Enquanto fechávamos esta edição, piorava cada vez mais a situação do presidenciável Flávio Bolsonaro e seu envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista da maior fraude financeira da história no país. Após o site The Intercept Brasil revelar que o filho do ex-presidente golpista pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para supostamente financiar o filme em homenagem ao pai, ficamos sabendo que o senador visitou o banqueiro tão logo ele foi liberado da primeira prisão para aguardar as investigações em casa, monitorado por uma tornozeleira.
Antes disso, vamos rapidamente recapitular essa história que, mais que um filme mambembe, vem ganhando contornos de um dramalhão. No dia 13 de maio, The Intercept publicou o áudio que cairia como uma bomba na pré-campanha da extrema direita. Mostrando excessiva intimidade, Flávio Bolsonaro cobra um dinheiro que teria sido prometido a ele pelo banqueiro um dia antes de Vorcaro ser preso pela Polícia Federal enquanto corria para seu jatinho rumo a Dubai. Horas antes da divulgação das conversas, um repórter do site perguntou durante um “quebra-queixo” (entrevistas coletivas improvisadas) se o senador teria recebido dinheiro de Vorcaro para a produção do filme, ao que foi respondido com risadas de deboche. Pouco depois, o áudio incriminador rodava a internet.
Ligações perigosas
Com a revelação do áudio, o senador foi obrigado a reconhecer o pedido a Vorcaro, dando a desculpa furada de que havia negado antes por “questões contratuais de confidencialidade”. Só não explicou o orçamento multimilionário do tal filmeDark Horse(O azarão em tradução livre), mais caro queO Agente Secreto(R$ 45 milhões) eAinda estou aqui(R$ 28 milhões), ambos indicados e um vencedor de Oscar, somados. Pior ainda, a produtora do filme, GoUP, negou ter recebido “um centavo” de Vorcaro, assim como o ex-ator deMalhaçãoe ex-secretário da Cultura do governo Bolsonaro, Mário Frias, roteirista desta superprodução da trambicagem.
Frias certamente não sabia que, no dia 19, viria à tona um áudio seu agradecendo ao banqueiro pela doação milionária. Já a GoUP foi obrigada a reconhecer que Vorcaro pagou mais de 90% do filme.
Voltamos agora à visita de Flávio ao banqueiro, já em prisão domiciliar. Segundo o senador, o encontro teria sido simplesmente para avisá-lo que ele não sabia de todas as maracutaias e que não faria mais negócio com ele. A narrativa de Flávio Bolsonaro é menos crível que a peruca do ator que interpreta seu pai: para pedir milhões, ele manda um áudio no zap; para supostamente avisar que estava tudo terminado entre eles, faz questão de visitar Vorcaro pessoalmente.
Não é sobre cinema
As investigações ainda têm muito o que revelar, e o celular de Vorcaro é uma mina sem fundo de áudios, documentos e conversas comprometedoras. O que dá para afirmar é que a história do filme é balela. No desespero, a campanha de Flávio Bolsonaro vazou o trailer da produção (para provar a existência do filme), que mais parece um daqueles episódios antigos do seriadoChaves. O banqueiro chegou a dar efetivamente R$ 61 milhões para Flávio Bolsonaro, e não foi para filme nenhum.
Suspeita-se fortemente que essa grana tenha ido para sustentar o deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos EUA. O irmão de Flávio Bolsonaro foi um dos principais articuladores do tarifaço de Trump no ano passado, conspirando contra o país, e estaria montando uma engrenagem de sustentação financeira do bolsonarismo no exterior. Ou poderia ainda irrigar a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Ou as duas coisas. O que certamente não financiou foi a peruca do ator Jim Caviezel no constrangedor papel de Bolsonaro.

Eleições
Escândalo não dissolve polarização
O escândalo desencadeou um abalo sísmico na pré-candidatura da extrema direita. Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada no dia 19 de maio mostra uma queda de cinco pontos de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e de seis pontos no segundo. Além de abalar a pré-campanha, jogou lenha na fogueira da disputa pelo protagonismo da ultradireita na chapa presidencial. O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), já aproveitou o momento para se fingir de indignado e atacar o senador, enquanto o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), se fez de espantado, mas pisou leve para não perder a base bolsonarista.
