O novo álbum de Anitta, Equilibrium – Parte 1 e 2, é um tapa na cara do Brasil que pula sete ondas e veste branco todo fim de ano, mas odeia a macumba, o candomblé e o catimbó. No país onde artistas como Cláudia Leitte tentam arrancar Iemanjá e os orixás das músicas e da cultura brasileira, Anitta vai lá e mostra a nossa verdadeira raiz, o esteio da nossa cultura e da nossa brasilidade, que não caiu de paraquedas com a branquitude católica cristã, mas nasceu da resistência, da ciência, da magia e da sabedoria popular dos povos indígenas e negros.
Anitta ousou. Depois de colocar o funk brasileiro no cenário internacional, com muita coragem fez uma aposta de descer o funk à terra, às suas raízes. E, em vez de seguir pelo caminho da ostentação que muitas vezes é imposto como única possibilidade de ascensão dentro do capitalismo, mostrou o poder da humildade, da ancestralidade, da ancianidade e da filosofia que aprendemos nos terreiros de todo o Brasil. Uma filosofia que nos ensina sobre comunidade, sobre respeito aos mais velhos, sobre a força da memória e sobre a importância de saber de onde viemos para decidir para onde queremos ir.
E talvez seja justamente isso que incomode tanto. Porque falar de ancestralidade, de terreiro, de orixás, de encantados, de caboclos e da ciência dos povos tradicionais é também falar de um Brasil que a elite insiste em esconder. É lembrar que muito daquilo que somos foi construído pelas mãos e pela resistência de povos que essa mesma elite tentou apagar, criminalizar e silenciar. É reconhecer que a cultura brasileira não nasceu apenas nos salões das elites, nas igrejas ou nos espaços onde a elite escravocrata sempre quis contar a história oficial. Ela nasceu nas aldeias, nos quilombos, nos terreiros, nas periferias e nas comunidades onde o povo transformou sofrimento em cultura, perseguição em resistência e ancestralidade em força para continuar existindo.
A memória dos povos indígenas e de terreiro são um chamado para construir um Brasil diferente do Brasil que a elite ama, mas que o povo odeia: o Brasil da pobreza, do desemprego, da fome, da insegurança social, da escala 6x1, da precarização do trabalho e do adoecimento mental. Os terreiros e a ciência do candomblé e dos catimbós brasileiros se tornaram uma busca para muitos jovens que estão sem perspectiva, adoecidos mentalmente e procurando saídas para sobreviver ao sofrimento produzido pelo capitalismo decadente em que vivemos. Em uma sociedade que transforma tudo em mercadoria, inclusive o nosso tempo, o nosso corpo e a nossa saúde mental, buscar as raízes também pode ser uma forma de reencontrar sentido, pertencimento e comunidade.
E aqui não queremos romantizar os territórios nem essencializá-los. Pelo contrário, sabemos que o capitalismo tudo corrói e que não há saída possível sem a destruição desse sistema, que é uma verdadeira máquina de moer vidas e que não deixa sequer os territórios tradicionais escaparem completamente de suas engrenagens. Mas, apesar de toda a pressão e de todas as contradições, esses territórios também apontam caminhos para a organização e para a resistência. Algo que, inclusive, os movimentos de trabalhadores insistem muitas vezes em não olhar com a atenção necessária: a experiência histórica desses povos, que são parte fundamental da verdadeira história da resistência dos trabalhadores no Brasil e que lutam há mais de 500 anos contra a exploração, a colonização e o apagamento de suas formas de vida. Talvez, se olharmos para essas experiências, para a maneira como esses povos se organizam, resistem e constroem formas coletivas de sobrevivência, possamos começar a entender de onde vai sair a força capaz de transformar este país. A saída não virá de cima, das elites ou das instituições que sustentam este sistema, mas de baixo, daqueles que historicamente resistiram e continuam construindo, no chão onde vivem, novas formas de organização e de luta.
É por isso que a ancestralidade incomoda. Porque ela nos lembra que não estamos sozinhos e que existe uma história antes de nós. Nos lembra que os nossos problemas não começaram ontem e que o sofrimento que vivemos não é uma falha individual, mas também resultado de uma sociedade que nos impõe jornadas intermináveis, salários baixos, desemprego, violência e falta de perspectiva. Nos terreiros, nas aldeias e nas comunidades tradicionais, existe uma sabedoria que o capitalismo tenta transformar em folclore, mas que continua viva e sendo reinventada pelo povo.
