A concorrência e o uso da tecnologia para aumentar os lucros podem fazer com que você pare de ganhar dinheiro.
Transformar dinheiro em mais dinheiro é a regra
No capitalismo, a produção não é organizada principalmente para atender às necessidades das pessoas, mas para aumentar continuamente o capital investido. Para isso, cada empresa precisa disputar mercado com as demais, buscando continuamente ampliar seus lucros e reduzir seus custos. Dessa lógica surgem a perda de empregos, o fechamento de pequenos negócios, o aumento da desigualdade e a destruição da natureza.
Pense na empresa em que você trabalha ou numa outra qualquer. Ela produz mercadorias ou presta serviços para valorizar seu capital. Quanto maior o lucro, maior tende a ser sua capacidade de enfrentar a concorrência e continuar existindo. Nesse sistema, produzir mais gastando menos é considerado a única medida de eficiência econômica.
É por isso que, isoladamente, não interessa a nenhuma empresa reduzir a jornada de trabalho de seus empregados. Se cada trabalhador passasse a trabalhar menos horas, mantendo o mesmo salário, a empresa provavelmente teria de contratar mais pessoas para produzir a mesma quantidade. Isso aumentaria seus custos e poderia deixá-la em desvantagem diante das empresas concorrentes.Vai na direção oposta à sua lógica de funcionamento.
Ao mesmo tempo, a empresa procura fazer cada trabalhador produzir o máximo possível durante sua jornada. É dessa diferença entre a riqueza produzida pelos trabalhadores e aquilo que eles recebem em troca que surge o lucro da empresa. Quanto maior essa diferença, maior tende a ser a capacidade da empresa de enfrentar a concorrência. E é justamente por isso que aumentar continuamente a produtividade do trabalho e manter os salários sob pressão se torna uma necessidade.
A existência do desemprego oprime a todos
Como a maioria das pessoas não possui terras, máquinas, fábricas ou outros meios para produzir por conta própria, precisa vender sua capacidade de trabalhar para sobreviver. É justamente essa dependência que torna o desemprego uma arma tão poderosa.
São milhões de trabalhadores que estão desempregados ou obrigados a aceitar empregos cada vez mais precários. Eles acabam concorrendo com você, supondo que esteja empregado. Se você não aceitar determinadas condições de trabalho, sempre haverá alguém precisando daquele salário. Na prática, bastaria existir uma única pessoa capaz de ocupar seu lugar para que já houvesse essa pressão. No entanto, são milhões.
Esse enorme número de desempregados mantém os salários baixos e dificulta tanto a redução da jornada quanto a criação de novos postos de trabalho. Vê-se, então, que esse desemprego não é uma falha passageira do sistema, mas parte de seu próprio funcionamento.
O aprimoramento contínuo e o uso da tecnologia
A tecnologia torna possível produzir cada vez mais em menos tempo. Em outras palavras, ela reduz a quantidade de trabalho necessária para fabricar mercadorias ou prestar serviços. Ou seja, a sociedade passa a ser capaz de produzir a mesma riqueza utilizando menos trabalho humano.
Isso deveria significar uma vida melhor para todos. Se é possível produzir a mesma riqueza trabalhando menos horas, o natural seria dividir esse ganho entre todos por meio de jornadas menores, sem redução dos salários. Mas não é isso que acontece no capitalismo.
No capitalismo, como cada empresa disputa mercado com suas concorrentes, ela usa a tecnologia principalmente para reduzir custos. Em vez de diminuir a jornada de todos, reduz o número de trabalhadores necessários para produzir a mesma quantidade, provocando demissões. Os que permanecem empregados continuam trabalhando praticamente o mesmo tempo, agora com máquinas e sistemas que aumentam sua produtividade.
Os trabalhadores demitidos aumentam ainda mais o número de desempregados, fortalecendo a pressão sobre quem continua empregado. Forma-se um ciclo que tende a concentrar cada vez mais capital em poucas empresas e enfraquecer toda a classe trabalhadora.
O efeito é o mesmo com ou sem ganância
Muitas pessoas acreditam que isso acontece porque existem empresários gananciosos, mas a realidade é mais complexa.
Mesmo um empresário que desejasse reduzir sua margem de lucro para preservar empregos enfrentaria a concorrência de empresas que não fariam o mesmo. Se seus custos se tornassem maiores, seus preços tenderiam a subir, suas vendas poderiam cair e seu negócio acabaria perdendo espaço ou até fechando.
Da mesma forma, se uma empresa deixar de investir em novas tecnologias enquanto suas concorrentes aumentam a produtividade e reduzem custos, ela corre o risco de desaparecer.
Isso mostra que a ganância individual não explica o funcionamento do sistema. O próprio sistema obriga empresas e empresários a seguirem uma lógica permanente de redução de custos, aumento da produtividade e busca por mais lucro.
A concorrência destrói trabalhadores e empresas menores
Essa mesma lógica não atinge apenas os trabalhadores, empregados ou desempregados. Ela também afeta as empresas. Nenhuma consegue escapar da necessidade de aumentar continuamente sua produtividade e reduzir custos. Algumas desaparecem, outras acabam sendo compradas e outras crescem justamente porque venceram a concorrência anterior.
Empresas maiores possuem mais recursos para investir em tecnologia, suportar períodos de prejuízo, reduzir preços temporariamente ou comprar empresas menores. Aos poucos, a concorrência concentra mais riqueza e poder econômico nas mãos de um número cada vez menor de grandes grupos.
Assim, enquanto trabalhadores perdem empregos e poder de negociação, muitos pequenos negócios também desaparecem ou acabam sendo incorporados pelas empresas maiores. No capitalismo, uma empresa que simplesmente mantém seu tamanho acaba ficando para trás. Ela precisa crescer continuamente para sobreviver à concorrência.
Nenhuma empresa consegue escapar sozinha dessa lógica. Mesmo que seus proprietários desejem agir de outra forma, a concorrência acaba impondo as mesmas regras para todos.
Chega de arrocho. Existe saída
Se a tecnologia permite produzir mais riqueza com menos trabalho humano, por que continuamos trabalhando tanto, convivendo com o desemprego e vendo pequenos negócios desaparecerem?
Porque a produção não está organizada para atender às necessidades da sociedade. Ela está organizada para transformar dinheiro em cada vez mais dinheiro. É isso que determina as decisões das empresas.
Enquanto essa lógica permanecer, cada avanço tecnológico continuará sendo usado principalmente para reduzir custos, aumentar a produtividade e fortalecer quem já possui mais recursos, em vez de beneficiar toda a sociedade.
Uma redução significativa da jornada de trabalho, sem redução dos salários, permitiria repartir entre todos os ganhos proporcionados pela tecnologia. Essa luta começa hoje, no Brasil, contra o fim da escala 6x1. Mas não para por aí. Exige transformar profundamente a forma como a sociedade está organizada, para que a riqueza produzida pelos trabalhadores seja controlada e distribuída por eles mesmos.Mas isso só pode ser realizado por nós mesmos, juntos, pois os governos estão a serviço de gerenciar a acumulação do capital. O problema é que enquanto isso não acontecer, os ganhos da tecnologia continuarão aparecendo como desemprego, longas jornadas de trabalho e salários sob pressão para muitos e concentração cada vez maior da riqueza nas mãos de poucos.
Para existir, o capitalismo impõe a concorrência entre tudo e todos. Por isso, ele é incompatível com as necessidades da humanidade.