Fato é que o caso expôs de forma crua a hipocrisia e o falso discurso moralista anticorrupção da extrema direita. Assim como o pretenso caráter antissistema dessa gente, que, na realidade, faz e sempre fez parte desse sistema, sua ala mais podre e corrupta. Até o MBL de Renan Santos, que legalizou recentemente seu partido Missão e se vende, principalmente para os setores mais jovens, como uma alternativa liberal sem o fisiologismo do bolsonarismo, está envolvido em escândalos, como o da sonegação bilionária da Refit.
O tabuleiro da extrema direita
Apesar do impacto na pré-candidatura da extrema direita, o mais provável é que o cenário continue polarizado, mantendo ou não a candidatura de Flávio Bolsonaro. Isso porque, embora desgastada por ora, a ultradireita expressa um fenômeno mais profundo: o nível de decadência, retrocesso e barbárie do próprio capitalismo. Aproveita-se também da baixa popularidade de Lula, ao o governo do PT se colocar como administrador da ordem capitalista.
O governo Lula, por sua vez, que poderia aproveitar o atual momento de fragilidade do bolsonarismo, continua apostando suas fichas numa política de conciliação e acordos com o centrão e a própria direita em nome da governabilidade. E, também envolvido no escândalo do Banco Master, não consegue fazer uma devassa no sistema financeiro e seus tentáculos na política e no judiciário. Tampouco consegue reverter a independência no Banco Central que, além de deixar rolar escândalos como esse, impõe um dos juros mais altos do mundo que, por um lado, enriquece ainda mais banqueiros e turbina o capital financeiro e, por outro, aprofunda o endividamento das famílias.
Tudo dominado
Escândalo do Banco Master pega todo mundo, e extrema direita está longe de estar morta
A orientação do PT é explorar ao máximo o caso para desgastar Flávio Bolsonaro. A questão que fica é: uma investigação a fundo do Banco Master interessa ao governo Lula? O banco de Vorcaro mantinha estreitas relações com o PT da Bahia, de Jaques Wagner, onde o esquema criminoso teria começado. Guido Mantega, ex-ministro da Fazendo nos governos do PT, foi contratado por um salário de R$ 1 milhão para assessorar o trambiqueiro, articulando várias reuniões com Lula. Ao mesmo tempo, se a fraude começou no governo Bolsonaro, prosseguiu debaixo do nariz do Banco Central de Gabriel Galípolo, indicado por Lula.
A realidade é que a fraude do Banco Master é ecumênica: pega tanto a família Bolsonaro quanto o centrão de Ciro Nogueira, o governo do Distrito Federal e o próprio STF, sendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli os principais envolvidos até agora. Muito mais pode vir à tona nos próximos dias e semanas. Se agora Flávio Bolsonaro, pego na mentira, pede de forma hipócrita uma CPI do Banco Master, é evidente que ninguém tem real interesse em investigar coisa nenhuma.
No caso improvável de uma CPI, seriam, ainda assim, as próprias raposas tomando conta do galinheiro, garantindo uma verdadeira “pizza Master”.
Extrema direita não está morta
As pesquisas que apontam a alta rejeição de Lula indicam um desapontamento em relação às expectativas. O povo não está comendo picanha e, ao contrário, enfrenta um endividamento recorde e uma inflação que, embora tenha arrefecido no último período, continua na estratosfera. A precarização e a superexploração do trabalho, tanto formal quanto os empregos por aplicativos, dão a sensação de que se trabalha cada vez mais para receber cada vez menos. Longe de ser um produto de narrativas da extrema direita, a insatisfação geral é bastante concreta.
Essa situação é fruto da atual política econômica do governo Lula e, de modo mais estrutural, da própria crise capitalista e do papel cada vez mais rebaixado do Brasil. A recente aprovação da lei que entrega as terras raras aos monopólios estrangeiros imperialistas mostra que a política do governo Lula não é se contrapor a esse processo, mas fazer avançar o projeto de retroceder o país a mero país semicolonial exportador decommodities. Não há nenhuma possibilidade de desenvolvimento ou reindustrialização nesses marcos. Logo, essa política aponta para cada vez mais retrocesso e degradação do país. E é nesse ambiente que a extrema direita se fortalece e se perpetua.