E, neste capitalismo doentio, está cada vez mais difícil chegar ao equilíbrio. Talvez por isso seja tão necessário voltar às nossas raízes, escutar os nossos ancestrais e reaprender aquilo que o capitalismo tenta nos fazer esquecer: que ninguém se salva sozinho, que a vida é coletiva e que o equilíbrio não está na acumulação de riquezas, mas na relação entre as pessoas, com a natureza, com a comunidade e com a nossa própria história.
A elite que odeia o funk e a macumba vai ter que engolirEquilibrium. E talvez tenha que engolir também a verdade que ele carrega: o Brasil que ela tenta esconder continua vivo, cantando, dançando, tocando seus tambores e cultuando seus encantados. E, gostem ou não, é também desse Brasil que nasceu a nossa brasilidade.
O funk que desceu à terra
Anitta não fez este novo álbum sozinha e nem deixou de referenciar aqueles que vieram antes dela e que já há muito tempo deixaram, na nossa cultura, o legado dos povos negros e indígenas do nosso país. O álbum contou com a participação de vários artistas, como Mart'nália, Grupo Ofá, Maria Bethânia, MC Tha, Liniker, Luedji Luna, a rapper indígena Katú Mirim e os pioneiros do rap indígena Brô MC's, dos povos Guarani e Kaiowá, além de outros nomes como Alceu Valença, Mestrinho e artistas internacionais como Shakira.
A artista também fez referência aos Tincoãs na música “Nanã”, a orixá do barro, da sabedoria e da vida. Mas, além da música, existe todo um trabalho artístico, visual e cinematográfico que mobilizou pessoas de terreiro para pensar e trabalhar em conjunto, com a participação do babalorixá Rodney, do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá, autor do livroApropriação Cultural, e do indígena Terena Mac Suara, um dos primeiros atores indígenas do cinema brasileiro.
O álbum foi construído por quem faz e por quem já está há algum tempo na estrada, lutando pelos direitos das comunidades indígenas e de terreiro e pela valorização de uma cultura que, até hoje, ainda é negada. Uma cultura que sofre, a cada dia, com o crescimento do fundamentalismo religioso neopentecostal, que vem se apropriando de elementos das culturas negra e indígena, retirando seus significados e fazendo uma disputa cultural que tenta apagar os orixás, os encantados e toda a dimensão espiritual e ancestral que existe na cultura brasileira.
É o acarajé que vira "bolinho de Jesus", a capoeira negra que passa a ser chamada de "capoeira de Cristo", os símbolos indígenas que são esvaziados de seus significados e toda uma história que é retirada das mãos dos seus próprios povos para ser reapresentada sob uma nova roupagem. Não se trata apenas de uma disputa religiosa, mas também de uma disputa pelo significado da própria cultura brasileira, pela memória e pela identidade de um povo.
E Anitta, ao usar todo o seu prestígio em favor dos povos tradicionais de terreiro, da cultura negra e indígena, marcou um golaço contra esse projeto colonizador e entreguista alimentado pela elite reacionária do Brasil. A mesma elite que odeia a macumba, os povos indígenas e a cultura dos terreiros é a mesma que odeia o funk.
O funk é um ritmo que surgiu nas periferias, nos bailes de favela, construído pela classe trabalhadora que teve negado seu direito à cultura e ao lazer. É a mesma população que muitas vezes é impedida de entrar em determinados espaços, como shopping centers e outros ambientes de consumo, porque é negra, indígena ou pobre, e que é vista como criminosa pelo racismo brasileiro. O país da chamada democracia racial é democrática apenas para os brancos da elite. Para os pobres, o que existe é chacina, violência, encarceramento, desemprego e falta de oportunidade. Quando setores da extrema direita brasileira, como Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão), falam em "acabar com as favelas", não estão falando em garantir moradia digna, saneamento, educação, saúde, cultura e melhores condições de vida para o povo pobre. Mas sim em exterminar tudo que é preto e indígena, é o discurso do higienismo do século XIX sob nova roupagem.
