Vídeo publicado nos perfis oficiais do Departamento de Estado dos Estados Unidos, nesta terça-feira, 11, avisa que o domínio imperialista do país sobre todo o continente americano "nunca mais será questionado".
Mais do que um histórico da "Doutrina Monroe", que preconizava "a América para os americanos", o vídeo reafirma uma ameaça direta a todos os países que não se submeter às vontades imperialistas de Trump, tratando a invasão militar e o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela em janeiro último como "um forte sinal a todo o hemisfério".
A divulgação do vídeo pelo governo Trump ocorre num momento em que o imperialismo estadunidense reforça sua ofensiva sobre a América Latina. Após a invasão militar e o sequestro de Maduro, instaurou um governo fantoche na Venezuela, no qual Delcy Rodriguez recebe ordens diretamente do Secretário de Estado, Marco Rubio. Aprofundou de forma brutal o bloqueio a Cuba, colocando a ilha no escuro e afetando todo o povo cubano, e apoiou diretamente os candidatos alinhados a seu projeto de extrema direita, como Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Chile.
Faz parte desta mais nova ofensiva a retomada dos tarifaços contra o Brasil e o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. O candidato do bolsonarismo, aliás, não só conspirou contra o Brasil para seus fins eleitoreiros, como chegou a prometer, uma vez empossado, disponibilizar uma equipe de transição para Trump. Uma mostra de vira-latismo e traição sem precedentes na história do país. Já a classificação de organizações criminosas como “terroristas” é uma medida hipócrita para legitimar a ameaça de uma invasão militar.
The Monroe Doctrine has shaped U.S. foreign policy for over two centuries. 🇺🇸
— Department of State (@StateDept) August 11, 2026
American dominance in the Western Hemisphere will never be questioned again. pic.twitter.com/hsoGS17gqV
O que está por trás desta nova ameaça?
No vídeo divulgado pelo governo Trump e apresentado pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Marino Cabrera, a administração Trump faz um retrospecto da Doutrina Monroe do século 19 aos dias de hoje. Concebido pelo então presidente James Monroe em 1823, no contexto da disputa contra a Grã-Bretanha e demais potências europeias pelo controle da região, essa doutrina foi retomada no século seguinte para legitimar o domínio imperialista dos EUA sobre todo o continente.
"O que começou como uma advertência às potências europeias evoluiu para uma estrutura de domínio regional — uma doutrina que continua sendo, até hoje, uma pedra angular da estratégia americana no hemisfério", afirma Cabrera no vídeo, que ignora, por exemplo, a atuação direta dos EUA na instauração e manutenção das ditaduras militares do Cone Sul nas décadas de 1960 e 1970.
A nova ameaça do governo Trump reafirma a Nova Estratégia de Política Externa, divulgada no ano passado e que coloca o "Hemisfério Ocidental", ou a América do Sul, como centro da atuação externa dos EUA, no que o próprio governo norte-americano chamou de “Doutrina Donroe”. Por trás dessa ofensiva está a tentativa de o imperialismo norte-americano conter o avanço da China sobre a região, nos marcos de uma disputa interimperialista que vem redesenhando o mundo no último período.
Os EUA não só querem frear o avanço do imperialismo chinês, como controlar diretamente os recursos naturais e estratégicos, como as terras raras (cuja produção hoje é hegemonizada pela China), fundamentais para a indústria de alta tecnologia, do setor de defesa à produção de semicondutores. O Brasil detém a segunda maior reserva do planeta desses recursos, e ocupa papel central na Doutrina Donroe. E para concretizar seus objetivos, Trump não se contenta com governos subordinados, mas quer representantes diretos, nem que para isso lance mão de uma invasão militar direta. Esse é o subtexto do vídeo: ajoelhem-se ou sofrerão as consequências.

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A extrema direita é cúmplice e o governo Lula não enfrenta o imperialismo
Enquanto o bolsonarismo e a extrema direita se colocam como agentes diretos do imperialismo norte-americano, oferecendo-se como meros serviçais de Trump, o governo Lula, embora no discurso reclame e denuncie os sucessivos ataques e ameaças dos EUA, na prática, nada faz para enfrentar essa ofensiva. A reciprocidade diante do tarifaço de Trump, por exemplo, não saiu dos discursos, atendendo às súplicas de uma burguesia atavicamente subordinada cuja existência se define por se aproveitar dos restos que caem da rapina imperialista.
Em discurso realizado na fábrica da Avibrás, empresa de material bélico cujo fechamento e desnacionalização foi impedida após uma heroica greve de três anos e meio, Lula, ao se referir à importância da defesa da soberania, preferiu atacar o Paraguai a mencionar a ameaça concreta dos EUA. A política de conciliação do governo do PT, com a burguesia nacional e até com os diferentes imperialismos, não permite qualquer enfrentamento à ameaça de Trump.
A soberania nacional, desta forma, só pode ser garantida através da mobilização da classe trabalhadora, em unidade com os trabalhadores e os povos-irmãos da América Latina. No Brasil, os trabalhadores devem exigir de Lula não só uma imediata retaliação ao tarifaço, como a proibição das remessas de lucros das multinacionais norte-americanas, a reestatização de setores estratégicos nas mãos dos EUA e a expropriação de seus monopólios.
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