. Uma candidatura que não pede licença ao governo nem se dissolve na frente ampla, que enfrenta a extrema direita pela raiz e ao mesmo tempo não abre mão de combater a privatização, o ajuste e a conciliação que abriram caminho para ela.
Construir a candidatura de Hertz é recusar o falso dilema entre conservar e demolir. É a construção de um projeto socialista para nosso país, que combata as oligarquias e rompa com as engrenagens do sistema capitalista. É afirmar, na prática e não só no discurso, que dá para combater o bolsonarismo sem assinar embaixo do projeto que o engendrou. É essa a alternativa que Ivan diz não existir ou não quer construir.