Dia 5 de outubro de 2026. Contrariando praticamente todas as pesquisas, Flávio Bolsonaro emerge como grande vitorioso do primeiro turno das eleições, com 47% dos votos, à frente de Lula, com pouco mais de 45%. Um resultado que contrariava os institutos de pesquisa, mas não a altíssima rejeição enfrentada pelo terceiro mandato de Lula.
Se por um lado o filho de Jair Bolsonaro já se considerava eleito, planejava seu ministério e falava em mudar a Constituição, por baixo começava uma intensa efervescência social contra a extrema direita. Não deram 24 horas do fechamento das urnas, começaram a explodir manifestações espontâneas, absolutamente por fora do controle da campanha do PT e dos aparatos oficiais. A passeata dos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) já na segunda-feira acendeu um rastilho de pólvora que se estendeu por São Paulo e todo o país.
Das capitais às pequenas cidades do interior, as ruas se inundaram num dos maiores processos de mobilização da história do país. Uma onda de protestos fundamentalmente contra a extrema direita, suas ameaças às liberdades democráticas, mas também contra a ameaça do tesouraço de Flávio, em defesa dos serviços públicos, do meio ambiente e dos programas sociais.
Mobilização espontânea
Na prática, o movimento se organizava de forma independente e tomava para si a campanha contra o bolsonarismo. As manifestações desmentiram na prática o discurso surrado repetido pelo PT, de que é preciso acenar ao centro e à direita para vencer as eleições. Lula tentou se aproximar ainda mais de setores do centrão, chegou a defender a pauta da extrema direita de redução da maioridade penal, mas o que garantiu a vitória foi a força das ruas.
Brigadas de “vira-voto” foram se organizando nos bairros, periferias, locais de trabalho, escolas e universidades. O “Exército do Janones” cumpriu um papel importante nas redes, apesar de seguir a linha oficial do governo, mas só foi possível amparado num exuberante movimento de massas. Um processo que uniu manifestações com centenas de milhares de pessoas à discussão política individual com colegas de trabalho e familiares.
Nas semanas que compreenderam o segundo turno, a força do movimento produziu uma intensa politização no país. Gente que nunca havia discutido política deixou a apatia de lado e não só começou a se interessar, como muitos se integraram de modo espontâneo à campanha contra o bolsonarismo.

Virada histórica
Dia 25 de outubro de 2026. O final do dia marcava uma virada histórica, com a eleição de Lula com 51,7%, contra 48,2% de Flávio Bolsonaro, uma vantagem de impressionantes 4,4 milhões de votos. Uma virada inédita tanto pela superação dos votos contra o primeiro colocado na primeira votação quanto pela redução das abstenções. As cenas de idosos com muletas, em macas, respiradores indo votar causaram uma verdadeira comoção e rodaram o mundo.
As comemorações que tomaram as ruas tinham razão de ser. A mobilização enfrentou e derrotou a ameaça da extrema direita nas urnas, derrotou a Meta (dona de WhatsApp, Facebook e Instagram), que privilegiou de forma flagrante a campanha da extrema direita, e a tentativa de boicote pelas prefeituras de Bruno Reis, em Salvador, e Ricardo Nunes, na capital paulista – eles retiraram parte da frota de ônibus no dia da votação.
A fuga patética de Flávio Bolsonaro, articulada com os governos Trump e Milei, por fim, coroou a desmoralização do bolsonarismo.
Análise
Uma vitória e suas contradições
A mobilização que derrotou a extrema direita nas urnas foi uma vitória inconteste. Mostrou, na prática, a falácia da falta de correlação de forças para enfrentar a ultradireita. Duas semanas de mobilizações massivas não só inverteram a tendência eleitoral, como foram fundamentais para a aprovação do fim da escala 6x1 no Senado, além de fortalecerem pautas como a soberania e os direitos sociais.
Puxadas pela juventude, expressa ainda um processo que ocorre em várias partes do mundo, agora sobretudo na Europa, onde estudantes e juventude trabalhadora saem às ruas contra a crise habitacional, em defesa da educação e chegam a contestar o próprio sistema. Algo que já vinha acontecendo antes, com a chamada geração Z se insurgindo contra o status quo.
O novo governo Lula não é um governo dos trabalhadores
A mobilização massiva que derrotou a extrema direita, no contexto de uma disputa eleitoral de segundo turno significou também a eleição de um novo governo Lula. Um governo já desgastado justamente por sua política de conciliação de classes e medidas como o arcabouço fiscal, que resultou num mandato que atuou com e para os grandes monopólios capitalistas, o grande agronegócio e os banqueiros. E que, por isso, não só mudou de forma estrutural as condições de vida da grande maioria da população, como as pioraram ainda mais.
