As eleições de 2026 recolocam a discussão sobre a crise do PSOL. O partido elegeu 14 deputados federais, mas o resultado não encerrou a disputa sobre seu futuro. O destino dessa organização dependerá da política que adotarão diante do governo Lula e das lutas do próximo período, pois esse resultado convive e também resulta de uma aproximação cada vez maior do PSOL com o governo Lula e com o PT.
A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro foi uma vitória da mobilização dos trabalhadores e da juventude, que ultrapassou os limites da campanha governista. Mas o novo governo Lula seguirá fazendo conciliação de classes, comprometido com os interesses dos grandes empresários, dos bancos e do agronegócio. A força demonstrada nas ruas será necessária também para enfrentar o ajuste fiscal e os ataques aos direitos que virão do governo Lula, sem deixar de combater a extrema direita.
É diante dessa contradição que o PSOL terá de se posicionar. Depois de apoiarem Lula desde o primeiro turno, estarão dispostos a construir a luta contra os ataques do seu governo? Ou se contentarão com críticas pontuais? Evidentemente a ala ligada a Guilherme Boulos, que pode ir direto para o PT, aponta o caminho oposto a esse. Resta então o posicionamento dos setores da esquerda do PSOL. Com a possibilidade de saída dos setores mais petistas, farão oposição de esquerda ao governo?
Da ruptura com o PT à integração ao governo
O PSOL nasceu da resistência à reforma da Previdência do primeiro governo Lula e da ruptura com o PT. Em 2006, a candidatura de Heloísa Helena, numa frente com PSTU e PCB, alcançou 6,85% dos votos válidos. Apesar de seus limites e contradições, o partido disputava uma representação política à esquerda do governo.
O caminho seguido desde então levou o PSOL a uma posição oposta à que justificou sua fundação. O partido passou da oposição ao governo petista ao apoio a Lula desde o primeiro turno em 2022, à participação em seu governo e à renovação desse apoio em 2026. A conquista de mandatos passou a conviver com o abandono da disputa por uma alternativa nacional independente do PT.
Essa mudança se justificou pela necessidade de derrotar a extrema direita. Mas o governo de conciliação manteve o ajuste fiscal, os acordos com o Centrão e os interesses capitalistas que alimentam a exploração e a insatisfação popular. O bolsonarismo se fortaleceu, e sua derrota eleitoral exigiu a saída dos trabalhadores e da juventude às ruas, ultrapassando a própria campanha do PT.
Ao aderir ao governo, o PSOL compromete sua capacidade de disputar os trabalhadores com uma política independente. Pode conquistar votos para seus parlamentares e simultaneamente se enfraquecer como alternativa política. A existência de uma legenda separada não assegura, por si só, independência diante do PT. A participação em ministérios e os compromissos assumidos com a Frente Ampla criam responsabilidades diante de uma política que preserva os interesses capitalistas em detrimento das reivindicações da classe trabalhadora.
Boulos, Erika e os caminhos da crise do PSOL
A disputa sobre uma federação com o PT tornou explícitas as diferenças sobre até onde levar essa integração. Boulos, Erika Hilton e Revolução Solidária defendem uma aproximação mais direta com o PT. As tensões públicas envolvendo Erika revelam que a permanência na mesma legenda não encerrou o debate sobre o destino do partido.
O PSOL já perdeu algumas de suas principais referências públicas. Heloísa Helena deixou o partido para ingressar na Rede em 2015. Marcelo Freixo saiu para o PSB em 2021, defendendo a construção de uma aliança mais ampla para disputar o governo do Rio de Janeiro. Agora, a preparação da saída de Boulos, Erika e outros integrantes da Revolução Solidária, com 6 dos 14 deputados federais eleitos para o PT, coloca o partido diante de uma nova crise.
Para esse setor, a passagem ao PT leva adiante uma orientação que já aplica dentro do PSOL. Se a tarefa central é sustentar Lula e sua frente de conciliação, a existência de um partido separado passa a ser questionada em nome desse mesmo objetivo. A política de apoio ao governo acaba servindo de argumento para a absorção, pelo PT, de dirigentes e parlamentares que ganharam projeção no PSOL.
A saída da Revolução Solidária atingiria a representação parlamentar e a estrutura do partido. Mas sua permanência tampouco resolveria a crise: continuaria a pressão por uma integração maior ao PT. E a eventual saída da ala mais governista não apaga a responsabilidade dos setores de esquerda pela política que também ajudaram a aprovar.
A esquerda do PSOL está com a palavra
A divergência sobre a integração ao PT não impediu que a esquerda do PSOL aprovasse, junto com Boulos e a Revolução Solidária, o apoio a Lula desde o primeiro turno. Decidiram preservar a federação atual, mas sem romper com a política de subordinação ao governismo.
