Após 86 anos de sua morte, por que Trotsky continua fundamental?

Denior José Machado, de Porto Alegre (RS)
Após 86 anos de sua morte, por que Trotsky continua fundamental?

Trotsky foi assassinado a mando de Stálin em 21de agosto de 1940. Muitos ativistas questionam hoje a validade de rever polêmicas tão antigas entre Trotsky e Stálin. No entanto, discutir Trotsky hoje significa entender o que foi o século passado.

O século XX não passou em vão. A Revolução Russa de 1917 e o regime que dela derivou, junto com a Segunda Guerra Mundial, mudaram os rumos da humanidade. A revolução desfez o que a burguesia propaga de forma permanente: a suposta incapacidade dos trabalhadores de mudar a história.

O papel de Trotsky

Seu papel não se restringe ao personagem histórico à frente da revolução, na guerra civil e na formação do Exército Vermelho. Foi central nas polêmicas teóricas na esquerda russa sobre as possibilidades da revolução naquele início de século.

A maioria dos marxistas excluía a revolução socialista nos países atrasados: primeiro a revolução burguesa e democrática, depois – com o capitalismo maduro – a socialista, diziam. Trotsky partia de outro fato material: o capitalismo já era um sistema mundial, e nenhum país refaria sozinho a escada que a Inglaterra subira. Concluiu então que a burguesia russa, nascida tarde e sócia do imperialismo e do latifúndio, temia mais os próprios operários do que o atraso e não faria a revolução democrática que lhe cabia. E o campesinato, disperso, seguiria a burguesia ou o proletariado, sem programa próprio.

Restava à classe operária tomar o poder para resolver as tarefas democráticas: terra, soberania e liberdades; não poderia parar nelas, porque a reação burguesa e imperialista a obrigaria a avançar sobre a propriedade capitalista. Essa era a teoria da revolução permanente. Lênin também via a revolução possível na Rússia, mas passando por uma etapa democrática – sob um governo operário e camponês, sem ainda definir qual dessas classes daria a direção, mas já contra a burguesia e não aliado a ela.

Eram os dois de uma mesma vertente, que tomava o marxismo como método de análise da realidade e como guia para a ação. A Revolução Russa resolveu o debate na prática, e Lênin, apoiado na classe operária e na realidade material que a Primeira Guerra Mundial expôs, chegou às mesmas conclusões. Seu papel decisivo – construir um partido talhado para a luta pelo poder – foi reconhecido pelo próprio Trotsky como o mais fundamental.

O fio de continuidade do marxismo

A revolução europeia retrocedeu, e a Rússia ficou confinada num beco estreito, destruída pela intervenção imperialista. Sobre esse impasse se ergueu o regime burocrático que congelou a revolução sob a ditadura de Stálin. A invasão nazista à URSS foi derrotada, e isso foi uma grande vitória do proletariado, mas deu sobrevida à burocracia, isolando por décadas quem defendia a revolução mundial e a revolução política na URSS.

Qual foi, então, o papel de Trotsky na segunda metade do século XX? Manter um fio de continuidade revolucionário: a Quarta Internacional e uma compreensão do mundo à luz do método marxista. Sua análise sobre a URSS como Estado operário burocratizado foi confirmada de modo dramático entre 1989 e 1991, com a restauração do capitalismo nos países onde a burguesia fora expropriada. Não há socialismo em um só país: enquanto o imperialismo dominar o globo, estará sempre colocada a possibilidade da derrota da revolução.

A direção stalinista deformou os partidos comunistas e derrotou revoluções – China em 1927, Alemanha em 1933, Espanha em 1936, Itália e Grécia, no fim da Segunda Guerra Mundial, e outras. Rompeu com a independência de classe, fazendo alianças com a burguesia, e isso até hoje. Essa deturpação é a matriz teórica dos partidos antes revolucionários, hoje reformistas – que a vanguarda conhece como marxismo.

Trotsky continua fundamental

A tarefa de reconstruir uma direção revolucionária mundial segue em aberto, resgatando o marxismo. Não se vê nenhum partido de esquerda se declarar contra a independência de classe ou contra o internacionalismo. Mas esses princípios foram esvaziados na prática: declara-se independência de classe e governa-se com a burguesia; declara-se internacionalismo mas opõe-se à extensão da revolução.

A melhor homenagem que podemos render a Trotsky é seguir seu exemplo. Ele não ficou preso a dogmas: resgatou o método marxista e seus princípios, fez a análise concreta da situação concreta, como propunha Lênin.

A tarefa que Trotsky nos deixou é a elaboração de um programa de transição, que parta das demandas imediatas dos trabalhadores integradas num sistema cujo objetivo é a luta pelo poder. É ganhar a vanguarda para este programa e para o partido revolucionário.

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