Não há esquerda radical sem ser oposição de esquerda ao governo Lula

Joana Salay
Não há esquerda radical sem ser oposição de esquerda ao governo Lula

A chamada Bancada da Esquerda Radical reúne parlamentares e pré-candidaturas do PSOL e do PT em torno de um manifesto com dez medidas programáticas. São, em geral, bandeiras corretas, que setores da esquerda já defendem e devem seguir defendendo. O mérito da iniciativa é divulgar o debate de programa numa esquerda que evita esse terreno. O problema começa quando esse manifesto é apresentado como suficiente para construir uma esquerda radical. Não é.

Um programa pode ter medidas progressivas e, ainda assim, não ser um programa de ruptura. A questão decisiva não é só o que se defende no papel, mas quem vai aplicar, contra quem e apoiado em que força social. Se a própria Bancada diz que é na economia que se revelam os compromissos políticos reais, então é preciso admitir que o centro da política econômica burguesa hoje está no governo Lula. Quem aplica o arcabouço fiscal? Quem mantém ministérios na mão da direita, Alckmin na vice, o apoio ao centrão no Congresso e os banqueiros satisfeitos? O mesmo governo que a Bancada integra ou apoia desde o primeiro turno.

Medida por medida, o mesmo limite

Reestatizar a Eletrobras e as refinarias é correto. Mas reestatizar sob controle de quem? Com ou sem indenização? Para colocar esses setores a serviço da classe trabalhadora ou para reconstruir estatais que sigam funcionando segundo os interesses do mercado?

O mesmo vale para um “Regime de Planejamento Orçamentário”. Planejar a economia é necessário, mas planejamento para quem? Um programa radical precisa partir das necessidades da classe trabalhadora: emprego, salário, moradia, saúde, educação, transporte, aposentadoria, comida barata e direitos. Num país dominado pelos bancos, pelo agronegócio, pelas multinacionais e pelo imperialismo, isso não será garantido sem enfrentar a propriedade privada dos grandes meios de produção. Ou o planejamento se apoia na mobilização dos trabalhadores para expropriar os monopólios e colocar os setores estratégicos sob controle da classe trabalhadora, ou será limitado pelo mercado, pela dívida pública, pelo Banco Central e pela chantagem imperialista.

Por isso, o problema do programa da Bancada não é apenas a ausência de uma ou outra medida. Nós não negamos a luta por reformas; ao contrário, partimos das reivindicações mais imediatas e sentidas pela classe trabalhadora. Mas é preciso dar a elas um eixo de classe. Falta dizer que essas reivindicações só podem ser levadas até o fim se estiverem ligadas a um programa da classe trabalhadora contra os capitalistas, contra o imperialismo e contra o governo que administra essa ordem. Dentro do capitalismo, toda reforma é limitada e pode ser revertida.

Mais uma vez sobre o combate à extrema direita e a viabilidade eleitoral

Diante da ameaça bolsonarista, romper com o governo fortaleceria a extrema direita? Não. Unidade de ação contra um ataque concreto, um golpe, a retirada de direitos ou o avanço da extrema direita não exige subordinação política a um governo burguês. Uma coisa é unidade para lutar contra a extrema direita ou contra uma medida do governo. Outra é uma frente política e eleitoral com setores que sustentam e compõem o governo.

Também se diz que o caminho possível para acumular forças hoje estaria dentro da Frente Ampla e do PSOL, pois “pureza programática” sem inserção de massas levaria à irrelevância. Mas o argumento desloca o debate. A questão é se uma política de esquerda radical pode se desenvolver dentro do campo político e eleitoral do próprio governo.

É preciso reconhecer o que há de real nessa objeção: a via independente tem baixa viabilidade eleitoral hoje e enfrenta o bloqueio do fundo eleitoral, do tempo de TV e das grandes legendas. Mas a via por dentro do campo do governo não resolve o problema da independência de classe. Se a alternativa independente ainda é pequena, a tarefa é construí-la maior, não abandoná-la em troca de mandatos dentro de um campo que administra a política que se diz combater.

Os limites da unidade proposta

Jones Manoel cobra PSTU, PCB e UP por não construírem unidade eleitoral. Mas essa cobrança vem de alguém que decidiu disputar pelo PSOL, partido que compõe o governo Lula, e que aderiu à lógica de apoio eleitoral ao lulismo no primeiro turno. A pergunta precisa ser feita sem rodeios: quer construir uma unidade da esquerda radical de verdade entrando no campo político do PSOL e do governo? Vale lembrar que o próprio companheiro recusou a oferta de filiação democrática feita pelo PSTU, optando pela via de maior viabilidade eleitoral.

O mesmo vale para o MES, que sequer exigiu no interior do PSOL uma candidatura presidencial alternativa a Lula. Também na atuação parlamentar acabaram cedendo à pressão da Frente Ampla, como na votação da Reforma Tributária, quando se abstiveram. Diante de um ataque à classe trabalhadora, a abstenção não desmascara a reforma nem o governo que a propôs; apenas evita o desgaste de votar contra a própria base parlamentar.

A contradição fica ainda maior quando a Bancada incorpora também o PT. Como reivindicar uma esquerda radical sem romper politicamente com o partido que comanda um governo capitalista? 

O que falta

A esquerda radical que o Brasil precisa não pode ser a ala mais combativa do campo lulista. Precisa ser alternativa contra a extrema direita e contra o governo de conciliação de classes ao mesmo tempo, dialogando com quem ainda tem ilusões em Lula, sem se subordinar a elas. 

O que falta no manifesto não é apenas uma medida a mais na lista, mas o eixo norteador: independência de classe, ruptura com o governo, expropriação dos grandes capitalistas sem indenização e luta por um governo socialista dos trabalhadores.

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