O que se pretende combater, muitas vezes, não é a pobreza, mas o pobre. Não é a violência, mas o povo que vive nas periferias. Não é a desigualdade, mas a cultura que nasce nesses territórios e que não pede autorização para existir. E é justamente por isso que existe uma conexão tão profunda entre o funk e os terreiros. Ambos são espaços historicamente perseguidos e criminalizados, mas que continuam produzindo vida, cultura, comunidade e resistência. Quando falamos de terreiros, não estamos falando apenas do culto aos orixás, das danças ou da musicalidade. Estamos falando também de alimento, de acolhimento e de solidariedade. Em um país onde milhares de trabalhadores pobres passam fome, são os terreiros que muitas vezes garantem alimento por meio de suas festas, oferendas e ações comunitárias.
Estamos falando de lideranças que, em sua grande maioria, são mulheres, as mães de santo, que sustentam não apenas a vida religiosa, mas também redes de cuidado e proteção. Estamos falando de toda uma história preservada pela oralidade, pela palavra que foi silenciada pelo poder colonial, mas que segue viva na resistência dos povos em luta.
A oralidade é também uma forma de resistência. Porque quando o colonizador tenta destruir os livros, os territórios, os templos, as línguas e as tradições de um povo, a memória passa a viver na voz dos mais velhos, nos cantos, nos toques, nas rezas, nas ervas, nos rituais e nos corpos que continuam transmitindo conhecimento de geração em geração.
Mas aqui cabe uma reflexão: muitas vezes, comunidades indígenas, quilombolas e de terreiro possuem reconhecimento cultural, mas não têm sua terra garantida, seu sustento assegurado nem condições dignas de vida para suas comunidades. O Estado brasileiro reconhece a cultura, mas não garante os direitos que permitem que esses povos continuem existindo em seus próprios territórios.
É uma contradição que precisa ser denunciada. O Estado celebra a cultura indígena em campanhas publicitárias, reconhece a importância dos quilombos, exalta a culinária de matriz africana e se apropria dos símbolos dos povos tradicionais, mas, quando chega a hora de garantir território, moradia, alimento e condições dignas de vida, esses mesmos povos são deixados de lado.
E isso também precisa ser discutido no governo Lula 3. Enquanto ograndeagronegócio segue recebendo bilhões por meio dos Planos Safra e mantendo enorme peso nas decisões econômicas do país, povos indígenas e quilombolas continuam enfrentando dificuldades e demora na garantia de seus territórios. A cultura desses povos é celebrada, mas seus direitos concretos seguem sendo tratados como algo secundário por este governo. Porém, não basta reconhecer a cultura de um povo. É preciso garantir as condições materiais para que esse povo continue existindo. Porque de nada adianta celebrar o indígena na música, na televisão ou no cinema se, na vida real, seus territórios continuam ameaçados. De nada adianta consumir acarajé, ouvir samba, dançar funk ou cultuar Iemanjá se o Estado continua permitindo que comunidades negras, indígenas e de terreiro sejam violentadas e tenham seus direitos negados.
É por isso queEquilibriumnão é apenas um álbum. É também uma disputa pelo Brasil que queremos construir. Um Brasil onde a cultura dos povos negros e indígenas não seja apenas consumida, mas respeitada. Onde o funk não seja criminalizado e a macumba não seja demonizada. Onde os terreiros possam existir sem medo e onde os povos indígenas e quilombolas tenham seus territórios garantidos. Porque, no fim das contas, o funk que desceu à terra encontrou aquilo que sempre esteve lá: os tambores, os encantados, os orixás, os caboclos, os mestres, as mestras e toda a ancestralidade que ajudou a construir este país.
“Não desespera, desacelera, volta pra base, barro e terra”: a retomada do que é nosso
No último Censo do IBGE, o número de pessoas autodeclaradas pretas e indígenas cresceu em relação ao Censo de 2010, uma demonstração da importância da luta dos movimentos negros e indígenas pela conscientização racial dos trabalhadores e do resultado de uma retomada da consciência histórica e do pertencimento. Desvendar o mito do Brasil da democracia racial é também construir retomadas em todo o Brasil, exigindo melhores condições de vida para o povo preto, pobre e indígena.
