A Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, interferiu nas eleições de 2026 a favor da extrema direita. Os vídeos do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira tiveram mediana de 38 milhões de visualizações cada, 17 vezes o desempenho de outros nove deputados federais em proporção aos seguidores. Usuários denunciaram que a inteligência artificial (IA) da Meta no WhatsApp se recusava a fazer cartazes com “Vote Lula 13”, mas fazia “Vote Flávio 22”. A conta de anúncios da campanha de Lula sofreu restrições, e a própria empresa admitiu erros. Até o comitê de supervisão criado pela empresa falou em “falhas recorrentes”.
Não é coincidência. As big techs e a extrema direita andam juntas. Nos Estados Unidos, os donos dessas empresas estavam todos na posse de Trump. Aqui, a Meta fala em falhas técnicas, mas as principais falhas beneficiaram a extrema direita. E, mesmo que fossem só erros, o problema seria o mesmo. Uma empresa estrangeira decide quem é visto no debate eleitoral, com regras que ninguém de fora consegue auditar. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu 48 horas para a Meta se explicar e ficou refém do que ela aceitou mostrar.
Nossos dados são o território
Pesquisadores chamam de colonialismo de dados a apropriação da vida cotidiana, das conversas aos deslocamentos, como matéria-prima das big techs. E de imperialismo de plataforma o domínio de um punhado de empresas, quase todas estadunidenses, sobre a infraestrutura digital do planeta. A Meta tira praticamente toda a sua receita da publicidade. O que ela vende é a nossa atenção.
Os dados também moram fora. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 60% dos dados e serviços de IA usados no país são processados no exterior. E a lei estadunidense, conhecida como CLOUD Act, permite ao governo dos EUA exigir dados de empresas estadunidenses onde quer que estejam.
Lula reclamou da Meta, mas não regulamentou as redes sociais. O projeto de lei das fake news está parado na Câmara desde 2023, e nenhuma lei obrigou as plataformas a abrir seus algoritmos. Pior: o governo hospeda dados do Estado nas nuvens dessas mesmas big techs. A Nuvem de Governo usa serviços de Amazon, Google, Oracle e Huawei. E o governo ainda ofereceu às big techs R$ 5,2 bilhões em isenções para instalar data centers aqui por meio do Programa Redata. Quem reclama da raposa e entrega a ela a chave do galinheiro não defende soberania nenhuma.
Firewall não é soberania
Há quem aponte o modelo chinês ou russo como alternativa, porque lá o Estado barrou as plataformas dos EUA. Mas essa soberania protege o Estado, não a população. Na Rússia, o Kremlin confirmou em 2026 o bloqueio do WhatsApp e empurra a população para o Max, um aplicativo estatal. Na China, a Lei de Inteligência Nacional, de 2017, obriga “todas as organizações e cidadãos” a “apoiar, auxiliar e cooperar” com o trabalho de inteligência do Estado. Trocar a vigilância de uma big tech pela de um Estado que persegue quem se opõe a ele não liberta ninguém. A luta por soberania digital não pode terminar nas fronteiras nacionais.

Uma saída dos trabalhadores
A alternativa não virá do Vale do Silício nem de Pequim. Começa por obrigar as plataformas que operam aqui a abrir algoritmos e código, proibir que dados sensíveis do Estado fiquem em nuvens estrangeiras e construir plataformas públicas, de código aberto, sobre infraestrutura própria. E exige expropriar as big techs e a infraestrutura digital das mãos de bilionários, colocando-as sob controle dos trabalhadores e dos usuários.
Nada disso sai do papel sem ter quem sabe fazer. Programadores, engenheiros da computação e trabalhadores de TI são parte da classe trabalhadora. Em 2024, o Google demitiu 28 funcionários que protestaram contra um contrato de nuvem com o governo de Israel. Essas empresas temem quando quem as faz funcionar se organiza. Cabe a esses trabalhadores se organizar nos sindicatos, nos coletivos e nas universidades e pôr o seu conhecimento a serviço de um projeto próprio, com software livre, plataformas públicas e redes sob controle democrático. A luta por soberania digital não pode terminar nas fronteiras nacionais. Precisamos unir os trabalhadores de tecnologia e os usuários de todo o mundo contra o poder dos monopólios digitais.