Essa opção também aparece na chamada Bancada da Esquerda Radical. Seu programa reúne reivindicações que respondem a parte das necessidades dos trabalhadores, mas não as vincula a uma estratégia de enfrentamento ao poder dos capitalistas e se omite na relação com o governo. Reestatizar empresas e planejar a economia são medidas cujo conteúdo depende de quem controla a produção e decide o destino da riqueza. Podem servir às necessidades dos trabalhadores ou permanecer subordinadas ao mercado e ao capital.
A mobilização pode impor concessões ao governo. Mas levar essas reivindicações até o fim exige enfrentar os interesses dos bancos, dos grandes empresários e do agronegócio que ele preserva. O governo de conciliação não é um instrumento neutro, cujo caráter depende de quem pressionar mais. Governa para preservar a propriedade, os lucros e o poder dos capitalistas. Apoiar esse governo mantém a expectativa de que ele possa realizar as mudanças e deixa de preparar os trabalhadores para enfrentá-lo.
Jones Manoel
Da filiação democrática à militância no PSOL

Jones Manoel anunciou que sua relação com o PSOL vai além da filiação democrática para disputar as eleições: pretende militar no partido e trabalhar para fortalecê-lo como organização militante. Sua escolha coloca uma questão política: fortalecer o PSOL com qual orientação? O partido apoia o governo Lula, e transformá-lo numa organização mais militante não resolve esse compromisso.
A estratégia revolucionária que Jones reivindica exige enfrentar a política de conciliação de classes. Como pretende desenvolvê-la num partido que apoia Lula? Seu mandato poderá usar identidade comunista em abstrato, mas, para ser coerente com isso, sua atuação precisa contribuir para que os trabalhadores rompam com a conciliação de classes e se organizem de modo independente do governo.
A participação nas eleições e no parlamento deve estar a serviço de organizar os trabalhadores contra o capital e seus governos. Se, para preservar o espaço eleitoral, essa oposição é abandonada ou adiada, a flexibilidade tática passa a comprometer a estratégia revolucionária. Se a atuação parlamentar reforça a expectativa nas pequenas concessões como caminho para o socialismo, compromete a estratégia revolucionária que deveria orientar o mandato.
Os próximos embates tornarão essa discussão concreta para Jones e para o conjunto da esquerda do PSOL. Votarão contra todas as medidas de ajuste que retirem direitos, mesmo sob pressão do governo? Recusarão cargos, para que não carreguem a responsabilidade pela política governamental? Ajudarão a organizar greves e manifestações contra o governo, inclusive quando forem acusadas de favorecer a extrema direita?
Além disso, votar contra os ataques é necessário, mas não basta. Será preciso enfrentar a política que os produz e ajudar a construir a força social capaz de derrotá-los. Isso exige apoiar a organização nos locais de trabalho, estudo e moradia, fortalecer a decisão pela base e combater as tentativas de conter as lutas em nome da governabilidade. Romperá com o apoio ao governo ou seguirá tentando conciliar as reivindicações dos trabalhadores com os compromissos de um governo dos patrões?
Governo Lula 4
Oposição de esquerda ou conselheiro do governo?
A mobilização que derrotou o bolsonarismo no terreno eleitoral coloca essa disputa num terreno concreto. A luta por saúde e educação públicas exigirá enfrentar o arcabouço fiscal e a prioridade dada aos grandes investidores da dívida. A demarcação das terras indígenas encontrará pela frente os interesses do agronegócio e os acordos do Planalto com esse setor.
É diante desses conflitos que deve ser discutida a proposta de uma “governabilidade a quente”. Nessa perspectiva, a mobilização serviria para pressionar o governo e, ao mesmo tempo, sustentá-lo. Mas, quando o próprio governo agir para bloquear as reivindicações, preservar sua governabilidade significará impor limites à luta. A força que derrotou a extrema direita nas urnas não pode ser contida para garantir os compromissos de Lula com a classe dominante. Uma oposição de esquerda deve preparar os trabalhadores para ultrapassar esse limite: organizar sua força para impor as suas reivindicações e disputar uma saída própria, sem condicionar seus objetivos à continuidade do governo de conciliação.
O futuro do PSOL dependerá dessa escolha. Se continuar ajudando Lula a governar, mesmo como ala crítica, o partido fortalecerá os setores que defendem sua integração ao PT. Para escapar desse abraço de urso, é preciso romper com o governo de conciliação de classes e construir uma oposição de esquerda que organize os trabalhadores em torno de um programa e de uma alternativa política própria. É impossível construir uma esquerda revolucionária a reboque do PT.