A retomada, para as comunidades indígenas e de terreiro, expressa também a necessidade de sair do desespero e da pressa que o capitalismo tenta nos empurrar. Um sistema que nos faz trabalhar cada vez mais para enriquecer ainda mais os grandes empresários, enquanto milhares de jovens adoecem e fazem uso de medicamentos para conseguir suportar uma vida cada vez mais difícil. É viver em um mundo onde grupos misóginos como os red pill espalham ódio contra as mulheres, onde a polícia entra nas favelas e promove chacinas contra jovens negros, onde pessoas LGBT+ saem de casa todos os dias com medo da violência por suas demonstrações de afeto e onde a juventude é convencida de que precisa produzir, consumir e competir o tempo inteiro para ter algum valor.
É nesse mundo que precisamos aprender com os povos indígenas, quilombolas e com as comunidades de terreiro a resistir. Porque a nossa experiência de luta sai deste chão. Sai da terra, do barro, das aldeias, dos quilombos, das favelas e dos terreiros. São comunidades que, ao longo da nossa história, construíram formas coletivas de organização e resistência que desafiaram o poder dos colonizadores, dos senhores de escravos, das elites e do Estado.
Quando falamos em retomada, estamos falando também de recuperar aquilo que tentaram nos arrancar: o território, a memória, a identidade, a comunidade e a capacidade de decidir sobre a própria vida. A retomada é voltar para aquilo que o capitalismo tenta destruir todos os dias: a nossa relação com o território, com os mais velhos, com os nossos ancestrais e com aqueles que caminham ao nosso lado.
Por isso, quando Anitta canta “não desespera, desacelera, volta pra base, barro e terra”, existe algo muito profundo nessa mensagem. Em um mundo que nos manda correr o tempo inteiro, voltar para a terra é também uma forma de resistência. Desacelerar não significa desistir da luta. Pelo contrário. Significa compreender que não precisamos aceitar o ritmo imposto por um sistema que transforma nosso tempo em mercadoria e nossa vida em instrumento de lucro e que é necessário romper essas engrenagens.
A juventude que busca as comunidades, que procura a base, a terra e o barro, pode descobrir ali algo que o capitalismo tenta nos fazer esquecer: que ninguém constrói uma vida sozinho. Que existe força na comunidade. Que existe conhecimento na ancestralidade. Que existe sabedoria na experiência dos mais velhos. E que existe futuro quando conseguimos transformar a nossa dor individual em organização coletiva. A história do Brasil está cheia dessas experiências de resistência. Dos quilombos às aldeias, das revoltas populares às comunidades de terreiro, das ocupações de terra às lutas das periferias, o povo sempre encontrou formas de se organizar para enfrentar aqueles que tentaram dominá-lo.
As mobilizações dos povos indígenas contra grandes projetos econômicos, como as lutas travadas em defesa dos rios, derrotando o governo Lula e o agronegócio, demonstram que a resistência continua viva. Quando os povos indígenas ocupam espaços, enfrentam grandes empresas e pressionam governos, estão dizendo que seus territórios não são mercadorias e que a natureza não pode ser tratada como propriedade privada de meia dúzia de empresários. É nessa luta que a juventude pode encontrar uma resposta para o desespero. Não uma resposta individual, baseada na meritocracia ou na promessa de que cada um precisa se salvar sozinho, mas uma resposta coletiva. A retomada começa quando alguém percebe que sua história não terminou, que sua identidade não foi apagada e que a sua comunidade pode ser também um espaço de reconstrução. Para toda doença há uma cura. E a nossa saída é coletiva, organizada e construída no enfrentamento a este sistema e à elite que odeia tudo aquilo que nasce do nosso chão.
Talvez seja essa a grande provocação de Equilibrium. Em meio a um mundo que nos manda correr, o álbum nos convida a desacelerar. Em meio a uma sociedade que nos empurra para o isolamento, ele nos lembra da comunidade. Em meio a um sistema que tenta apagar nossas raízes, ele nos manda voltar para o barro e para a terra. E como canta Brô MC´s e Katu Mirim no álbum “Eu preparo a emboscada, eu te espero aparecer. Caçadora que tem pressa, vai pra casa sem comer”. E a elite que odeia o funk, a macumba, os povos indígenas, os quilombos, os terreiros e tudo aquilo que nasce do nosso chão se preparem para a emboscada. A retomada apenas começou.