Nacional

A tragédia da desindustrialização relativa no Brasil

Gustavo Machado do canal Orientação Marxista

17 de abril de 2026
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A conjuntura recente não deixa margem para ilusões e, mais que isso, dissolve aquelas que por décadas serviram para encobrir o funcionamento real do sistema mundial. O mundo não é um espaço neutro de trocas entre iguais, tampouco um arranjo regido por regras universais. É uma hierarquia de dominação, nitidamente estruturada, na qual a força econômica, tecnológica e militar se concentra em poucos polos, enquanto o restante se organiza de forma subordinada a eles.

A Europa e o Japão, que outrora apareciam como centros independentes no terreno político e econômico, expõem hoje, de maneira cada vez mais aberta, os limites dessa autonomia. Atuam, em larga medida, como extensões subordinadas dos interesses dos Estados Unidos. Donald Trump os humilhou uma, duas, três, várias vezes. Ainda assim, abaixaram a cabeça, assinaram acordos desvantajosos e suas críticas são sempre formuladas de maneira tímida, hesitante, contrafeita, envergonhada.

Apesar do papel dominante que esses países ainda ocupam na cena mundial, sua posição revela uma subordinação que vai além do plano militar. Dependem do mercado interno estadunidense e, em termos produtivos, suas indústrias, via de regra, ocupam os estratos intermediários de cadeias em que os Estados Unidos concentram o comando, o ponto de partida e a direção estratégica.

Por outro lado, a disputa aberta entre Estados Unidos e China apenas explicita aquilo que sempre esteve na base do sistema: o controle das cadeias produtivas de maior valor agregado, tais como inteligência artificial, semicondutores, indústria digital, novos materiais. Trata-se do controle sobre a maior parcela do trabalho social produzido em escala mundial, apropriado e centralizado por empresas sediadas nos países dominantes, que comandam os elos decisivos da produção e subordinam a eles todos os demais.

É nesse campo minado, e somente a partir dele, que se coloca a necessidade de examinar a posição específica ocupada pelo Brasil. Vamos a ela.

Rebaixamento estrutural do Brasil

Se no plano mundial a produção se organiza de forma hierárquica e concentrada, distribuindo de maneira desigual o controle sobre tecnologia, conhecimento e riqueza, no caso brasileiro essa lógica assume uma forma particular, que não pode ser compreendida como mero desvio ou insuficiência passageira. Trata-se de um movimento histórico determinado, que define os limites e as possibilidades do país no interior dessa mesma estrutura.

O domínio tecnológico exige concentração colossal de capital e controle sobre conhecimento acumulado ao longo de décadas. No entanto, nem sempre foi possível centralizar todas as etapas produtivas nos países dominantes. Em determinados momentos históricos, sobretudo ao longo do século XX, a própria dinâmica da acumulação exigiu o deslocamento de parcelas da produção industrial para países periféricos. Custos mais baixos e a necessidade de centros produtores relativamente próximos aos novos mercados consumidores impulsionaram a instalação de unidades produtivas em países como o Brasil.

Foi nesse contexto que se estruturou uma industrialização subordinada. Não se tratava de transferir o núcleo dinâmico da produção, mas de deslocar etapas específicas, frequentemente menos complexas, mantendo sob controle externo a tecnologia, o financiamento, as decisões estratégicas e os elos mais avançados das cadeias produtivas. Isso permitiu a formação de um mercado interno limitado, ao mesmo tempo que preservava a posição subordinada do país no conjunto do sistema.

Hoje, na chamada quarta revolução industrial, esse espaço se fecha. O Brasil volta a ocupar a posição de mero consumidor das inovações centrais. Importa tecnologia, importa máquinas, importa conhecimento. Para equilibrar minimamente suas contas externas, é obrigado a expandir a exportação de commodities – minério, soja, petróleo bruto – produtos de baixo valor agregado, intensivos em recursos naturais e pouco intensivos em trabalho qualificado.

Não se trata de uma simples perda de indústria, mas de um rebaixamento estrutural na divisão internacional do trabalho. A indústria não desaparece, mas perde densidade tecnológica, complexidade e capacidade de irradiar desenvolvimento. No mercado interno, o peso crescente de setores como a indústria de alimentos, com baixa agregação de valor, expressa esse movimento. Ao mesmo tempo, os setores que mais crescem são aqueles voltados à exportação primária, que geram poucos empregos, ampliam a informalidade e comprimem os salários.

