Nos 78 anos da Nakba, ecoar as vozes palestinas e se inspirar na resistência

Soraya Misleh
Nos 78 anos da Nakba, ecoar as vozes palestinas e se inspirar na resistência
Refugiados palestinos em 1948 Foto Hanini

Quando nos colocaram nos caminhões, vimos corpos empilhados ao longo da estrada como lenha. Uma mulher reconheceu seu sobrinho entre os mortos [...]. Ela começou a gritar. Ela ainda não sabia que seus três filhos haviam tido o mesmo destino. [...] A mãe sempre se recusou a acreditar e insistia que eles haviam fugido para o Egito e que um dia voltariam para encontrá-la. Passou o resto da vida esperando por eles.”

O relato é de um sobrevivente palestino sobre o que presenciou em sua aldeia, Tantura, aos 13 anos de idade, em 1948. O ano marca a Nakba – catástrofe palestina cuja pedra fundamental é a formação do Estado racista de Israel em 78% do território histórico da Palestina, mediante limpeza étnica planejada, em que genocídios como o de Tantura foram instrumentais.

Ao final, em seis meses, 800 mil palestinos foram expulsos violentamente de suas terras (2/3 da população) e cerca de 530 aldeias destruídas, além de 20 mil assassinados. Nove mil palestinos foram atirados em campos de concentração em que a tortura era a prática. Árvores nativas foram arrancadas, lagos e rios desviados, animais foram mortos. Israel se criou com fachada europeia, sobre os corpos, dor e lágrimas do povo palestino, sobre uma terra que segue a sangrar e gritar por justiça. Sobre os escombros dos vilarejos e cidades palestinas.

120 anos de colonização

A Nakba é lembrada sempre em 15 de maio, quando o projeto colonial sionista se consolida, marco de um processo que segue e se aprofunda. Diante de cumplicidade internacional histórica, Israel se sentiu avalizado para buscar a solução final. É o que se vê no genocídio em Gaza e na limpeza étnica acelerada na Cisjordânia/Cidade Velha de Jerusalém – territórios palestinos ocupados militarmente por Israel em 1967, os 22% restantes.

O povo palestino segue fragmentado: metade de 14 milhões está na diáspora/refúgio, metade dividida em sua própria terra, sob apartheid, colonização, limpeza étnica, genocídio. Além de Gaza e Cisjordânia/Cidade Velha de Jerusalém, hoje 1,9 milhão vivem na Palestina ocupada em 1948 (que hoje o mundo chama de Israel). São remanescentes da Nakba há 78 anos. Embora tenham “cidadania israelense”, não têm os mesmos direitos: há 65 leis racistas contra eles, diversas aldeias beduínas palestinas em que Israel não provê serviços básicos e uma ditadura que os impede de se expressar livremente.

Não é possível compreender os horrores de hoje sem olhar para os últimos 78 anos, resultado de 120 anos de colonização por povoamento na Palestina. Colonização por povoamento refere-se à substituição dos povos originários por estrangeiros. Exemplo é o extermínio de indígenas nas Américas. Como ensina o antropólogo Patrick Wolfe, não é um evento, é uma estrutura, vem para ficar. Busca eliminar os nativos, portanto exige limpeza étnica e genocídio.

A história da Palestina moderna e contemporânea é marcada por essa tragédia, a partir dos interesses inicialmente da Europa pela região do Oriente Próximo e Norte da África, região rica em petróleo, já ao final do século XIX, quando surge o projeto colonial sionista. Logo se alia ao imperialismo britânico à época para alcançar seu intento na Palestina. Israel se consolida como enclave militar do imperialismo do momento – atualmente os EUA.

Mas, para além dos partícipes da contínua Nakba, uma das mais longas injustiças da era contemporânea segue em curso, escancarando ao mundo atrocidades porque se sentiu à vontade diante de cumplicidade internacional histórica.

A maioria dos governos não cogita romper relações com o estado genocida. Recusa-se a cumprir com sua mínima obrigação legal, como signatário de acordos, tratados e Convenção de Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio, e impor sanções diante de crime contra a humanidade. Lamentavelmente, o Brasil não é exceção. É mais do que tempo de elevar a pressão e mobilização para que Lula rompa imediatamente relações militares, comerciais e diplomáticas com Israel.

Essa normalização de um Estado de apartheid e genocida por 78 anos não acontece no vácuo. Falando dos últimos 30 anos, Israel se converteu num shopping center de tecnologias da morte que depois servem à repressão, criminalização, vigilância, genocídios como do povo negro e pobre no Brasil, extermínios, como dos indígenas no País. Os palestinos são o laboratório, a cobaia humana.

Basta de Nakba

O que não se contava é que este povo não se rende. Tem em sua veia a perspectiva histórica da libertação. “Vários ocupantes passaram por estas terras, nenhum conseguiu ficar. Nenhum imperialismo dura para sempre”, dizem. O povo palestino se recusa a ser apagado do mapa, transmite memória, história, luta, pertencimento à terra de geração para geração. Existe porque resiste.

Israel expôs sua face brutal e segue em declínio. É preciso acelerar o início do fim do projeto colonial sionista. Inspirar-se na resistência palestina e ecoar suas vozes. Ampliar as mobilizações e ir às ruas no Brasil e no mundo por ocasião dos 78 anos da Nakba, na certeza de que a causa é síntese de todas as lutas justas contra a opressão e exploração, em qualquer parte do mundo. Israel não vai parar sozinho, precisa ser parado. Resistência até a vitória, até a Palestina livre do rio ao mar. Basta de Nakba!

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