Este é o primeiro junho sem Wilson Honório (1961-2025). Escrevo este texto não apenas para lembrar de um companheiro que nos faz falta, mas para resgatar uma trajetória militante que deixou marcas profundas na construção da luta LGBTI+ brasileira, na organização das LGBTIs revolucionárias, na luta antirracista e na construção de uma alternativa socialista para os explorados e oprimidos.
Wilson foi um dos pioneiros de uma geração que compreendeu que a luta contra a opressão sexual e de gênero não podia ser separada da luta mais ampla da classe trabalhadora. Em uma época em que muitos setores da esquerda ainda tratavam a pauta LGBTI como algo secundário, ele ajudou a construir uma elaboração política que coloca a defesa das LGBTIs como parte integrante da luta socialista.
Essa compreensão não ficou apenas no terreno das ideias. Wilson esteve presente em momentos decisivos da história do movimento LGBTI brasileiro. Na primeira Parada do Orgulho de São Paulo, quando o evento ainda dava seus primeiros passos e enfrentava preconceitos e resistências de todos os lados, o PSTU era o único partido político presente em sua organização e apoio. Naquele momento histórico, Wilson falou em nome do partido em um simples carro de som improvisado em uma Kombi.
Desde a fundação do PSTU, em 1994, Wilson também desempenhou um papel fundamental na estruturação da Secretaria Nacional LGBTI do partido. Foi parte de um esforço persistente para organizar militantes LGBTIs, formar quadros e desenvolver uma política revolucionária para o combate às opressões. Seu trabalho ajudou a consolidar uma tradição que compreende que a luta contra a lgbtfobia não é uma tarefa acessória, mas uma frente estratégica da luta socialista.
COMBATE À MERCANTILIZAÇÃO DA LUTA
A memória das lutas e o espírito de Stonewall
Outra de suas grandes contribuições foi a formação política. Por meio de inúmeros artigos publicados no portal do PSTU e no jornal Opinião Socialista, Wilson ajudou a recuperar e divulgar a história da resistência LGBTI no Brasil e no mundo. Escreveu sobre revoltas, organizações, conquistas e enfrentamentos que muitas vezes eram apagados da memória coletiva. Com isso, contribuiu para que novas gerações de militantes conhecessem as raízes históricas de sua própria luta.
Wilson também nos ensinou uma lição que se tornou uma marca de sua atuação: no nosso arco-íris, o vermelho é a cor mais quente. Não porque diminuísse a importância das bandeiras da diversidade, mas porque insistia que a libertação plena das LGBTIs exige enfrentar as estruturas que produzem e reproduzem a opressão. Para ele, a luta LGBTI+ encontrava sua maior força quando caminhava ao lado das lutas da classe trabalhadora.
Por isso, nunca deixou de criticar a transformação mercadológica que atingiu as paradas do Orgulho ao longo dos anos. Denunciou a crescente influência de empresas, governos e interesses comerciais sobre espaços que nasceram da rebeldia e da resistência. Mas sua resposta nunca foi o abandono das ruas. Pelo contrário, defendia que era preciso estar presente, disputar politicamente esses espaços, denunciar seus desvios e resgatar o espírito original de Stonewall. Um espírito de enfrentamento, organização e luta contra todas as formas de opressão.
Opressão une, classe divide
Como marxista revolucionário, deixou uma elaboração que continua atual. Ensinava que a opressão une as LGBTIs, mas que a sociedade de classes cria interesses distintos dentro dessa mesma comunidade. Insistia que o principal aliado das LGBTIs são os trabalhadores e trabalhadoras, explorados e oprimidos pelo mesmo sistema que alimenta o preconceito, a violência e a exclusão. Essa compreensão marcou de modo profundo gerações de militantes e ajudou a consolidar uma perspectiva socialista para a luta LGBTI brasileira.

FAREMOS PALMARES DE NOVO
A luta negra e o combate ao mito da democracia racial
Compreender Wilson apenas como um dirigente da luta LGBTI+ seria reduzir a dimensão de sua trajetória. Sua elaboração política sempre procurou demonstrar que as opressões não existem de forma isolada. Como homem negro, intelectual marxista e militante revolucionário, dedicou grande parte de sua vida à luta contra o racismo e à construção do movimento negro.
Wilson foi uma referência na organização da luta antirracista. Participou da fundação do Núcleo de Consciência Negra da USP e, ao longo dos anos, tornou-se uma das principais referências do Quilombo Raça e Classe. Ajudou também a construir a Secretaria de Negros e Negras do PSTU, contribuindo para que o combate ao racismo ocupasse um lugar central na elaboração política do partido.