O resultado é um ciclo de dominação que se retroalimenta: menor complexidade produtiva, menor capacidade de geração intensiva de riqueza alimentam a aplicação do capital aqui existente em setores mais extensivos, cuja debilidade qualitativa deve ser compensada pela expansão quantitativa, com dados humanos e ambientais sem fim.

Dependência

Falsas saídas para o dilema nacional

Diante desse quadro, qualquer proposta que ignore o problema central está condenada à impotência. Não há como superar a estagnação econômica sem que o país assuma o controle – direto ou indireto – de cadeias produtivas estratégicas. Não se trata de uma escolha ideológica, mas de uma necessidade objetiva imposta pelo próprio funcionamento do capitalismo contemporâneo.

Os países que ocupam posições dominantes, sejam os Estados Unidos, a Suíça, a Suécia ou a Noruega, controlam, cada qual a seu modo, setores-chave da produção mundial. Dominam tecnologia, marcas, patentes, processos produtivos. Não vivem da exportação de produtos primários, mas da apropriação sistemática de valor gerado em escala global.

O real problema

No Brasil, o debate público gira em falso. De um lado, apresenta-se o combate à corrupção e a abertura econômica como solução geral para todos os problemas, como se a eliminação de distorções administrativas ou a ampliação da concorrência fossem suficientes para alterar a posição do país no mundo. Mas tais medidas, não tocam no problema central: não indicam qualquer caminho para a inserção do país nos setores de ponta, que exigem investimentos massivos, riscos elevados, domínio tecnológico e longos períodos de maturação.

De outro lado, fala-se em intervenção estatal como solução abstrata. No entanto, ignora-se que o Estado brasileiro opera sob deficit crônico há anos, comprimido por um sistema que drena recursos para o pagamento de juros e pela própria debilidade da base produtiva.
O problema, portanto, não é simplesmente mais mercado ou mais Estado. É a ausência de controle nacional sobre os núcleos decisivos da produção. Sem isso, qualquer política econômica será, no máximo, paliativa. O país continuará dependente de tecnologias externas, incapaz de definir seus próprios rumos e condenado a oscilar ao sabor das condições internacionais.

Fábrica da Stellantis no Nordeste

Círculo vicioso

Sem ruptura, não há saída

Se o caminho exige controle sobre setores estratégicos, é preciso dizer com contundência: não se pode esperar que o capital nacional cumpra esse papel. Inserido de forma subordinada, ele administra um mercado interno estagnado e adapta-se às condições impostas de fora. Não tem nem os meios nem o interesse em romper com essa posição.

A própria dinâmica interna reforça esse limite. A expansão dos setores voltados ao mercado interno esbarra na baixa capacidade de consumo da população, a qual, por sua vez, é condicionada pela necessidade de manter salários reduzidos e pela incorporação de tecnologias que diminuem o emprego. O resultado é um círculo vicioso: não se amplia o consumo porque não se ampliam os salários; não se ampliam os salários porque não se amplia a produção com maior valor agregado.

Expropriar para desenvolver o país

Diante disso, os excedentes do capital nacional seguem três destinos principais. Primeiro, as privatizações, que apenas transferem propriedade sem expandir a capacidade produtiva do país. Segundo, a aplicação em títulos da dívida pública, em que o Estado absorve esse capital e paga juros elevados sem gerar nova riqueza. Terceiro, a fuga de capitais para o exterior, que alcançou meio trilhão de reais nos últimos anos.

Esse processo torna nítido que, sem a expropriação e o controle de setores-chave – energia, siderurgia, mineração, petróleo –, que concentram os maiores excedentes, não há base material para um projeto de desenvolvimento. É a partir desses recursos que se pode financiar a inserção em áreas estratégicas como inteligência artificial, processamento de terras raras e outras tecnologias de ponta.

Um projeto de classe

Não se trata de uma questão moral, mas de uma necessidade. Os interesses do capital, nacional ou internacional, estão alinhados com a manutenção da estagnação que lhes garante lucros seguros. A superação desse quadro só pode partir daqueles que são diretamente prejudicados por ele: a classe trabalhadora, os camponeses, os pequenos empreendimentos.

São esses setores que têm interesse em romper com um sistema que se alimenta da pobreza, da informalidade e da dependência. São eles que podem sustentar um projeto que reorganize a produção em função das necessidades sociais e não da valorização imediata do capital. Fora disso, qualquer promessa de desenvolvimento não passa de ilusão – e o país seguirá, década após década, aprofundando seu rebaixamento na divisão internacional do trabalho.

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