Rosi Pantoja*, de Belém (PA)
A Amazônia está em alerta. O aumento das temperaturas, a possibilidade de um Super El Niño e o crescimento dos focos de incêndio acendem um sinal de preocupação para o Pará e toda a região. Os efeitos da crise climática já são sentidos pela população, principalmente por quem vive nas periferias das cidades e nos territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos e camponeses.
O calor não é apenas uma questão de desconforto. Ele afeta a saúde, o acesso à água, as condições de trabalho, a produção de alimentos e a própria sobrevivência das comunidades. E seus impactos não atingem todos da mesma maneira. Enquanto os grandes empresários têm recursos para se proteger, a classe trabalhadora enfrenta temperaturas extremas dentro de casa, no transporte público e nos locais de trabalho.
O problema também não pode ser tratado como um fenômeno isolado da natureza. O desmatamento, a expansão do agronegócio, a mineração e a exploração dos recursos naturais agravam a crise ambiental e tornam a Amazônia ainda mais vulnerável aos eventos climáticos extremos.
O que é o Super El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica os padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica, provocando efeitos em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, seus impactos variam de acordo com a região. Em algumas áreas, pode provocar secas prolongadas e calor intenso. Em outras, aumenta a possibilidade de chuvas volumosas, tempestades e enchentes.
O chamado Super El Niño ocorre quando o aquecimento das águas do Pacífico ultrapassa 2 °C em relação à média histórica. Segundo artigo de Caroline Haddad, publicado pelo Greenpeace Brasil, episódios dessa intensidade foram registrados em quatro ocasiões nos últimos 150 anos: 1877–1878, 1982–1983, 1997–1998 e 2015–2016.
As projeções climáticas divulgadas em 2026 apontam para a possibilidade de um novo episódio. O quarto boletim do Painel El Niño 2026–2027, divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicou 95% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026, com possibilidade de persistir até o primeiro trimestre de 2027.
A preocupação é que o fenômeno intensifique condições já agravadas pelo aquecimento global. Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), 2024 foi o ano mais quente da série histórica brasileira, iniciada em 1961, com temperatura média de 25,02 °C. O valor ficou 0,79 °C acima da média histórica de referência.
Portanto, não estamos falando apenas de um fenômeno passageiro. O El Niño se soma a uma tendência de aumento das temperaturas relacionada às mudanças climáticas.
Belém está esquentando: quem consegue se proteger?
Na capital paraense, o aumento das temperaturas já pode ser percebido. Nos anos 1970, a média das temperaturas máximas em Belém ficava em torno de 31,9 °C. Entre 2020 e 2023, subiu para 33,8 °C e, em 2024, chegou a 34,2 °C.
A situação é ainda mais grave para quem vive em moradias precárias, com pouca ventilação e sem infraestrutura adequada. Aproximadamente 745 mil pessoas vivem em comunidades urbanas precárias em Belém, muitas delas convivendo com a falta de saneamento e habitações pequenas.
Nas escolas públicas, o problema também preocupa. Metade das salas de aula ainda não dispõe de climatização adequada. Crianças e adolescentes passam boa parte do dia em ambientes submetidos a temperaturas elevadas, o que prejudica o conforto, a saúde e a aprendizagem.
A desigualdade aparece também na forma como a cidade é organizada. As periferias concentram problemas de infraestrutura, falta de áreas verdes e dificuldades de acesso aos serviços públicos. Enquanto isso, grandes intervenções urbanas seguem sendo realizadas sem que as necessidades da população trabalhadora sejam colocadas em primeiro lugar.
Um exemplo é a construção da Avenida Liberdade, na região metropolitana de Belém, que impactou cerca de 70 hectares de cobertura vegetal. A obra, realizada pelos governos estadual e federal, foi apresentada como uma alternativa para o escoamento de produtos agropecuários e minerais. Mas a retirada da vegetação também representa a perda de áreas importantes para o equilíbrio ambiental da região.
O calor extremo, portanto, não é vivido da mesma maneira por todos. Quem tem dinheiro consegue instalar ar-condicionado, mudar de casa ou buscar proteção. Já a população pobre enfrenta o calor em moradias inadequadas, ônibus lotados e locais de trabalho sem condições apropriadas.
Incêndios ameaçam a floresta e a população
A combinação entre temperaturas elevadas, redução das chuvas e períodos prolongados de seca aumenta o risco de incêndios florestais. Na Amazônia, esse cenário se agrava com o desmatamento e o uso criminoso do fogo para abrir áreas destinadas à exploração econômica.
Os incêndios destroem a vegetação, ameaçam a biodiversidade, contaminam o ar e colocam em risco a saúde das populações. Também atingem diretamente as condições de vida de quem depende da floresta para trabalhar, produzir alimentos e garantir sua sobrevivência.
Os números registrados no Pará em outubro de 2026 são preocupantes. Segundo reportagem do G1 Pará, nos dias 26 e 27 de outubro foram identificados 931 focos de calor no estado. Entre os dias 1º e 27 de outubro, o total chegou a 11.274 registros, colocando o Pará na liderança nacional naquele período.
Diante da situação, o Ministério Público Federal recomendou a criação de um comitê de crise para enfrentar os incêndios, envolvendo órgãos federais e estaduais.
A região do Xingu também aparece entre as áreas mais preocupantes, com aumento superior a 200% nas queimadas, conforme os dados apresentados na reportagem.
É preciso deixar claro que a crise climática não pode servir de justificativa para esconder os responsáveis pela destruição ambiental. O fogo não surge apenas por causa do calor. O desmatamento, a grilagem de terras e as queimadas criminosas fazem parte de um processo de expansão econômica que transforma a floresta em mercadoria.
