O 1º de Maio é a memória que marcha e a luta que não envelhece

PSTU-RN
O 1º de Maio é a memória que marcha e a luta que não envelhece

Dário Barbosa, PSTU Natal (RN)

O 1º de Maio não nasceu do calendário oficial, nem de homenagem vazia feita por governos em palanques enfeitados. O 1º de Maio nasceu do chão duro das fábricas, do suor arrancado a ferro e fogo, do grito sufocado de homens, mulheres e crianças submetidos à engrenagem cruel de um capitalismo que crescia alimentado pela miséria de quem trabalhava.

No final do século XIX, sobretudo nos grandes centros industriais dos Estados Unidos e da Europa, a riqueza dos patrões era construída sobre jornadas desumanas. Trabalhava-se 14, 16, às vezes mais horas por dia. Recebia-se pouco, adoecia-se muito e morria-se cedo. Não havia descanso digno, não havia proteção, não havia direitos. Havia apenas a certeza de que, para os donos do poder, a vida operária valia menos que as máquinas.

Mas a história ensina uma verdade fundamental. A de que quando a exploração aperta demais, nasce também a resistência.

Foi nesse cenário que trabalhadores e trabalhadoras começaram a compreender que isolados seriam apenas peças descartáveis, mas organizados poderiam se tornar uma força social. Surgem então sindicatos, associações, ligas operárias e partidos comprometidos com a causa da classe. Mais do que isso, nascia a consciência de que a luta não conhecia fronteiras. A dor do operário em uma fábrica de Chicago era irmã da dor do mineiro europeu, da costureira, do ferroviário, do trabalhador portuário. A exploração tinha bandeira internacional; a resistência também precisaria ter.

Assim, no dia 1º de maio de 1886, milhares tomaram as ruas de Chicago, nos Estados Unidos, exigindo aquilo que parecia elementar, mas que para o capitalista era uma afronta. Os trabalhadores queriam a jornada de oito horas de trabalho.

O que pediam era simples. Tempo para viver, para respirar, para existir além da produção. Vida além do trabalho. Mas o sistema respondeu como quase sempre responde quando seus privilégios são ameaçados. Com violência e pólvora.

A repressão foi brutal. A polícia atacou a multidão, disparou contra trabalhadores e espalhou sangue pelas ruas. O número de mortos jamais foi precisamente conhecido. Como se não bastasse o massacre, o Estado tratou de fabricar culpados. Lideranças operárias, em sua maioria imigrantes, foram presas, julgadas de forma mentirosa e condenadas. Albert Parsons, Georg Engel, Adolph Fischer, Louis Lingg e August Spies tornaram-se mártires de uma causa que ninguém conseguiu enterrar.

Chicago virou uma ferida aberta, mas também farol. A partir dali, o mundo operário transformou o luto em bandeira. Em 1890, a data foi consolidada mundialmente como Dia dos Trabalhadores, proposta pela Segunda Internacional Socialista, para lembrar que cada direito conquistado custou organização, enfrentamento e, muitas vezes, a própria vida de quem ousou lutar.

No Brasil, essa chama também encontrou abrigo. Desde as primeiras greves operárias do início do século XX, especialmente a Greve Geral de 1917, o 1º de Maio ganhou um caráter de mobilização e denúncia. Mais tarde, Getúlio Vargas tentou domesticar a data, transformando-a em festa oficial, desfile cívico e concessão paternalista, rebatizada como “Dia do Trabalho”. Era a tentativa clássica de trocar independência de classe por conciliação de classe, luta por festa.

Mas a classe trabalhadora brasileira nunca deixou que o verdadeiro significado morresse.

Manifestação contra morte do metalúrgico Santo Dias, assassinado durante a greve de 1979 Foto Nair Benedicto

Nas décadas seguintes, e com força renovada nos anos 1980, o 1º de Maio voltou a pulsar nas greves, nas assembleias lotadas, nas ocupações e nas ruas, especialmente nas históricas mobilizações do ABC Paulista contra a ditadura e contra a superexploração. Sempre que os de baixo se levantaram, a data recuperou sua alma original, que é a da rebeldia organizada.

E é justamente essa alma que precisa ser defendida hoje.

Porque o capitalismo mudou de roupa, mas não de essência. Se ontem a exploração vinha com o apito da fábrica e a fumaça das chaminés, hoje ela se esconde atrás dos aplicativos, das metas inalcançáveis, da pejotização, dos contratos precários, da terceirização sem limites e da falsa promessa de “empreendedorismo” para quem segue sem direitos.

Mudaram as ferramentas, mas permanece a lógica de fazer o trabalhador produzir mais, ganhar menos e ter cada vez menos tempo para viver.

Ao mesmo tempo, cresce em setores do sindicalismo a perigosa tentação da conciliação permanente, da adaptação aos limites impostos por governos e patrões, da negociação sem mobilização e do discurso sem enfrentamento. Por isso, preservar a memória do 1º de Maio é preservar seu conteúdo de classe, seu espírito internacionalista e sua vocação de luta.

Não se trata de venerar o passado como quem olha um retrato antigo na parede. Trata-se de entender que os mártires de Chicago continuam perguntando, mais de um século depois, se estamos dispostos a manter acesa a chama que eles acenderam com a própria vida.

O 1º de Maio segue atual porque a injustiça segue atual. Segue necessário porque a exploração segue reinventada. Segue vivo porque enquanto houver um trabalhador sem descanso, uma trabalhadora sem salário digno, uma juventude condenada ao bico e ao subemprego, haverá motivo para tomar as ruas.

Por isso, neste 1º de Maio, é preciso transformar indignação em movimento e defender o fim da escala 6x1; a redução da jornada para 36 horas semanais, sem redução de salários, e combater sem tréguas à precarização do trabalho, que multiplica lucros enquanto espalha insegurança e adoecimento.

Não esqueçamos o exemplo dos que morreram em Chicago e dos que morrem até hoje. Nenhum direito caiu do céu, nenhum patrão abriu mão sozinho de seus privilégios, nenhuma conquista veio sem luta.

O futuro da classe trabalhadora será obra da luta da própria classe trabalhadora. Que o 1º de Maio fortaleça nossa luta para enterrar o capitalismo, e abrir caminho para a solidariedade e a fraternidade do socialismo.

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