Após 44 dias, a categoria decidiu encerrar a greve em assembleia realizada nesta quarta, 10 de junho. O movimento, iniciado em 27 de abril, mobilizou trabalhadores e trabalhadoras em educação em defesa da valorização profissional, das condições de trabalho e contra a crescente privatização da educação pública. No decorrer da luta o direito à greve e a garantia à reposição das aulas também se constituíram como uma importante reivindicação.
O encerramento da greve não representa uma vitória do governo Álvaro Damião, mas sim o resultado da resistência da categoria diante de uma administração que apostou na intransigência, na desinformação e na tentativa de desgastar o movimento. Durante toda a greve, a Prefeitura se recusou a negociar seriamente as reivindicações dos trabalhadores, enquanto a secretária municipal de Educação, Natália Araújo, buscava responsabilizar os profissionais pela crise instalada nas escolas municipais.
Mesmo enfrentando o corte do salário, perseguições e uma intensa campanha de criminalização da greve, os trabalhadores mantiveram a mobilização. Um dos momentos mais marcantes ocorreu com a ocupação da Secretaria Municipal de Planejamento, quando educadores permaneceram por mais de 30 horas exigindo negociação efetiva com a Prefeitura.
A força da mobilização garantiu conquistas
A greve teve um papel importante de barrar a troca de professores da educação infantil por monitores terceirizados e por criar uma delimitação, mesmo que ainda insuficiente, na atuação de Organizações da Sociedade Civil (OSCs)na elaboração pedagógica das crianças com deficiência.
Essa foi uma das batalhas centrais travadas pela categoria. A Prefeitura vem tentando ampliar o papel das OSCs na educação inclusiva, abrindo caminho para a substituição de funções pedagógicas exercidas por servidores públicos concursados. A resistência dos trabalhadores e trabalhadoras dificultou esse retrocesso.
No entanto, essa é uma luta dura e que ainda está em curso. E que terá de ser assumida por setores mais amplos que os trabalhadores em educação. A privatização e terceirização dos serviços públicos é crescente no país não só na educação.
Mas o mais importante, a greve escancarou para a cidade o desgoverno existente na administração de Belo Horizonte e na secretaria de educação.
A luta, até aqui, valeu a pena, mas está longe de acabar. A prefeitura pretende impor um duríssimo corte de ponto à categoria e implementar uma mudança no entendimento da legislação relativo ao direito dos estudantes aos 200 dias letivos. Mas mais do que isso, quer empurrar o ano letivo de 2026 para 2027 em uma tentativa desesperada de impedir novas greves. Significa que o projeto de destruição da escola pública não vai parar. Mas o governo se engana se acha que pode derrotar os trabalhadores em educação, lutamos porque a sobrevivência da escola pública está em risco, não se trata de uma opção.
É por isso que nenhuma conquista foi fruto da boa vontade da administração municipal. Tudo o que foi obtido resultou diretamente da mobilização, das assembleias, dos atos, das vigílias e da disposição da categoria de enfrentar a intransigência do governo.
Damião apostou no desgaste da greve
Apesar das conquistas, o resultado final ficou aquém das necessidades da categoria. Damião se recusou a atender plenamente as reivindicações econômicas dos trabalhadores ao não aplicar o reajuste do piso nacional da educação. Além disso, permanecem preocupações sobre a reposição das atividades, a garantia de que não haverá prejuízos aos grevistas e as condições concretas para assegurar os 200 dias letivos.
A greve expôs também o verdadeiro caráter do governo municipal. Enquanto faltam investimentos adequados na educação, persistem problemas estruturais nas escolas, sobrecarga de trabalho, falta de profissionais e precarização dos serviços públicos. A postura da Prefeitura mostrou que, para Damião, a negociação só ocorre quando existe forte pressão organizada dos trabalhadores.
Natália Araújo teve papel destacado nessa política de enfrentamento à categoria. Ao longo da greve, a secretária buscou deslegitimar o movimento e transferir para os trabalhadores a responsabilidade pelos impactos da paralisação, ao invés de reconhecer que a greve foi consequência direta da recusa da Prefeitura em negociar seriamente.
A luta continua
A greve deixa importantes lições. Demonstrou a força da organização pela base, a importância da unidade da categoria e a capacidade dos trabalhadores de resistirem mesmo diante de ameaças, perseguições e campanhas de desmoralização.
Para o PSTU, o encerramento da greve não significa o fim da luta. Será necessário acompanhar o cumprimento integral dos compromissos assumidos pela Prefeitura, impedir qualquer tentativa de retaliação aos grevistas, defender a reposição sem prejuízos para os trabalhadores e continuar combatendo os projetos de privatização e terceirização da educação pública, como as tentativas de ampliação do papel das OSCs em áreas que devem permanecer sob responsabilidade do serviço público.
Os 44 dias de greve mostraram que os direitos da categoria e a defesa da educação pública só avançam quando há mobilização. A paralisação termina, mas permanece o desafio de transformar a força demonstrada nas ruas e nas assembleias em organização permanente para enfrentar os próximos ataques do governo municipal e seguir lutando por uma educação pública, gratuita, inclusiva e de qualidade para toda a população de Belo Horizonte.