Classificar facções como terroristas é um tiro no pé do nosso povo

Israel Luz
Classificar facções como terroristas é um tiro no pé do nosso povo

Que a segurança pública será um dos grandes temas das eleições de 2026 é evidente. Nas últimas semanas, o debate voltou a se cruzar com a ofensiva de Donald Trump contra a soberania dos países da América Latina. Estamos falando da proposta dos Estados Unidos, apoiada pelo bolsonarismo, de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações “narcoterroristas”.

Enquanto isso, entre a extrema direita e a esquerda governista, o essencial segue fora do debate: quais medidas de fato melhoram a vida e a segurança da classe trabalhadora?

De onde vem essa proposta?

Em 2025, a ideia surgiu no Projeto de Lei das Facções, apresentado como resposta à insegurança, mas sem enfrentar suas causas estruturais. Ao mesmo tempo, buscava-se evitar que o tema ficasse sob domínio exclusivo da extrema direita.

O bolsonarismo, por sua vez, repetia sua fórmula: mais mortes pela polícia e mais encarceramento em massa. Como se o Brasil já não tivesse forças policiais extremamente letais e uma das maiores populações carcerárias do mundo, atingindo sobretudo a juventude negra e periférica.

O relator foi Guilherme Derrite, cuja trajetória e gestão em São Paulo ficaram marcadas pelo aumento da letalidade policial. Após negociações com o governo Lula, a proposta de classificar PCC e CV como “narcoterroristas” foi retirada naquele momento.

Agora, um cenário mais grave

Em setembro de 2025, o pescador colombiano Alejandro Carranza foi morto em uma ação dos Estados Unidos no Caribe sob acusação de tráfico nunca comprovada. Como ele, mais de 80 pessoas foram mortas. O caso continua sendo denunciado por familiares e organizações de direitos humanos.

Esse episódio ajuda a entender a retomada do tema: ele está diretamente ligado à estratégia dos Estados Unidos de ampliar seu domínio sobre a América Latina. Trump busca reforçar sua influência diante da China, contando com aliados como Milei, Noboa e Bukele.

Na cúpula “Escudo das Américas”, esse alinhamento avançou. Poucos dias depois, o Paraguai aprovou um acordo que concede privilégios e imunidade a militares e empresas estadunidenses permitindo, na prática, que atuem sem responder à justiça local.

Também houve tensões na fronteira entre Equador e Colômbia após uma operação com participação dos Estados Unidos ultrapassar limites territoriais. Esse conjunto de fatos revela o risco de aprofundamento da ingerência externa na região.

Não é sobre segurança

A segurança pública seguirá central em 2026. O bolsonarismo aposta no medo social para justificar medidas autoritárias, como o modelo prisional de El Salvador, marcado por encarceramento em massa, violações de direitos e perseguição política.

A esquerda governista tampouco apresenta uma alternativa real. Estados governados pelo PT ou aliados, como Bahia e Pará, registram altos índices de letalidade policial segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.

Ou seja, o problema não é a ausência de repressão, mas a manutenção de um modelo racista, violento e militarizado, que atua como instrumento de controle social em um país marcado por profundas desigualdades.

"Narcoterrorismo" e soberania

A definição de terrorismo é política. Por que ações de potências como Estados Unidos ou Israel não recebem esse rótulo? Porque são essas mesmas potências que determinam quem será classificado como terrorista.

No caso do PCC e do CV, não há objetivo político, mas busca de lucro, muitas vezes articulada com setores da economia formal. Investigações já demonstraram vínculos com empresas e instituições legais. Além disso, o crime organizado não cresce sem apoio ou conivência estatal, seja pela corrupção, seja pelo funcionamento do sistema prisional como espaço de recrutamento.

Especialistas alertam que essa classificação pode inclusive prejudicar investigações. O promotor Lincoln Gakiya aponta que a federalização dos casos pode enfraquecer o combate às facções. Mais do que isso, o rótulo de “narcoterrorismo” abre caminho para maior intervenção dos Estados Unidos, sob o pretexto de combate ao crime, colocando em risco a soberania nacional.

Qual é o caminho?

A saída passa pela organização independente da classe trabalhadora e dos povos oprimidos em toda a América Latina.

Experiências recentes apontam caminhos: mobilizações nos Estados Unidos contra políticas anti-imigração, a vitória indígena em Santarém contra interesses da Cargill e a greve da Avibras mostram a força da luta coletiva.

Mais do que nunca, é necessário lutar por uma nova independência, baseada no controle popular das riquezas produzidas pelo trabalho e na soberania dos povos.

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