Gustavo Machado abre semestre 2026.2 na UEFS em Aula Magna com a comunidade universitária

PSTU-BA
Gustavo Machado abre semestre 2026.2 na UEFS em Aula Magna com a comunidade universitária
Aula Magna na Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia

Por Alana Muniz e Victor Pereira, de Salvador (BA)

No dia 20 de agosto de 2026, Gustavo Machado, militante do PSTU, doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisador do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE), autor de obras de grande envergadura intelectual, como o recentemente lançado “Marx e a Filosofia: O Capital como crítica à metafísica”, e divulgador das ideias marxistas por meio do canal Orientação Marxista, inaugurou o semestre 2026.2 da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Na ocasião, ministrou a Aula Magna com o tema “Universidade pública e capital privado: Disputas pela propriedade intelectual e produção de conhecimento”.

A atividade foi realizada no Teatro da UEFS e contou com ampla participação da comunidade universitária, reunindo professores, estudantes, trabalhadores técnico-administrativos e público em geral. Também estiveram presentes representantes da Reitoria, da Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Feira de Santana (ADUFS) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), que teve papel central na articulação do convite a Gustavo. O debate relacionou a estrutura econômica dependente do Brasil às transformações tecnológicas contemporâneas, aos limites da acumulação capitalista e ao desmonte das instituições públicas de ensino e pesquisa.

Inteligência Artificial

Ao percorrer os principais pontos de sua exposição, Gustavo Machado iniciou a análise pela Inteligência Artificial (IA). Reconheceu o avanço tecnológico e o enorme potencial da ferramenta para elevar a produtividade do trabalho. No entanto, destacou que, sob as relações sociais de produção capitalistas, o resultado desse avanço tem sido o desemprego e a intensificação da exploração. Segundo ele, enquanto a burguesia controla o uso e a aplicação das inovações tecnológicas, a automação e os ganhos de produtividade não são direcionados à redução da jornada de trabalho ou ao bem-estar social, mas à ampliação da extração de mais-valia e da valorização do capital.

Em seguida, Machado abordou a raiz material do atraso econômico brasileiro. Para ele, o problema não decorre de uma falha conjuntural de gestão, mas da posição ocupada pelo país na Divisão Internacional do Trabalho (DIT), ou seja, do papel que a economia brasileira desempenha no capitalismo global. Enquanto os países centrais, detentores das tecnologias mais avançadas, controlam os setores que geram maior valor agregado, o Brasil tem sido cada vez mais relegado à condição de exportador de commodities, como minério de ferro, soja, carne e celulose.

Essa especialização, argumentou, gera dois problemas centrais. O primeiro é a baixa absorção de mão de obra qualificada, já que a produção agroexportadora é altamente mecanizada, exige pouca formação e gera poucos empregos, geralmente marcados por baixos salários e precarização. O segundo é a transferência do excedente econômico para o exterior, seja pelas multinacionais que atuam no país, seja pelo próprio capital nacional, que prefere investir em setores mais produtivos e tecnologicamente avançados fora do Brasil, aprofundando a estagnação econômica.

Machado explicou ainda que o capitalismo necessita de expansão contínua. Setores industriais tradicionais, como os de eletrodomésticos, automóveis e eletrônicos básicos, que compõem parte da estrutura industrial brasileira construída na segunda metade do século passado, já passaram por seu período de maior crescimento. Diante disso, o grande capital volta-se para novas fronteiras tecnológicas, como a IA. Contudo, devido à condição dependente da economia brasileira, o país não desenvolveu uma indústria própria nos setores de ponta da chamada Indústria 4.0. Assim, tanto o capital nacional quanto o estrangeiro instalado no Brasil encontram poucas alternativas para reinvestir produtivamente seus excedentes no mercado interno.

Sem conseguir ampliar continuamente seus lucros por meio da indústria ou da inovação tecnológica, a burguesia brasileira e o capital financeiro recorrem, segundo Machado, a duas saídas parasitárias. A primeira é a especulação com títulos da dívida pública, lucrando com algumas das mais altas taxas de juros do mundo. Dessa forma, recursos que poderiam ser destinados à saúde, educação e infraestrutura acabam transferidos para banqueiros e rentistas. A segunda é a privatização de serviços essenciais, como energia elétrica, água, saneamento, rodovias e transportes. Ao transformar direitos básicos em mercadorias, o objetivo passa a ser a maximização do lucro, resultando em demissões, aumento de tarifas e deterioração dos serviços prestados à população.

Função social da universidade

Ao analisar a função social da universidade sob a ótica do capital, Machado destacou dois eixos principais de subordinação.

