O Brasil dos muitos sertões - 70 anos de 'Grande Sertão: Veredas'

Neste 25 de julho, Dia do Escritor, celebramos uma das maiores obras da literatura brasileira

Roberto Aguiar, da redação
O Brasil dos muitos sertões - 70 anos de 'Grande Sertão: Veredas'
Capa da primeira edição publicada em 1956

Celebramos o 25 de julho, Dia do Escritor, destacando uma das maiores obras da literatura brasileira. Publicado em 1956, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, completa 70 anos reafirmando sua condição de romance incontornável. Não por acaso, a Companhia das Letras lançou uma edição especial comemorativa, reunindo novo projeto gráfico, um ensaio do pesquisador Érico Melo, a clássica entrevista concedida por Rosa ao crítico alemão Gunter Lorenz e depoimentos de escritores e intelectuais que testemunham a permanência de sua influência.

Celebrar Grande Sertão: Veredas é mais do que homenagear um clássico. Ressaltamos a importância de revisitar uma tradição literária que ajudou a construir uma das interpretações mais profundas do Brasil.

Muito antes de Guimarães Rosa transformar o sertão mineiro em uma travessia filosófica e linguística, outros escritores já haviam encontrado no sertão nordestino o cenário para revelar as contradições do país.

Em 1930, Rachel de Queiroz publicava O Quinze, romance pioneiro ao retratar a devastação provocada pela seca de 1915 e o drama dos retirantes. O sertão surgia como território da fome, da expulsão e da resistência.

Oito anos depois, em 1938, Graciliano Ramos radicalizaria essa perspectiva com Vidas Secas. Poucas vezes a literatura brasileira alcançou tamanha capacidade de revelar a violência da pobreza. Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e Baleia tornaram-se símbolos universais de uma existência submetida à miséria, ao latifúndio e ao abandono do Estado.

Entre esses dois romances e Grande Sertão: Veredas, há ainda outra obra que merece ocupar lugar de destaque: Seara Vermelha, publicado por Jorge Amado em 1946 e que, neste ano, completa 80 anos. Frequentemente lembrado pelos romances ambientados no Pelourinho, no Recôncavo ou na região cacaueira do sul da Bahia, Jorge construiu uma obra muito mais ampla. Seara Vermelha demonstra isso de forma exemplar.

Ali, ele dirige seu olhar para o sertão baiano e para o drama da migração forçada. A seca empurra milhares de trabalhadores para longe de sua terra; o latifúndio fecha qualquer perspectiva de sobrevivência; a concentração fundiária transforma famílias inteiras em andarilhas do próprio país. Mas autor acrescenta um elemento singular à tradição do romance regionalista: o Rio São Francisco.

O Velho Chico deixa de ser apenas um acidente geográfico para tornar-se caminho de sobrevivência. Por suas águas navegam retirantes, trabalhadores, sonhos e esperanças. Encontramos uma seca que expulsa e um rio conduz. Uma terra que nega vida e uma correnteza que ainda oferece a possibilidade da travessia.

É um dos momentos mais belos da literatura amadiana. O sertão deixa de ser um espaço imóvel e transforma-se em movimento. A migração ganha um novo olhar e passa a ser compreendida como parte da formação histórica do Brasil.

Quando Guimarães Rosa publica Grande Sertão: Veredas, dez anos depois, dialoga com essa tradição sem reproduzi-la. Seu sertão continua marcado pela violência, pelos conflitos agrários, pelo mandonismo e pelos jagunços. Mas a grande revolução promovida por Rosa acontece em outro plano: com ele, o sertão torna-se linguagem.

Cada palavra parece reinventada. A oralidade popular encontra a invenção poética. O português é expandido, recriado, atravessado por neologismos, regionalismos e sonoridades que fazem da língua um organismo vivo. Ao mesmo tempo, o sertão deixa de ser apenas uma geografia social para tornar-se uma categoria filosófica.

A travessia de Riobaldo não é somente a de um homem que percorre veredas, rios e chapadões. É também a travessia das dúvidas humanas: Deus existe? O diabo existe? O mal nasce das pessoas ou das circunstâncias? O destino governa a vida ou somos responsáveis por nossas escolhas?

Talvez por isso uma das frases mais conhecidas do romance permaneça tão atual: "O sertão é do tamanho do mundo."

Essa afirmação sintetiza uma das maiores contribuições de Guimarães Rosa. Seu sertão mineiro ultrapassa Minas Gerais. Assim como o sertão de Rachel ultrapassa o Ceará, o de Graciliano ultrapassa Alagoas e o de Jorge Amado ultrapassa a Bahia.

Nenhum desses autores escreveu apenas sobre uma região. Escreveram sobre o Brasil. Cada um encontrou no sertão uma maneira distinta de interpretar a formação nacional: Rachel de Queiroz revelou o drama da seca; Graciliano Ramos denunciou a brutalidade da exploração social; Jorge Amado mostrou que o sertão também migra, navega pelo Velho Chico e carrega consigo a esperança de construir uma vida nova; e Guimarães Rosa transformou o sertão numa pergunta permanente sobre a condição humana.

Entre 1930 e 1956, esses quatro romances desenharam um dos maiores painéis já produzidos sobre o país. Não idealizaram o interior brasileiro. Revelaram suas feridas, suas violências, sua riqueza cultural e sua extraordinária capacidade de resistência.

Num tempo em que o mercado editorial privilegia lançamentos instantâneos e leituras apressadas, revisitar esses livros é um gesto de resistência cultural. Porque compreender o Brasil continua exigindo uma travessia. E poucos caminhos são tão férteis quanto aqueles abertos por Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado e João Guimarães Rosa.

No Dia do Escritor, celebrar esses autores é também reafirmar que a grande literatura permanece sendo uma das formas mais profundas de conhecer o país e de transformá-lo.

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