Racismo ambiental: quem destrói não é quem mais sofre
As mudanças climáticas estão relacionadas a um modelo de produção baseado na exploração intensiva da natureza e na emissão de gases de efeito estufa. A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e a expansão de atividades econômicas predatórias contribuem para o aquecimento global.
No Pará, o avanço da fronteira agropecuária, a exploração madeireira, a mineração e as grandes monoculturas pressionam os ecossistemas e avançam sobre territórios ocupados por povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e camponeses.
Um exemplo da relação entre interesses econômicos e destruição ambiental foi o chamado Dia do Fogo, em agosto de 2019, quando uma série de queimadas criminosas foi articulada por produtores rurais na região da BR-163, no Pará. O episódio ganhou repercussão nacional e internacional e expôs a relação entre o avanço sobre a floresta e os interesses do agronegócio.
Os efeitos dessa destruição recaem principalmente sobre quem menos contribui para ela. No município de Moju, o fogo já atingiu áreas de plantio de açaí, comprometendo uma importante fonte de renda e subsistência das comunidades. Na região do Tapajós, em Alter do Chão, moradores e comunidades precisaram organizar uma força-tarefa com brigadistas e órgãos públicos para enfrentar os incêndios e proteger o território.
É nesse contexto que precisamos falar de racismo ambiental. Povos indígenas, quilombolas, comunidades ribeirinhas e camponesas enfrentam a perda de suas plantações, a contaminação dos rios, a destruição de seus territórios e a ameaça às suas formas de vida. Enquanto isso, grandes empresas e setores econômicos responsáveis pela degradação ambiental seguem acumulando riquezas.
A crise climática tem responsáveis e vítimas. E, no capitalismo, a natureza e a vida dos povos são colocadas a serviço do lucro.
A Amazônia não precisa de mais destruição: precisa de outro modelo
Os governos apresentam grandes empreendimentos econômicos como sinônimo de desenvolvimento. Mas projetos ligados ao agronegócio, à mineração, ao petróleo e à infraestrutura podem ampliar o desmatamento, a grilagem, os conflitos por terra e a destruição dos rios e da floresta.
O programa do PSTU-Pará parte de uma posição clara: é preciso colocar a vida dos trabalhadores e dos povos da Amazônia acima dos interesses das grandes empresas.
Isso significa suspender megaprojetos que ameaçam os territórios e exigir estudos independentes sobre seus impactos sociais, ambientais e climáticos, com participação e poder de decisão das populações atingidas. Significa também respeitar o direito à consulta livre, prévia e informada dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, conforme a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
É necessário garantir a demarcação das terras indígenas, a titulação dos territórios quilombolas e a regularização dos territórios tradicionais. Também é fundamental combater o garimpo ilegal, a grilagem e a exploração ilegal de madeira, atingindo as redes econômicas e financeiras que lucram com esses crimes.
Outra medida central é a reforma agrária sob controle dos trabalhadores e dos povos da floresta, com apoio financeiro e técnico à agricultura familiar, à agroecologia e à produção de alimentos para a população, em oposição à expansão das monoculturas voltadas à exportação.
O programa também defende um grande plano público de recuperação de áreas degradadas, nascentes, matas ciliares e bacias hidrográficas, envolvendo diretamente o Estado, as universidades públicas, os institutos de pesquisa e as comunidades locais. Para isso, é necessário fortalecer os órgãos públicos ambientais e de pesquisa, com concursos, orçamento e independência diante das grandes empresas.
Cidades preparadas para enfrentar a crise climática
Enfrentar os impactos do Super El Niño também exige mudar a forma como as cidades são planejadas. Não basta falar em sustentabilidade enquanto milhões de pessoas vivem sem saneamento, moradia adequada, drenagem e infraestrutura.
O programa do PSTU defende um plano de obras públicas que combine construção de moradias populares, urbanização das periferias, abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, drenagem urbana e recuperação de áreas degradadas. Essas medidas precisam gerar empregos com direitos e melhorar as condições de vida da população.
Também é necessário proteger os rios amazônicos e impedir intervenções que ameacem a reprodução dos peixes, a pesca artesanal, a qualidade da água e a sobrevivência das comunidades ribeirinhas.
A transição energética deve ser planejada, com redução progressiva da dependência dos combustíveis fósseis e investimento público em fontes renováveis. Mas ela não pode significar a privatização de territórios nem transferir seus custos para os trabalhadores e as comunidades tradicionais. Quem trabalha em atividades ambientalmente destrutivas precisa ter garantidos emprego, direitos e alternativas econômicas.
Por fim, as decisões sobre o futuro da Amazônia não podem ficar nas mãos de governos e empresas. O PSTU defende a criação de conselhos populares e territoriais com poder efetivo de fiscalização e decisão, reunindo trabalhadores, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, movimentos sociais, universidades e pesquisadores.
A Amazônia não pode continuar sendo tratada como uma fonte inesgotável de riquezas para grandes empresários. É preciso enfrentar a lógica capitalista que transforma a floresta, os rios e a vida dos povos em mercadorias.
O Super El Niño é mais um alerta de que não há tempo a perder. Defender a Amazônia significa defender seus povos, seus territórios e as condições de vida da classe trabalhadora. A vida precisa estar acima do lucro!
Rosi Pantoja é engenheira agrônoma, técnica do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), mestre em agriculturas amazônicas e doutoranda pelo Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (Ineaf/ UFPA)