O primeiro é a socialização dos custos e a privatização dos lucros. A pesquisa científica de alto risco e longo prazo é financiada com recursos públicos por meio das universidades. Entretanto, uma vez consolidadas as inovações, a exemplo da própria IA, a propriedade intelectual é apropriada e patenteada pelo setor privado. Em suas palavras, trata-se da socialização dos custos da pesquisa e da privatização da riqueza produzida.

O segundo eixo é a desnecessidade da qualificação em massa. A universidade também cumpre a função de formar trabalhadores qualificados. Porém, em uma economia desindustrializada, primarizada e dependente, a demanda por trabalho intelectual qualificado torna-se limitada. Com a redução do parque industrial, o mercado absorve cada vez menos profissionais altamente qualificados, empurrando grande parte da juventude para o desemprego, a informalidade ou o subemprego. Esse contingente integra o chamado exército industrial de reserva, pressionando salários para baixo por meio da concorrência entre trabalhadores. Para Machado, a asfixia orçamentária das universidades públicas reflete essa própria desnecessidade estrutural do desenvolvimento científico dentro de um modelo econômico em decadência.

O professor também chamou atenção para a gravidade do tema na era das Big Techs. Se, nos setores industriais tradicionais, a dependência econômica exigia ao menos alguma estrutura produtiva instalada no país, a economia digital baseada em IA reduz até mesmo essa necessidade. As etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva — desenvolvimento de software, semicondutores e processamento de dados — permanecem concentradas nos países centrais. Ao Brasil resta, muitas vezes, apenas uma presença administrativa, sem geração significativa de riqueza, empregos qualificados ou soberania digital, situação evidenciada historicamente por episódios de espionagem contra empresas estratégicas brasileiras, como a Petrobras.

Nesse contexto, afirmou Machado, o Brasil mergulha em uma espiral de desindustrialização, perda de capacidade produtiva, subutilização da força de trabalho e transferência de riqueza para o exterior. Em contraposição às análises que atribuem o atraso econômico apenas às elevadas taxas de juros, ele inverte a relação de causalidade: os juros altos seriam consequência e instrumento de sustentação de uma estrutura econômica dependente do imperialismo e fortemente rentista. Em outras palavras, a situação econômica do país não decorre dos juros elevados; os juros elevados decorrem da própria estrutura econômica existente.

Por fim, Machado concluiu que a luta pela reindustrialização, pela soberania tecnológica, pelo fortalecimento do financiamento das universidades públicas e pelo incentivo à pesquisa científica não interessa apenas à comunidade acadêmica ou a uma categoria profissional específica. Trata-se de uma batalha histórica de toda a classe trabalhadora.

Militância do PSTU presente na Aula Magna na UESF

 Superar a conciliação de classe

Nessa perspectiva, enfatizou a impossibilidade de superar os gargalos nacionais por meio da conciliação de classes, estratégia que marca a dinâmica do PT, tanto no governo federal com Lula como no estadual com Jerônimo Rodrigues. Para Machado, a burguesia brasileira, guiada pelo imediatismo e pela lógica rentista, é incapaz de romper com o subdesenvolvimento. Dessa forma, impõe ao país e à classe trabalhadora um futuro de subalternidade que somente a mobilização anticapitalista e revolucionária, baseada na independência de classe, poderia reverter por meio de transformações estruturais profundas.

“Pessoalmente, ouvir um pesquisador e figura política tão gabaritada como Gustavo Machado foi muito enriquecedor. Achei que toda a atividade foi extremamente positiva e produtiva para a comunidade presente. Definitivamente, no que diz respeito ao domínio do capital estrangeiro sobre setores estratégicos do país por meio das privatizações, Gustavo apresenta reflexões muito esclarecedoras sobre essa questão”, declarou Andrey Cruz, músico e estudante.

“A Aula Magna com o pesquisador Gustavo Machado foi bastante proveitosa e me permitiu aprender muitas coisas. Ele fez uma análise da Inteligência Artificial e de seus impactos sobre o mercado de trabalho. Segundo ele, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como a sociedade capitalista está organizada. Além disso, apresentou dados do Anuário Estatístico 2025: Trabalho e Exploração, do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE), relacionados ao tema da aula”, afirmou Hanna Lara, estudante de Pedagogia.

 O Anuário Estatístico 2025: Trabalho e Exploração, do ILAESE, pode ser adquirido no site da Editora Sundermann.

A militância do PSTU na Bahia também esteve presente em Feira de Santana para prestigiar a Aula Magna ministrada por Gustavo Machado. A atividade foi aproveitada para apresentar a campanha de Hertz Dias à residência da República, por meio de panfletagens e diálogos com a população no centro da cidade e entre os estudantes da UEFS, divulgando as propostas socialistas e revolucionárias do PSTU.

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