Sua contribuição teórica para essa luta encontrou expressão em artigos, cursos, palestras e também em sua produção bibliográfica. Entre seus trabalhos mais importantes está o livro Mito da democracia racial: um debate marxista sobre raça, classe e identidade, publicado pela Editora Sundermann.
Na obra, Wilson desenvolve uma análise marxista sobre a questão racial brasileira, desmontando a ideologia da chamada democracia racial e demonstrando como o racismo foi historicamente construído para sustentar a exploração e as desigualdades produzidas pelo capitalismo brasileiro.
Wilson insistia que o capitalismo brasileiro foi erguido sobre séculos de escravidão e que, por isso, o racismo não é um acidente da nossa história, mas uma ferramenta fundamental para dividir os trabalhadores e aprofundar a exploração. Da mesma forma que ensinava que não existe libertação LGBTI+ pelo mercado, também combatia a ilusão de que negros e negras poderiam alcançar sua emancipação pela ascensão individual de uma pequena minoria.
Por isso, sua atuação política sempre buscou unir essas lutas. Sua militância ajudou gerações a compreender que a luta contra o racismo, a lgbtfobia e a exploração capitalista não são caminhos paralelos, mas frentes inseparáveis de uma mesma batalha.

EXPLORADOS E OPRIMIDOS DE TODO O MUNDO
Internacionalista por convicção
A contribuição de Wilson não se limitou ao Brasil. Como militante internacionalista da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), sempre compreendeu que a luta das LGBTIs, da população negra e da classe trabalhadora não pode ser pensada dentro das fronteiras nacionais.
Wilson defendia que a opressão contra as LGBTIs e a população negra assume formas distintas em cada país, mas possui raízes comuns em um sistema capitalista que se apoia em diferentes mecanismos de exploração e opressão para manter seu domínio. Enfatizava que a solidariedade internacional não era apenas um princípio moral, mas uma necessidade política.
Sua atuação ajudou a construir uma visão internacionalista das lutas dos explorados e oprimidos, conectando as experiências de resistência das LGBTIs brasileiras, do movimento negro e da classe trabalhadora às batalhas travadas em todo o mundo.
Essa perspectiva internacionalista também atravessou sua elaboração teórica. Em seus escritos e em O mito da democracia racial, procurou demonstrar que a resistência negra não pertence apenas ao passado, mas constitui uma fonte viva de inspiração para as lutas do presente. Via em Palmares não apenas um capítulo da história brasileira, mas uma expressão universal da resistência dos oprimidos.
Uma das frases que sintetizam sua visão política permanece muito atual: “Faremos Palmares de novo”. Não como uma lembrança nostálgica do passado, mas como um chamado permanente à organização, à rebeldia e à luta.
Wilson acreditava profundamente em uma ideia que acompanhou toda sua trajetória política: a classe trabalhadora não tem pátria. Defendia que as LGBTIs da classe trabalhadora, os negros e negras e todos os setores oprimidos encontrariam sua maior força não em projetos de conciliação com o sistema, mas na unidade internacional dos explorados e oprimidos.
WILSON PRESENTE!
O legado de Wilson
Wilson ajudou a construir uma tradição política que recusa escolher entre a luta contra a opressão e a luta de classes. Para ele, ambas caminham juntas. Sua militância demonstrou que defender os direitos das LGBTIs exige enfrentar o capitalismo, assim como a luta contra o racismo e a luta pelo socialismo precisam incorporar, de forma consequente, o combate a todas as opressões.
Resgatar a trajetória de Wilson Honório é, portanto, resgatar uma parte importante da história da luta LGBTI, negra e socialista em nosso país. Uma história feita de organização, formação política, produção teórica, presença nas ruas, internacionalismo e compromisso revolucionário.
Wilson nos ensinou que, no nosso arco-íris, o vermelho é a cor mais quente. Mas nos ensinou também que nele está presente a história de Palmares, das revoltas negras, das rebeliões contra a opressão e da resistência dos explorados em todo o mundo.
Sua vida foi dedicada a demonstrar que a luta das LGBTIs, da população negra e da classe trabalhadora possui um inimigo e um destino comuns. É esse legado que permanece vivo: a construção de uma sociedade socialista, internacionalista, sem racismo, sem lgbtfobia e sem qualquer forma de exploração e opressão.