A visita do presidente Lula à Avibras, em Jacareí (SP), no dia de ontem (25/7), marca um momento importante para os trabalhadores da empresa e para a indústria de defesa nacional. Durante a visita, o presidente assumiu publicamente o compromisso de que as Forças Armadas voltarão a realizar encomendas à empresa e que parte dos recursos será destinada ao pagamento da dívida salarial acumulada com os trabalhadores.
O anúncio acontece depois de uma das mais longas e duras lutas operárias da história recente do país. Entre 2022 e 2026, os trabalhadores da Avibras enfrentaram 36 meses sem salários e mantiveram uma greve que durou 1.280 dias. Foram mais de três anos de resistência contra o abandono da fábrica, a ameaça de fechamento e a tentativa de jogar sobre os ombros dos trabalhadores o custo da crise provocada pelos patrões.
É preciso dizer com toda clareza: essa conquista não foi um presente do governo Lula, foi arrancada pela luta.
"A reabertura da Avibras não caiu do céu e não foi um favor de ninguém. Ela é resultado de 1.280 dias de greve, de trabalhadores que resistiram mesmo sem salários e de um sindicato que nunca abriu mão da mobilização nem da independência em relação aos governos e aos patrões. Saudamos o anúncio feito pelo presidente Lula, mas é preciso reconhecer que ele só aconteceu porque houve uma greve histórica que impediu o fechamento da empresa. Essa vitória pertence aos trabalhadores da Avibras", afirma Weller Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região e militante do PSTU.
Uma greve histórica
Foram anos de incerteza, dificuldades financeiras, pressão psicológica e tentativas permanentes de desmobilização. Ainda assim, os trabalhadores permaneceram organizados, realizando assembleias, manifestações, caravanas, atos públicos, audiências e campanhas nacionais em defesa da empresa, dos empregos e do pagamento dos salários.
Essa resistência só foi possível porque existiu uma direção sindical comprometida com os interesses da categoria. O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, filiado à CSP-Conlutas, conduziu essa luta mantendo sua independência política diante dos governos e dos patrões, sem abandonar a mobilização em nenhum momento.
Ao lado do sindicato, a militância do PSTU esteve presente durante toda a greve, ajudando a construir cada etapa da resistência, defendendo que somente a organização dos trabalhadores poderia impedir a destruição da Avibras.
A pressão dos trabalhadores mudou o cenário
Durante anos, diferentes governos assistiram à crise da Avibras sem apresentar uma solução concreta. Enquanto isso, uma empresa estratégica para a soberania nacional se deteriorava, empregos eram ameaçados e centenas de famílias sobreviviam sem salários.
Foi justamente a persistência da greve que impediu que a empresa desaparecesse silenciosamente. A mobilização manteve a Avibras no centro do debate político, denunciou o abandono da indústria nacional e obrigou o governo federal a se posicionar.
A própria visita de Lula à fábrica demonstra isso. Ela não ocorreu por iniciativa espontânea do Palácio do Planalto, mas porque a luta dos trabalhadores tornou impossível ignorar a situação da empresa. A presença do presidente na fábrica é uma demonstração da força que a greve conquistou ao longo de mais de três anos de resistência.
A luta continua
Apesar do anúncio presidencial, ainda há reivindicações fundamentais que precisam ser garantidas. O Acordo Coletivo de Trabalho firmado entre o Sindicato e o Brasil Crédito, fundo de investimentos que assumiu o controle acionário da empresa, estabelece que o pagamento da segunda parcela da dívida trabalhista depende da liberação, pelo governo federal, de um aporte de R$ 300 milhões. Essa medida ainda não foi efetivada.
Por isso, Weller Gonçalves cobrou de Lula a antecipação desse aporte para assegurar imediatamente o pagamento aos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o dirigente voltou a defender uma reivindicação estratégica construída durante toda a greve: a estatização da Avibras, sob controle dos trabalhadores, assim como das demais empresas do setor de defesa.
Não faz sentido que um setor estratégico para a soberania nacional fique subordinado aos interesses de acionistas e fundos privados. Empresas responsáveis pela produção de tecnologia militar e equipamentos de defesa devem atender às necessidades do país, preservando empregos, capacidade tecnológica e planejamento de longo prazo.
"A luta ainda não terminou. É preciso garantir imediatamente o aporte de R$ 300 milhões previsto no acordo para quitar a dívida trabalhista e assegurar a retomada definitiva da produção. Seguimos defendendo a estatização da Avibras e de todas as empresas do setor de defesa, sob controle dos trabalhadores. Uma empresa estratégica para a soberania nacional não pode ficar subordinada aos interesses do mercado financeiro nem de empresários que abandonam a produção quando seus lucros diminuem", defende Weller Gonçalves.
A principal lição
A história da Avibras deixa uma lição que vai muito além da própria fábrica. Nenhum governo, seja qual for, concede espontaneamente direitos ou soluções para a classe trabalhadora. Quando há avanços, eles são resultado da pressão organizada dos trabalhadores.
Se hoje existe a perspectiva concreta de retomada da produção, pagamento dos salários atrasados e preservação da empresa, isso é consequência direta da greve histórica conduzida pelos metalúrgicos de São José dos Campos e Região. Foram 1.280 dias de resistência. Foram mais de três anos enfrentando patrões, a demora das instituições e as dificuldades da sobrevivência.
Essa vitória pertence aos trabalhadores que não desistiram, ao sindicato que manteve sua independência de classe e à militância que esteve ao lado da categoria durante toda essa batalha.
A luta da Avibras demonstra, mais uma vez, uma verdade elementar do movimento operário: direitos não são concedidos, são conquistados pela organização, pela mobilização e pela luta coletiva.