O ouro, a lama e o poder

Érika Andreassy
O ouro, a lama e o poder

Em 1976, com não mais do que cerca de cinco minutos de tela no filme Todos os Homens do Presidente, a atriz Jane Alexander entregou uma atuação tão avassaladora que foi catapultada ao estrelato, garantindo uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante no ano seguinte. No papel de Judy Hoback, a contadora do Comitê para a Reeleição de Richard Nixon, ela suspira para o repórter Carl Bernstein, interpretado por Dustin Hoffman, a frase que resume o escândalo Watergate: “É tanta podridão...”.

Assistindo ao noticiário nacional nos últimos meses, é impossível não se lembrar do filme. O lodo que escorre das investigações da Polícia Federal sobre o topo da política institucional brasileira mostra que a realidade do nosso capitalismo consegue ser tão, ou ainda mais degradante do que o cinema hollywoodiano.

As revelações mais recentes, que vieram a público nesse 29 de setembro de 2026 — invoco a data por zelo, visto que, na velocidade com que este sistema produz escândalos, amanhã a lama de hoje já terá sido soterrada por uma nova avalanche — desenham um quadro nítido de como o aparato estatal opera como extensão direta dos interesses econômicos das diferentes frações da classe dominante.

De um lado, as denúncias de Alexandre Santini, ex-sócio do senador Flávio Bolsonaro detalham, além de despesas pessoais de alto luxo quitadas, entre outros meios, como um relógio Rolex de R$ 305 mil, o trânsito livre do senador pela cúpula do Judiciário, com mensagens que revelam a intermediação de interesses privados e lobbies diretos de Flávio dentro do gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, com direito a jantares secretos com chefias de gabinete para tratar de processos.

Do outro lado da falsa polarização, as investigações revelam despesas de luxo pagas pela lobista Roberta Luchsinger, incluindo uma viagem de R$ 1,8 milhão à Escandinávia para Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, apelidado de "guloso" nas mensagens da lobista, que utilizava a “amizade” com o filho do presidente, bem como com o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, para circular livremente pela Planalto e adjacências, vendendo facilidades e negociando contratos na Petrobras e no Ministério da Saúde.

Para fechar o arco, o presidente da Câmara, Hugo Motta, aparece em conversas de extrema intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, usando sua mansão oficial de forma promíscua e tratando de sociedades imobiliárias de R$ 101 milhões. Os diálogos revelam que o parlamentar atuava como um despachante do banqueiro no Congresso, monitorando a tramitação de projetos de lei, como a pauta dos créditos de carbono, além de articular intervenções políticas sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), colocando a engrenagem legislativa diretamente a serviço do enriquecimento privado.

Volto a Todos os Homens do Presidente, pois é difícil olhar para esse conjunto de notícias e não se sentir na pele da personagem de Jane Alexander diante de tanta podridão. Ao mesmo tempo, entendo que olhar para esse cenário com mera indignação moral é cair na armadilha da ideologia liberal. A contadora de Watergate chorava porque via o Estado sendo corrompido por "maçãs podres". Nós, pelo contrário, sabemos que o fruto nasce do próprio DNA da árvore capitalista.

O Estado burguês nunca foi, nem nunca será, um guardião do bem comum ou um mediador neutro da sociedade. Ele é, por definição, o comitê executivo que administra os negócios comuns de toda a burguesia. Em um país de capitalismo dependente como o Brasil, onde a burguesia nacional é historicamente parasitária e submissa ao imperialismo, a apropriação privada do fundo público e do orçamento do Estado funciona como motor da acumulação de capital. Os Rolex, as malas de dinheiro e as viagens de luxo à Escandinávia são apenas as gorjetas que as diferentes frações do capital pagam aos seus gerentes políticos para garantir seu próprio acesso ao fundo público.

É por isso que as campanhas moralistas de combate à corrupção, promovidas pela própria burguesia, terminam quase sempre em frustração. Elas são incapazes de tocar na raiz do problema porque, para o capitalismo, o controle do fundo público é uma questão de sobrevivência econômica. Em momentos de crise e estagnação, quando os lucros no mercado privado caem, os capitalistas avançam como hienas sobre o orçamento do Estado. A corrupção passa a ser a via expressa para garantir isenções fiscais, subsídios bilionários, privatizações a preço de banana e emendas parlamentares. Combater a corrupção preservando a propriedade privada e o livre mercado é como tentar secar o gelo. Quando muito, trocam-se os gerentes, mas o balcão de negócios continua funcionando a pleno vapor.

Cena do filme Todos os Homens do Presidente, de 1976

A extrema direita se alimenta de forma hipócrita dessa frustração popular com a impunidade crônica do regime. Ela canaliza a justa revolta da classe trabalhadora para um discurso falsamente "antissistema", que no fundo serve apenas para que uma nova ala de banqueiros e especuladores assuma o controle da chave do cofre, aprofundando o saque contra os nossos direitos. Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora não pode depositar nenhuma ilusão nas saídas puramente institucionais ou em pactos de governabilidade com os exploradores.

Isso não significa abrir mão de intervir nas disputas cotidianas, inclusive eleitorais, nem tampouco deixar de defender e exigir mecanismos radicais de controle, transparência e punição, como o fim do sigilo bancário dos poderosos e o confisco dos bens dos corruptos. Pelo contrário, significa entender que a nossa participação nesses espaços e essa disputa devem servir para desmascarar a farsa democrática burguesa, arrancar concessões sob pressão e exigir o que é nosso por direito. Mas sem nunca perder de vista que nenhuma reforma interna vai resolver o problema de fundo. Cada voto dado à alternativa socialista e cada espaço ocupado devem ser rigorosamente tratados como ferramentas de denúncia e de apoio à nossa verdadeira força: a organização política das trabalhadoras e dos trabalhadores com total independência de classe.

A indignação moral precisa se transformar em organização revolucionária. Precisamos apoiar e construir as lutas concretas nos locais de trabalho, estudo e moradia, unificando a classe trabalhadora de forma independente. É a partir do fortalecimento das nossas próprias organizações de base, e não da confiança nos tribunais ou nos arranjos do Congresso, que acumularemos as forças necessárias para destruir o Estado burguês pela raiz e colocar o controle da economia e das riquezas nas mãos de quem realmente produz. Só assim poderemos varrer o lodo capitalista e construir uma sociedade limpa de exploração e opressão.

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