A crise do Supremo Tribunal Federal (STF), o não cumprimento de promessas, como a revogação da reforma trabalhista, e a alta inflação e deterioração das condições de trabalho mostraram ao povo um governo do PT que aparecia como o defensor do sistema. Enquanto isso, a extrema direita, de forma hipócrita, colocava-se como antissistema, embora seja a pior parte dele. Então, mesmo com Bolsonaro derrotado na eleição presidencial, o bolsonarismo teve uma votação histórica que angariou enormes bancadas na Câmara e no Senado. A própria votação de Flávio Bolsonaro, com 60 milhões de votos, revela o peso que a extrema direita mantém.
Isso reafirma que o projeto falido de conciliação do PT não só não é capaz de melhorar a vida da classe trabalhadora e da população, como acaba se convertendo em mola propulsora para a extrema direita. Lá em 2022 o governo do PT afirmava que elegendo Lula se derrotaria o bolsonarismo. Quatro anos depois, a extrema direita não só não diminuiu, como se fortaleceu.
A extrema direita segue forte
A derrota de Flávio Bolsonaro foi fruto, de forma determinante, da ação independente das massas. Mas as eleições também mostraram que não se derrota a extrema direita pela via eleitoral, muito menos com uma política de conciliação com o centrão e até setores da própria extrema direita.
Por outro lado, a ação direta de milhões de jovens e trabalhadores, com iniciativa e organização, empoderam o movimento e já há mostras de que não foi um cheque em branco. As críticas e exigências ao governo diante dos ataques que povos originários vem sofrendo de mineradoras, fazendeiros e a extrema direita, assim como a resistência a um novo ajuste fiscal que se desenha, mostram que será difícil cooptar esse movimento, cuja grande parte já fez a experiência com a política de conciliação e indica que não aceitará ataques ou acordões.
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Nos dois turnos, PSTU apresentou uma política de classe e independente
O PSTU apresentou a candidatura de Hertz Dias e Vanessa Portugal no primeiro turno a fim de discutir e defender um programa revolucionário e socialista para o Brasil, que atinja a fundo as razões do nosso retrocesso e degradação social. Um programa que coloca a necessidade de expropriar os grandes monopólios capitalistas que controlam grande parte da nossa economia, e a questão da soberania nacional, sob a perspectiva dos trabalhadores, no centro do debate. Junto a isso, a necessidade de construir uma alternativa da classe trabalhadora que supere a polarização entre duas alternativas capitalistas.
No segundo turno, o PSTU chamou o voto crítico em Lula, sem nenhum apoio ao governo. Isso porque, embora ambos representem formas distintas de continuar administrando o capitalismo, um eventual governo Flávio Bolsonaro se colocava de forma declarada como uma ameaça às liberdades democráticas e, por isso, piores condições de se lutar contra os ataques que virão. Além de combater o bolsonarismo, foi o melhor também para explicar aos trabalhadores o caráter capitalista do governo Lula e apontar para a necessidade de fazer uma oposição de esquerda a este governo. Por isso, o PSTU esteve ativamente nas manifestações e na organização de Blocos do Voto Crítico em todo o país, aglutinando ativistas para virar votos e derrotar o bolsonarismo, mantendo total independência política.
Junto a isso, o PSTU pautou a necessidade de se superar o PT e a política de conciliação de classes pela esquerda. Ao contrário da esquerda da ordem, que apoia e se coloca como base do governo Lula como forma de combater a extrema direita, o PSTU alertou que é a própria política do governo do PT, como o arcabouço fiscal, uma política econômica de austeridade e a manutenção da reforma trabalhista, assim como as privatizações e a entrega do país, que, além de piorar a vida do povo, mantém e aprofunda as condições sociais e econômicas para o fortalecimento da extrema direita. Por isso, o PSTU se posicionou, e continuará se colocando, como oposição de esquerda ao governo Lula.
A atuação independente do PSTU, colocando a necessidade imediata de se derrotar, nas urnas, a extrema direita, quanto à necessidade de não se depositar nenhuma confiança num novo governo Lula, encontraram ressonância em parte importante do ativismo, que está chegando à conclusão da necessidade de se radicalizar, e de que a saída para a crise não está nas eleições ou em projetos de alianças com a burguesia e o imperialismo.